EDUCAÇÃO

Uma das acusações mais frequentes contra o pensamento de Derrida – por mais bizarra que pareça – é de que ele impossibita um diálogo ˜maduro” ou “adulto”. Digo bizarra porque não consigo compreender exatamente como se chega a essa conclusão. O curioso, no entanto, é que são sempre os setores mais conservadores da filosofia – que por sua vez ratificam os setores mais conservadores da sociedade – que o acusam disso.

Nesse sentido, se isso é verdade, Derrida é um autor incrivelmente pedagógico. Hoje o amigo Fabio Caprio Castro – ao lado de outros ótimos debatedores – comentou que a questão pedagógica é eminentemente a questão anti-pedagógica, isto é, como as instituições matam o “porquê” natural das crianças durante a primeira infância (e depois obviamente) a partir de um gesto puramente repressivo, já que o “adulto” não tem realmente explicações para as perguntas. E vi recentemente numa rede social uma frase em que se dizia que ter maturidade era saber lidar com a impossibilidade de transformar tudo.

Curioso: nos dois casos observa-se o quanto é necessário rejeitar essas noções de adulto e maduro, que caminham ao lado do pragmático e do realista. Todas essas palavras devem ser substituídas por outra bem mais simples e clara: conformista. Tudo que Derrida buscou evitar com a desconstrução era a naturalização do mundo, o enrijecimento das relações de força que marginalizam a partir de oposições em que um dos termos é dominante e outro dominado. Nesse caso, Frank ou Searle, por exemplo, têm razão: o pensamento de Derrida não é uma “conversa entre adultos”, mas um pensamento que verdadeira retorna à infância, dessedimenta tradições, habilita – a partir da desconstrução – uma reinvenção do mundo.

Hoje em dia, diante do colapso geral não apenas do capitalismo ou do liberalismo, mas da nossa própria forma-de-vida, cuja existência é ecocida, homicida e suicida, é necessário mais do que nunca desconstruir a naturalidade do mundo em que vivemos, liberar as perguntas, possibilitar a dúvida, viabilizar um pensamento que busque a reinvenção da nossa forma de habitar o mundo. O solipsismo disciplinar que comanda o ensino em geral é reflexo da estrutura individualista que a forma-de-vida ˜moderna” inventou, e que hoje é a razão da crise em que vivemos. Potencializar as subversões, desmascarar as abstrações cínicas, enfrentar as razões vulgares e cínicas, tudo isso é o desafio a quem se propõe educar – isto é, formar (e por isso, formar uma vida) – nos nossos dias.

 

LAICIDADE, TOLERÂNCIA E DIFERENÇA

As recentes manifestações de cunho religioso contra a decisão do STF que reconheceu o direito à união estável por parte dos gays e as respostas à criminalização da homofobia por parte da banda fascista do Parlamento são preocupantes. Mas já vou adiantando: não compartilho da visão de que a “laicidade” do Estado está sendo atacada por religiosos, tampouco que a criminalização da homofobia seja algo positivo. Não porque concorde com homofobia ou com as causas evangélicas, por óbvio. Quem lê o blog já deve ter percebido que penso de forma diametralmente oposta a tais grupos. No entanto, é preciso pôr algumas vírgulas nessas questões, pois são mais complexas que parecem.

Que papel desempenha o princípio da laicidade no mundo atual? No lugar onde é mais fortemente invocado, a França, é utilizado pelos “republicanos” contra minorias islâmicas a fim de preservar a “neutralidade religiosa dos espaços públicos”. Sabemos, contudo, que privar uma pessoa da possibilidade de ostentar um símbolo religioso não é neutro, mas uma atividade repressiva que envolve a tomada de uma posição cultural (no sentido forte, de ética, pertencimento a uma morada, ethos). Além disso, conhecemos a hipocrisia de tais proibições: fundadas na emancipação feminina (causa totalmente respeitável e urgente), elas não terão a mesma eficácia em proibir discursos católicos em relação à castidade das mulheres e ostentação de crucifixos. Em suma, a laicidade é hoje usada na França como máscara jurídico-política da xenofobia crescente no país. O que os franceses chamam de “laicidade” ou “republicanismo” não é outra coisa, observadas certas particularidades, senão a alergia ao estrangeiro.

Pode-se alegar, nesse sentido, que há casos mais simples: por exemplo, na questão da retirada dos crucifixos em salas de audiências (que, por sinal, foi rejeitada pelos magistrados brasileiros). É verdade. Nesse caso, teríamos uma estrutura de tribunal “neutra” da qual é possível desafogar os símbolos religiosos (obviamente, a objeção dos católicos é ridícula: comparar o Cristo Redentor, símbolo religioso-cultural em um espaço público, com um crucifixo em um espaço estatal é deixar de lado o bom senso). Porém imaginemos a seguinte situação: um aborígene neozelandês, guiado por práticas restaurativas que hoje influenciam as melhores correntes de pensamento criminológico, cai em uma sala de audiências. Será o espaço de um juiz acima das partes, vocabulário exótico e estrutura “trinária” algo realmente neutro para ele?

