CRIMINOLOGIA DE GARAGEM # 3 – SOBRE AS MARCHAS

Enquanto o blog hiberna pela saturação de compromissos profissionais, curtam oi Criminologia de Garagem # 3 – sobre as Marchas, comigo, Salo de Carvalho e Felipe Oliveira, trilha de Beirut, Rage Against the Machine e Yeah Yeah Yeahs.

OS RURALISTAS DAS IDEIAS

No Brasil o adjetivo “ruralista” representa os donos de grandes propriedades não-urbanas, herdeiros das capitanias hereditárias, que embalam o “agronegócio” nacional “aquecendo” a economia com exportação, investindo em tecnologia e muitas vezes devastando o meio ambiente, geralmente para criação bovina ou monocultura. O interessante é que, apesar do aberrante tamanho de tais propriedades e da sua filiação “legítima” muitas vezes duvidosa (seja pela certidão de nascimento violenta na “fundação” do Brasil, seja por atos menos “gloriosos” como grilagem e ocupações violentas), pouco se questiona acerca disso. Com uma forte campanha difamatória que envolve manipulações grosseiras – mas geralmente ilude cabeças preguiçosas – o MST, por exemplo, é demonizado.

Em parte, está-se tentando fazer algo parecido com a questão da pirataria na Internet. Em vez de se perceber a virtude de novas formas de compartilhamento que rompem com a troca simétrica do capitalismo, não raro os mesmos que criticam os ruralistas (entre os quais um intelectual gaúcho que adora ironias) agora se tornaram ruralistas das ideias. Querem transformar a cultura em propriedade privada, como se o intelecto humano não fosse, por definição, público (o que sabemos bem desde que a ideia do autor-gênio moderno – em especial romântico – desabou). Em vez de observar o potencial desse compartilhamento que rompe com nosso modelo social e inaugura uma nova época, da qual fazem parte uma série de movimentos transversais que vão ganhando corpo pela Internet, preferem reagir de forma agressiva e estigmatizadora, etiquetando a “pirataria” de forma criminosa. (Aliás, não deveria ser novidade para esse intelectual que pelo menos desde Durkheim sabemos que inúmeros transformadores foram, no início, etiquetados como criminosos.)

Desde que venho defendendo a circulação livre de cultura, baseado no fato de que cultura não é “patrimônio”, mas forma-de-vida, tenho recebido tweets desse naipe:

(1) você pode recorrer ao Estado para obter os livros por meio de bibliotecas. É seu direito;

(2) se você não tem dinheiro, peça de presente um livro;

(3) você pode pedir o livro emprestado a um amigo;

(4) existem bibliotecas. Já ouviu falar?

(5) baixar livros é se apropriar indevidamente do conhecimento;

(6) quem defende baixar livros são “adolescentes anarquistas irresponsáveis”;

(7) quem defende baixar livros é como os “militares obscurantistas”;

Etc.

Enfim, coisas que eu jamais teria pensado sozinho e das quais eu não tinha nenhum conhecimento, p.ex., a existência de bibliotecas. O que esse pessoal de argumentos fracos – não por acaso do campo jurídico, onde os argumentos são tão abundantes quanto superficiais – não pode responder é, por exemplo, se uma pessoa que não dispõe de 100 reais para adquirir um livro de Heidegger deve ser privada de lê-lo. Da mesma forma, que os downloads não diminuem o volume de livros comprados, apenas diversifica. Além disso, como aconteceu na música, provavelmente será o declínio do jabá (e tem muita gente perdendo muito dinheiro com isso).

Em todo caso, as reações são sinal do mais profundo desespero. Pois, por exemplo, como chamar de obscurantista quem dissemina conhecimento? Ou por acaso a pseudoironia desse pessoal irá sustentar que isso não é disseminação, mas roubo (e se for, o problema está no ladrão ou no policial)? O desespero vem do fato que chamei aqui de “obsolescência do capitalismo”, ou seja, como o regime de propriedade e troca simétrica típica do ethos capitalista está trancando o desenvolvimento de novas tecnologias. A colisão está se tornando cada vez mais intensa e irá, fatalmente, desembocar numa reestruturação radical cujos rumos ainda não podemos prever, mas que certamente retirará as máscaras dos ruralistas das ideias mostrando o que realmente são: reacionários.

