TRANSGRESSÃO E RESPONSABILIDADE

Uma das coisas que mais horroriza as mentalidades medíocres é a transgressão da regra. Segundo esse pensamento, a norma deve ser cumprida a qualquer custo, ainda que seu cumprimento seja a própria injustiça. É a “ética de Eichmann”, uma deturpação da moral kantiana, consistente na obediência irrestrita da regra e desresponsabilização pessoal pelo seu cumprimento. Eichmann, como dizia Hannah Arendt, não era especialmente perverso, mas fundamentalmente medíocre.

É um paradoxo que no ponto em que se está em maior conformidade com o poder – no cumprimento irrestrito de uma norma – se está igualmente no de menor responsabilidade, pois tudo que o “disciplinado” gostaria de invocar em seu favor é o contraste com o “irresponsável” transgressor. E, no entanto, ele, o disciplinado, é quem abdica de questionar a legitimação da sua ação para cumprir irrestritamente uma ordem, que por sua vez encontraria respaldo na ordem como um todo, isto é, na manutenção da Totalidade.

É claro que nem toda transgressão carrega consigo uma convicção que afronta o poder e se põe responsável por si mesma. Mas o ponto da verdadeira liberdade – o que tem tantos nomes, mas chamamos por aqui de  ingovernável – é justamente aquela ação que se responsabiliza integralmente por si mesma, sem qualquer álibi. Só há liberdade no ponto em que a ação não simplesmente coincide com a norma, mas a desativa, torna inoperante a partir da sua “superação”, tornando-se totalmente responsável por si mesma. Nesse nível, a liberdade coincide com a felicidade, e não com a propriedade.

Quando leio que na Líbia persistem os massacres da população e que seu ditador mostra claramente sinais de insanidade, tento imaginar como ainda podem existir indivíduos que cumprem as ordens desse sujeito. É graças a esses soldados – escravos de uma ordem abstrata – que os massacres ainda continuam. A “banalidade do mal” persiste. A mediocridade continua cultivando o fetiche da norma. Nesse caso, o sujeito ético só pode aparecer na transgressão. O terror de Estado – e não custa lembrar isso no nosso contexto brasileiro, onde parece viger o “Programa de Aceleração do Esquecimento” – só existe porque há Eichmanns dispostos a cumprir qualquer regra, desde que ela emane do poder.

Como evitar que essas subjetividades se proliferem? Não vejo porta de saída senão pela educação, e isso nos deveria abrir os olhos para o fato de que a educação é exatamente o oposto do que as demandas conservadoras gostariam que ela fosse: a simples imposição de regras. Educar não pode ser outra coisa que tirar da zona de conforto, desarticular, desestabilizar, desconstruir a violência da Totalidade para que enfim apareça a nudez do Rei. A consciência dessa nudez é também a consciência da nossa infinita responsabilidade.

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4 respostas em “TRANSGRESSÃO E RESPONSABILIDADE

  1. WTF! Infelizmente a mediocridade está presente em 90% das pessoas… : /

    Boa reflexão!

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