AS PEQUENAS REVOLUÇÕES DO RADIOHEAD

A obra do Radiohead é formada por aprofundamentos e reviravoltas intensas. Assim, The Bends (1995) leva Pablo Honey (1993) até o limite, Ok Computer (1997) leva The Bends até o limite, o mesmo acontecendo com Kid A (2000) em relação a Ok Computer e Amnesiac (2001) em relação a Kid A. De alguma forma, são álbuns que fazem o anterior tocar um ponto extremo de radicalidade que só matura com o tempo. The Bends aprofunda a rebeldia jovem de Pablo Honey;  Ok Computer densifica a crítica do vazio tratado em The Bends; Kid A leva ao extremo o lado maquínico ainda amalgamado em Ok Computer; Amnesiac, por fim, eleva esse maquinismo até o limite. Por outro lado, podemos igualmente enxergar esses conjuntos de álbuns como pequenas reviravoltas: dos roqueiros Pablo Honey e The Bends para os conceituais Ok Computer e Kid A/Amnesiac, seguidos de uma intervenção política em Hail to the Thief (2003). Eu, contudo, não havia percebido o real significado artístico de In Rainbows (2007), afora um belo conjunto maduro de canções. Só agora, com esse exótico The King of Limbs (2011), entendi finalmente.

Até agora, vinha interpretando a obra do Radiohead sobretudo a partir do respectivo conteúdo, isto é, do teor conceitual que todos os seus álbuns apresentam em menor ou maior medida. Finalmente percebi que os dois últimos discos estão com outro foco – voltados para a forma. Uma das principais questões do século XXI em que ingressamos é a dos direitos autorais e da circulação da cultura. Sabemos que a interpretação jurídico-liberal dessas questões está ligada sobretudo ao conceito de propriedade, do qual deriva inclusive a ideia de autoria (o “Eu” moderno, autor-gênio, é sobretudo um proprietário de si mesmo), traduzida como propriedade intelectual. A emergência da internet e seu evidente potencial subversivo a partir das redes piratas, do anonimato, da cultura da dádiva e dos novos arranjos políticos virtuais é, portanto, uma questão central para o nosso século.

Sabemos que o Radiohead foi uma das primeiras bandas a abdicar dos seus direitos autorais permitindo o download de In Rainbows pelo preço que o ouvinte quisesse pagar (talvez a que tenha realizado isso com o gesto mais significativo). Com isso, causou um abalroamento da indústria fonográfica – parte da “indústria cultural” – deslegitimando a preponderante posição conservadora dos artistas em relação aos seus direitos de propriedade intelectual. Por essa razão, a grande revolução de In Rainbows – apesar do absoluto brilhantismo das canções – não está no conteúdo, mas na forma. O Radiohead pôde “pousar na Terra” novamente, gravando um álbum mais acessível (embora complexo e já influente), porque era na forma de distribuição que o gesto político se movimentava.

Em “The King of Limbs” essa lógica é levada ao extremo. Com uma sonoridade muito menos acessível, mais quebradiça, estranha, próxima do desconforto inicial, o Radiohead duplicou o gesto de ruptura com a indústria cultural: além da distribuição continuar preponderamente com o mp3 via internet (o que inexoravelmente, e a banda sabe bem disso, provoca a pirataria), a forma do próprio álbum contaminou-se por essa lógica disruptiva. Assim, The King of Limbs não é propriamente nem um álbum nem um EP, mas algo entre eles (enquanto um EP costuma ter até 6 músicas, um álbum raramente tem menos de 10; King of Limbs tem 8); o primeiro single, “Lotus Flower”, não apenas foi lançado via youtube, fazendo uso da disseminação livre, como conta com uma performance paródica de Thom Yorke, em que é indecidível o sério e o cômico (tentem responder essa: Thom Yorke dança sozinho porque pensa que é um bom dançarino ou não?). Além disso, a própria separação entre som e imagem se esvaece, pois a performance tornou-se tão central para a própria canção que já é quase inviável a ouvir sem pensar em thom Yorke dançando. Com isso, a própria forma de definir um single é posta em questão (isso em um nível ainda superior ao que a MTV havia estabelecido).

 

The King of Limbs vai ainda mais longe nessa ruptura ao traçar suas canções de forma descontínua, inorgânica, voltando a um certo estilo próprio de Amnesiac: quebradiço, inconstante, maquinal. A simbiose homem/máquina que o Radiohead explora como ninguém não ganha agora outra forma política – não o afundamento melancólico na paranóia de Kid A ou a frieza industrial de Amnesiac – mas algo como uma miscigenação alegre, a tentativa de dançar com a máquina? Talvez esse estranho, exótico, quase incompreensível álbum esteja a sinalar algo desse gênero (deixo para comentá-lo em maiores detalhes em outra ocasião). O certo é que o Radiohead nesses últimos dois álbuns apresenta-se, definitivamente, como a primeira banda do século XXI.

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2 respostas em “AS PEQUENAS REVOLUÇÕES DO RADIOHEAD

  1. Gostei muito da sua análise, mas sou aberto para tais sonoridades estranhas como deste último albúm do Radiohead. Agora, qto a parte sobre a distribução e a ruptura com a indústria você tem toda razão, Radiohead chegou no séc. XXI para redefinir tudo na música.

    Ah! Excelente blog. Passei a acompanhar desde a dica do @iavelar.

    Abs

  2. uuuu.
    acertam nos acertos e nos erros também?
    a real é que eles tinham um conceito até OK Computer. depois disso, foi só barulho, bem ajeitadinho na masterização, cheio de desenhos e letras conceituais, mas cada vez mais barulhento.
    e daí reduziram o barulho pra tentar fazer um disco político em Hail to The Thief. de novo, focando o protesto nas letras, afinal as melodias já estavam esgotadas.
    e a partir de então foi só sofrimento em In Rainbows. maquininhas guiando um gemido de quem agoniza ante o mundo injusto. e esse novo disco…putz, cara…tenho medo de ouvir!
    se tu não diz que é genial, então quem dirá?
    tu já sabia que eu pensava essas bobagens todas.
    tomara, tomara que esses caras, que me piraram a cabeça nos 90, consigam tirar, não sei de onde, forças pra fazê-lo neste século. mas ACHBRAB.

    abraços

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