O MACHISMO NA CULTURA DA PERIFERIA

Uma das observações mais importantes que tive oportunidade de ouvir na palestra Filosofar hoje: desafios e perspectivas, do Prof. Christian Iber,  foi que a ética normativa é exercício mais insípido possível na filosofia. Não há ética sem uma análise das condições sociais que influenciam o comportamento dos indivíduos. Assim, sob certas condições é inviável exigir do indivíduo o cumprimento de mandamentos morais, sendo um exercício anódino e descontextualizador fixar, em abstrato, esses deveres. A ética, por isso, deve andar junto com a filosofia social.

Com o mesmo espírito, Giorgio Agamben pontua em O que resta de Auschwitz que Auschwitz é o ocaso da ética, onde todos os modelos até então vigorantes (da “arete” aristotélica, do “herói” grego, da “dignidade” cristã, do trágico nietzschiano etc.) caem em descrédito. Diante de figuras como o Sonderkommando e o Muselmann, há pouco a se dizer dentro dos parâmetros habituais, exatamente porque as condições a que o experimento biopolítico dos campos submete os viventes nele inseridos provocam a erosão de todos os parâmetros abstratos de julgamento da ética tradicional.

Quando leio que cresce o número de estupros no RJ, somado a outros dados que a investigação criminológica me fez conhecer, não posso deixar – evitando o vício intelectual da edificação da pobreza que, no fundo, repete o mito do “bom selvagem” – de fazer uma crítica do machismo daquele ethos que Alba Zaluar definiu pertinentemente como ethos guerreiro, consubstanciado na adoção de uma identidade de “guerreiro” do traficante da periferia (o que é traduzido igualmente na identidade do “soldado”, que MV Bill pontua nas suas músicas e é belamente retratado em Cabeça de Porco). Entre as características dessa cultura está a ideia de hipermasculinidade, exibição de símbolos fálicos (arma, poder) e “poligamia” com as mulheres do local e as “patricinhas” que vão atrás de “homens de verdade” nos morros. Esse ethos se forja sobretudo a partir do eixo do “respeito” (uma espécie de código de honra rigoríssimo e sujeito às respostas mais violentas possíveis) e das relações com a polícia, geralmente baseada em operações militares de extermínio como as que vemos retratadas em Tropa de Elite e a recente invasão do Complexo do Alemão. Na guerra (em especial na War on Drugs – assim, em inglês), é preciso de guerreiros. (É interessante observar, no entanto, como a dinâmica humilhação/respeito está presente igualmente no Norte, bastando ver o retrato traçado por Jock Young acerca do tema em A Sociedade Excludente e a própria cultura do hip hop norte-americano atual).

Portanto, esse ethos foi forjado em um contexto muito específico e de forma reativa. Evitemos o simplismo. Inclusive o simplismo de não perceber a ambivalência de que, ao mesmo tempo que a posição de mulher de bandido traduz uma condição relativamente insuficiente para a mulher, há uma cultura interessante de liberação sexual nesses locais em relação aos recalques da burguesia. Nenhuma solução simplista ou paternalista parece ser possível. Não é simplesmente uma “cultura de paz” que irá resolver essa quantidade de contradições e preconceitos em ricochete que se dão dentro desses contextos. Somente a justiça como força irruptiva pode cancelar essas divisões, abrindo a possibilidade de algo novo. Ademais, e dadas as condições estruturais que possibilitem, a transformação cultural do machismo da periferia precisa, necessariamente, vir da própria periferia, a partir das lutas micropolíticas tais como a Tati Quebra-Barraco ou outras forças emergentes que contestem o poder falocêntrico dos traficantes sobre esses espaços. O como isso será feito e o que será posto no lugar é algo que só o porvir dirá, sendo que, para não repetirmos o gesto de violência que repudiamos, as mulheres deverão ser as protagonistas dessa transformação.