Podemos confirmar essas observações por meio da riqueza de estudos em filosofia política, antropologia e outras áreas acerca da secularização como processo de incorporação de conceitos teológicos à esfera profana. A obra Homo Sacer (enquanto sequência de trabalhos) do filósofo Giorgio Agamben é, nesse sentido, o maior exemplo, embora não seja o único nem o primeiro. Na realidade, a laicidade é, como ensina o português Fernando Catroga, o passo em que a secularização se converte em religião civil, paradoxo que põe em xeque as convicções liberal-modernas de que é possível eliminar esse tipo de problema mediante abstrações, sem uma direta conexão (profanatória, antropofágica, desconstrutiva, reacionária etc.) com a tradição.

Os liberais – e vivemos sob a égide do paradigma liberal na política – pensam na questão exclusivamente em termos de tolerância. A fórmula é de que as religiões diversas devem ser toleradas na esfera pública e relegadas à liberdade da esfera privada. A aposta no “laicismo” dos movimentos gay e feminista, por exemplo, no fundo reflete isso: a crença de que, gostem ou não de mim os fundamentalistas religiosos, é ainda possível em um Estado Liberal que este não interfira na esfera privada, deixando a liberdade de cada um intacta mediante a tolerância recíproca. É a perfeita imagem monádica do mundo, em que esferas atômicas cerradas em si mesmas mantêm a plena indiferença uma a outra, coincidindo a liberdade com a propriedade e resultando na crise ético-política que vivemos atualmente.

Acredito que devemos ir adiante e girar o foco menos para o “laicismo” (que pode ser útil em certos casos, e não se mostra ideia desprezível) e mais para a própria possibilidade de construção de discursos que ajam no interior das formas-de-vida, rompendo a crosta monádica do indivíduo-livre-e-tolerante moderno. É preciso perceber que o que vivemos atualmente é, sobretudo, um choque com a experiência positiva da política. Em outros termos: as posições conciliadoras que relegam a altos graus de abstração os problemas, a fim de fugir dos conflitos vitais, acabam por tornar tudo tão formal e abstrato que se transformam, por isso mesmo, em teorias desconectadas da realidade. Precisamos enfrentar essa experiência ético-política do entrechoque das formas-de-vida.

É necessário interromper a “tolerância” com o fascismo, não com violência contra os fascistas (daí minha crítica à utilização das vias penais), mas justamente exibindo a respectiva violência. Devemos mostrar que quem dá o soco e tem seu braço interrompido no meio do caminho não está sendo agredido por quem se defende. De outra forma: precisamos exibir o sofrimento daqueles que vivenciam a violência cotidiana opaca e muitas vezes alicerçada em tradições. Não que isso seja uma estratégia passiva; é uma estratégia pacífica. Os próprios cristãos – seguidores de uma sabedoria milenar – devem reagir contra a interpretação fanática e equivocada das Escrituras. Pois qualquer um que tenha estudado a história de Jesus de Nazaré – e para isso basta ter passado pelo colégio – sabe que sempre foi ao Outro, e não as moralistas, que ele se dirigiu. Não podemos nos conformar com a mera “tolerância”; devemos convencer as pessoas – por meio da concretude da violência que exercem – que elas precisam interromper esse processo, que elas precisam ser com a diferença. É preciso mostrar que é errado ser preconceituoso, violento, discriminatório com gays ou quem quer que seja (experiência sempre dolorosa de ruptura com nossos saberes prévios, com nossa segurança do ser, com nossa autoconservação). Essa experiência da política material – bem distinta dos moldes jurídicos da política liberal – é fundamental e precisa ser recuperada. Não devemos nos acovardar diante da magnitude da tarefa.

O MACHISMO NA CULTURA DA PERIFERIA

Uma das observações mais importantes que tive oportunidade de ouvir na palestra Filosofar hoje: desafios e perspectivas, do Prof. Christian Iber,  foi que a ética normativa é exercício mais insípido possível na filosofia. Não há ética sem uma análise das condições sociais que influenciam o comportamento dos indivíduos. Assim, sob certas condições é inviável exigir do indivíduo o cumprimento de mandamentos morais, sendo um exercício anódino e descontextualizador fixar, em abstrato, esses deveres. A ética, por isso, deve andar junto com a filosofia social.

Com o mesmo espírito, Giorgio Agamben pontua em O que resta de Auschwitz que Auschwitz é o ocaso da ética, onde todos os modelos até então vigorantes (da “arete” aristotélica, do “herói” grego, da “dignidade” cristã, do trágico nietzschiano etc.) caem em descrédito. Diante de figuras como o Sonderkommando e o Muselmann, há pouco a se dizer dentro dos parâmetros habituais, exatamente porque as condições a que o experimento biopolítico dos campos submete os viventes nele inseridos provocam a erosão de todos os parâmetros abstratos de julgamento da ética tradicional.