ROCK E REVOLUÇÕES ÁRABES

Lendo o ótimo dossiê da Revista Cult acerca dos países árabes e suas revoluções constatei em dois artigos a influência do rock (em especial do heavy metal) e do hip hop como elementos que impulsionaram a juventude dos países a lutar pela democracia e pela liberdade. Não muito diferente, aliás, do que foi o rock como força impulsionara dos movimentos do 1968 – heterogêneos entre si – mas que constituíram o último suspiro do político no século XX.

Com isso, creio que lamentáveis livros como o de Finkielkraut, no qual ataca o rock como decadência da cultura, vão parar no lugar onde deveriam estar: na prateleira dos velhos nostálgicos e rabugentos. O velho nostálgico é dono daquele cansativo mantra: “no meu tempo era melhor, agora está tudo decaído, perdido”; o velho rabugento é aquele que reclama de tudo indiscriminadamente, veiculando uma espécie de pessimismo difuso que não raro se encontra com o preconceito. Livros como o de Finkielkraut e toda turma que vê fenômenos contemporâneos como o rock e a tecnologia de ponta como sintomas de decadência terão que ser revistos imediatamente a partir das revoluções árabes, embaladas pelo rock e mediadas pelo twitter e pelo facebook.

É evidente que isso não significa, de outra mão, um otimismo tolo com relação a esses fenômenos. Como em tudo, a política está também presente tanto no rock quanto nas novas tecnologias. O rock é atravessado pela disputa entre o movimento de consagração (a separação que estetiza a política, retirando dela seu sentido vital) e o movimento de profanação (o novo uso que politiza a arte, transformando-a em forma-de-vida). De um lado, estão os defensores do cânone e os produtos da indústria do espetáculo (estes últimos provavelmente os alvos de Finkielkraut, que contudo banalizou demais as coisas até um ponto em que a indiferenciação se torna violenta e preconceituosa), que estetizam a dimensão vital do rock, transformando-o em artigo formulaico e repetitivo, ou simplesmente uma forma vazia que se vende ao lado das balas e dos chocolates. De outro, estão aqueles que buscam com o rock transtornar a ordem, invertendo o sagrado na dimensão do maldito profanado, isto é, de um maldito que não quer ser o oposto do sagrado, mas apenas desestabilizá-lo, tirá-lo da esfera separada, desfazer seu arranjo violento. Esse maldito profanado – que é a própria essência de algum heavy metal – por óbvio teve o efeito de desfazer a concentração das energias políticas do Oriente Médio na religião (que por sua vez permitiu a ascensão dos fundamentalismos) – permitindo à juventude reivindicar novos arranjos políticos. O hip hop, por outro lado, seguindo sua tradição, foi o próprio grito das vozes silenciadas, fazendo ecoar a alteridade que era sufocada pelas polícias diversas que organizavam esses países.

Espero que, diante das revoluções árabes, as críticas de certa esquerda rabugenta possam ser capazes de perceber as sutilezas desse processo, substituindo seus preconceitos de pura rabugice por uma parceira produtiva com todas as forças subversivas que possam contestar as forças que mantém a injustiça nas nossas sociedades.

A WIKILEAKS E O ESTADO DE EXCEÇÃO

O fato de os Estados Unidos e outros países estarem comprando uma verdadeira guerra contra a Wikileaks, inclusive usando Cortes Marciais, acusações temerárias  e estratégias de exceção (como discutíamos no twitter @fabriciopontin, @iavelar e eu) revela que o diagnóstico prenunciado por Giorgio Agamben à época do livro “Estado de Exceção” provavelmente estava correto. Em outras palavras, a crise que se arrasta sobre os estados-nação está a indicar que a matriz oculta do poder soberano – o estado de exceção – está cada vez mais a se tornar a regra de funcionamento desses estados.

No entanto, para compreender o real porquê de Agamben estar correto é preciso desfazer algumas confusões. A principal é a interpretação do constitucionalismo contemporâneo acerca do livro mencionado (cuja influência se faz visível inclusive em julgados do Supremo Tribunal Federal, provavelmente por ricochete, ao usar a expressão do título sem que ela esteja diretamente prevista na legislação). Partindo do mitologema do contrato social típico do liberalismo político, os constitucionalistas lêem a tese como se o estado de direito consolidado estivesse cada vez mais sob ataques do estado de exceção. Tratar-se-ia, dessa forma, de “resistir” afirmando os direitos e garantias fundamentais contra o abuso de poder.

Nada menos condizente com a tese de Agamben. Para o filósofo italiano, estado de direito e estado de exceção não constituem um par de opostos, mas estão em relação complementar. Na realidade, o estado de exceção é o que precisamente sustenta o estado de direito, ainda que às vezes permaneça oculto. Se a raiz do poder soberano não é um contrato – e quanto a isso creio que basta abrir bem os olhos – o algo que sustenta até mesmo a constituição é justamente o estado de exceção. Hoje, com a crise dos estados, essa matriz oculta torna-se cada vez mais visível e pode se tornar indissociável do estado de direito. Para quem não entendeu esse ponto, recomendo a leitura de “Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua”, onde Agamben literalmente desenha isso.

Por que a Wikileaks confirma a tese? Basicamente porque os estados não podem tolerar que seja mostrada a verdade acerca do seu real funcionamento – isto é, que seja tocado precisamente esse nervo mitológico que lhe dá credibilidade. Dizer a verdade acerca do estado é, em outros termos, terrorismo. Não que efetivamente essa etiqueta caiba ao caso, mas é interessante perceber que a elasticidade desse significante passou a abranger inclusive o dizer a verdade – a parrhesia. Quando esse dizer inclemente da verdade se confunde com o conceito de terror, temos um sintoma claro de que os fundamentos míticos sobre os quais estão erguidos esses monumentos civilizatórios estão abalados. E não por acaso esses estados acionam contra a Wikileaks suas defesas mais extremas, inclusive a defesa do fuzilamento. Numa época de crise na “força de lei” que sustenta os estados, é necessário apelar a todas as defesas possíveis, inclusive as mais extremas. Nesse caso, a menos que nossa consciência escape das categorias modernas, as próprias distinções esquerda/direita ou liberal/conservador podem perder o sentido, pois o que nenhuma dessas ideias identificadas com diferentes tipos de “governos” podem aceitar na Wikileaks é que ela produziu algo cujos estados não mais toleram: a política.

TRANSGRESSÃO E RESPONSABILIDADE

Uma das coisas que mais horroriza as mentalidades medíocres é a transgressão da regra. Segundo esse pensamento, a norma deve ser cumprida a qualquer custo, ainda que seu cumprimento seja a própria injustiça. É a “ética de Eichmann”, uma deturpação da moral kantiana, consistente na obediência irrestrita da regra e desresponsabilização pessoal pelo seu cumprimento. Eichmann, como dizia Hannah Arendt, não era especialmente perverso, mas fundamentalmente medíocre.

É um paradoxo que no ponto em que se está em maior conformidade com o poder – no cumprimento irrestrito de uma norma – se está igualmente no de menor responsabilidade, pois tudo que o “disciplinado” gostaria de invocar em seu favor é o contraste com o “irresponsável” transgressor. E, no entanto, ele, o disciplinado, é quem abdica de questionar a legitimação da sua ação para cumprir irrestritamente uma ordem, que por sua vez encontraria respaldo na ordem como um todo, isto é, na manutenção da Totalidade.