Quando leio que cresce o número de estupros no RJ, somado a outros dados que a investigação criminológica me fez conhecer, não posso deixar – evitando o vício intelectual da edificação da pobreza que, no fundo, repete o mito do “bom selvagem” – de fazer uma crítica do machismo daquele ethos que Alba Zaluar definiu pertinentemente como ethos guerreiro, consubstanciado na adoção de uma identidade de “guerreiro” do traficante da periferia (o que é traduzido igualmente na identidade do “soldado”, que MV Bill pontua nas suas músicas e é belamente retratado em Cabeça de Porco). Entre as características dessa cultura está a ideia de hipermasculinidade, exibição de símbolos fálicos (arma, poder) e “poligamia” com as mulheres do local e as “patricinhas” que vão atrás de “homens de verdade” nos morros. Esse ethos se forja sobretudo a partir do eixo do “respeito” (uma espécie de código de honra rigoríssimo e sujeito às respostas mais violentas possíveis) e das relações com a polícia, geralmente baseada em operações militares de extermínio como as que vemos retratadas em Tropa de Elite e a recente invasão do Complexo do Alemão. Na guerra (em especial na War on Drugs – assim, em inglês), é preciso de guerreiros. (É interessante observar, no entanto, como a dinâmica humilhação/respeito está presente igualmente no Norte, bastando ver o retrato traçado por Jock Young acerca do tema em A Sociedade Excludente e a própria cultura do hip hop norte-americano atual).

Portanto, esse ethos foi forjado em um contexto muito específico e de forma reativa. Evitemos o simplismo. Inclusive o simplismo de não perceber a ambivalência de que, ao mesmo tempo que a posição de mulher de bandido traduz uma condição relativamente insuficiente para a mulher, há uma cultura interessante de liberação sexual nesses locais em relação aos recalques da burguesia. Nenhuma solução simplista ou paternalista parece ser possível. Não é simplesmente uma “cultura de paz” que irá resolver essa quantidade de contradições e preconceitos em ricochete que se dão dentro desses contextos. Somente a justiça como força irruptiva pode cancelar essas divisões, abrindo a possibilidade de algo novo. Ademais, e dadas as condições estruturais que possibilitem, a transformação cultural do machismo da periferia precisa, necessariamente, vir da própria periferia, a partir das lutas micropolíticas tais como a Tati Quebra-Barraco ou outras forças emergentes que contestem o poder falocêntrico dos traficantes sobre esses espaços. O como isso será feito e o que será posto no lugar é algo que só o porvir dirá, sendo que, para não repetirmos o gesto de violência que repudiamos, as mulheres deverão ser as protagonistas dessa transformação.

TRANSGRESSÃO E RESPONSABILIDADE

Uma das coisas que mais horroriza as mentalidades medíocres é a transgressão da regra. Segundo esse pensamento, a norma deve ser cumprida a qualquer custo, ainda que seu cumprimento seja a própria injustiça. É a “ética de Eichmann”, uma deturpação da moral kantiana, consistente na obediência irrestrita da regra e desresponsabilização pessoal pelo seu cumprimento. Eichmann, como dizia Hannah Arendt, não era especialmente perverso, mas fundamentalmente medíocre.

É um paradoxo que no ponto em que se está em maior conformidade com o poder – no cumprimento irrestrito de uma norma – se está igualmente no de menor responsabilidade, pois tudo que o “disciplinado” gostaria de invocar em seu favor é o contraste com o “irresponsável” transgressor. E, no entanto, ele, o disciplinado, é quem abdica de questionar a legitimação da sua ação para cumprir irrestritamente uma ordem, que por sua vez encontraria respaldo na ordem como um todo, isto é, na manutenção da Totalidade.

É claro que nem toda transgressão carrega consigo uma convicção que afronta o poder e se põe responsável por si mesma. Mas o ponto da verdadeira liberdade – o que tem tantos nomes, mas chamamos por aqui de  ingovernável – é justamente aquela ação que se responsabiliza integralmente por si mesma, sem qualquer álibi. Só há liberdade no ponto em que a ação não simplesmente coincide com a norma, mas a desativa, torna inoperante a partir da sua “superação”, tornando-se totalmente responsável por si mesma. Nesse nível, a liberdade coincide com a felicidade, e não com a propriedade.

Quando leio que na Líbia persistem os massacres da população e que seu ditador mostra claramente sinais de insanidade, tento imaginar como ainda podem existir indivíduos que cumprem as ordens desse sujeito. É graças a esses soldados – escravos de uma ordem abstrata – que os massacres ainda continuam. A “banalidade do mal” persiste. A mediocridade continua cultivando o fetiche da norma. Nesse caso, o sujeito ético só pode aparecer na transgressão. O terror de Estado – e não custa lembrar isso no nosso contexto brasileiro, onde parece viger o “Programa de Aceleração do Esquecimento” – só existe porque há Eichmanns dispostos a cumprir qualquer regra, desde que ela emane do poder.

Como evitar que essas subjetividades se proliferem? Não vejo porta de saída senão pela educação, e isso nos deveria abrir os olhos para o fato de que a educação é exatamente o oposto do que as demandas conservadoras gostariam que ela fosse: a simples imposição de regras. Educar não pode ser outra coisa que tirar da zona de conforto, desarticular, desestabilizar, desconstruir a violência da Totalidade para que enfim apareça a nudez do Rei. A consciência dessa nudez é também a consciência da nossa infinita responsabilidade.