É claro que nem toda transgressão carrega consigo uma convicção que afronta o poder e se põe responsável por si mesma. Mas o ponto da verdadeira liberdade – o que tem tantos nomes, mas chamamos por aqui de  ingovernável – é justamente aquela ação que se responsabiliza integralmente por si mesma, sem qualquer álibi. Só há liberdade no ponto em que a ação não simplesmente coincide com a norma, mas a desativa, torna inoperante a partir da sua “superação”, tornando-se totalmente responsável por si mesma. Nesse nível, a liberdade coincide com a felicidade, e não com a propriedade.

Quando leio que na Líbia persistem os massacres da população e que seu ditador mostra claramente sinais de insanidade, tento imaginar como ainda podem existir indivíduos que cumprem as ordens desse sujeito. É graças a esses soldados – escravos de uma ordem abstrata – que os massacres ainda continuam. A “banalidade do mal” persiste. A mediocridade continua cultivando o fetiche da norma. Nesse caso, o sujeito ético só pode aparecer na transgressão. O terror de Estado – e não custa lembrar isso no nosso contexto brasileiro, onde parece viger o “Programa de Aceleração do Esquecimento” – só existe porque há Eichmanns dispostos a cumprir qualquer regra, desde que ela emane do poder.

Como evitar que essas subjetividades se proliferem? Não vejo porta de saída senão pela educação, e isso nos deveria abrir os olhos para o fato de que a educação é exatamente o oposto do que as demandas conservadoras gostariam que ela fosse: a simples imposição de regras. Educar não pode ser outra coisa que tirar da zona de conforto, desarticular, desestabilizar, desconstruir a violência da Totalidade para que enfim apareça a nudez do Rei. A consciência dessa nudez é também a consciência da nossa infinita responsabilidade.

RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.

O HORROR! O HORROR!

A conhecida frase de Joseph Conrad é a precisa sinalização de um ponto do qual se teve absoluta consciência apenas no século XX: o perfeito encontro entre civilização e bárbarie ou, dito de outra forma, o momento em que a civilização é bárbara.

A medula do século XX que inspirou tantos filósofos e sociólogos é justamente a constatação de que o progresso técnico-industrial típico do otimismo moderno não havia encaminhado as sociedades para um estado superior, para uma boa vida, e sim para um inferno particularmente inóspito que substituía uma barbárie por outra. Essa é a consciência que ilumina em especial as obras de Adorno e Benjamin, entre outros, e que levou o último a afirmar que todo monumento de cultura é também um monumento de barbárie. Conrad sintetizou tudo isso com a expressão “O horror!”, proferida por um enviado da “civilização” que confidencia a absoluta barbárie escondida por trás das luzes.

Hoje, essa consciência ainda permanece perfeitamente atual. O progresso técnico incomparável dos últimos 50 anos não nos levou a uma sociedade onde a vida é qualificada, mas a uma espécie de barbárie high-tech, onde os chicotes foram substituídos por buzinas e as facas e pistolas por pedais de acelerador. Não são os habitantes do medievo brasileiro, aqueles que ainda não tiveram acesso à Modernidade –  a vida nua nas favelas, palafitas e morros brasileiros –  o retrato fidedigno da nossa barbárie. Ela se expressa antes em carros blindados e bem polidos, na selvageria do desfile barulhento e nauseante da fumaça, da borracha, da buzina e do motor.

Nada poderia testemunhar essa barbárie com mais veemência do que o atropelamento dos ciclistas da Massa Crítica em Porto Alegre. Independentemente das circunstâncias particulares, o evento apresenta uma imagem que é a própria expressão da barbárie cotidiana em que vivemos: a Massa Crítica é atropelada por um veículo. As imagens do cotidiano às vezes falam mais do que qualquer argumento.

A Massa Crítica, um coletivo horizontal e anarquista com o certeiro lema “pedalando por um mundo mais respirável” é violentamente agredida por um ser simbiótico (homem/carro) intoxicado pela dinâmica urbana regida pelo imperativo da pressa, paranóia e guerra de todos contra todos, não é a própria expressão do fascismo reagindo contra a diferença? O ódio violento, a vontade desesperada de erradicar qualquer dissonância e singularidade que arranhe a Totalidade materializada no trânsito não é o gesto mais comum e infelizmente repetido do fascismo cotidiano ainda não destruído? O constrangimento com que se noticia e as instituições respondem – inclusive chamando o fato de “acidente” – não é uma mea culpa constrangida por tratarem toda manifestação política como uma “interrupção do fluxo de automóveis”? Nada, afinal, deveria interromper o fluxo de automóveis, hoje a imagem sinistra e doentia da própria Totalidade.

A FALÁCIA CULTURALISTA

Samuel Huntington ficou conhecido como autor de Clash of Civilizations, o “Choque de Civilizações”. Autor identificado com os neocons norte-americanos e bastante útil como fonte na Guerra ao Terror promovida por George W. Bush, já deveria ter caído na irrelevância, não fosse certa insistência de alguns em etiquetar como “pós-moderno relativista” tudo aquilo que se opõe ao violento etnocentrismo ocidental.

Escrevo hoje (28-01) enquanto as manifestações no Egito, que seguiram a Tunísia, estão em pleno andamento. Não sei que consequências advirão. Não sei se ao ditador atual será sucessor um teocrata, tal como ocorreu no Irã. Mas não posso deixar de me posicionar sobre o assunto, pois prefiro errar, como Foucault errou, do que me proteger na casca da neutralidade que, no fundo, é a mesma da irrelevância.

O que me interessa nesse momento é desmascarar Huntington e sua tese como aquilo que o antigo marxismo chamava a mais crassa “ideologia”. Por trás de um sistema de violenta dominação do Ocidente sobre o Oriente, em especial pelos poços de petróleo e os numerosos colonialismos ao longo dos últimos séculos, a tese de que o conflito com o mundo islâmico (totalmente heterogêneo entre si) é um conflito eminentemente cultural entre o Ocidente-iluminista, defensor da democracia dos direitos humanos, e o Oriente-fundamentalista, defensor do islamismo fanático e do obscurantismo, é simplesmente uma farsa. Como podemos ver com a Tunísia e o Egito, essas populações não têm ressentimento do Ocidente apenas por divergências culturais (a religião adotada, o vestuário, os símbolos, a alimentação etc.), mas por enxergar nele o apoio a ditaduras cruéis, opressão, miséria e fome. É impossível não ligar a emergência do fundamentalismo como uma resposta (como disse certa vez Habermas) “anarco-fascista”, um grito violento de vozes silenciadas, a esse status quo mundial (do qual, a despeito da grandeza da tradição semítica, Israel faz parte enquanto Estado protagonista ). Tratar isso como se fosse um conflito estético-cultural é da profundidade de um pires, se não for simplesmente má-fé.

Não sei se haverá democracia liberal na Tunísia e no Egito depois da derrubada dos déspotas. A democracia liberal, ao contrário do que pensa uma parte da filosofia política contemporânea, é um fenômeno cultural vinculado a certo ethos em que conceitos como indivíduo, contrato, troca, direito e humano são estruturantes. Não é a única opção. A própria oposição laico/religioso merece ser posta em outros termos. (Para quem quiser mais detalhes da minha posição, pode consultar artigo sobre o tema “fundamentalismo religioso” na parte dos artigos acadêmicos.)

O certo, porém, é que a irresignação e as fontes com que se espalhou (twitter, facebook etc.) são sinal de que os tempos estão mudando e talvez haja muitos escrúpulos em percebê-lo. A influência da Wikileaks, fonte de uma cyberguerra que apenas começou, mas onde estão em jogo os principais fundamentos do status quo, representa que tais especulações não são apenas otimismo de esquerda. O fato de Julian Assange ser etiquetado como “terrorista” por mostrar a verdade (que curioso, a verdade é terror!) é, ao mesmo tempo, um mau e bom sinal. Mau, porque significa um estado de exceção em plena ativação, pronto a funcionar com todas as armas criadas pela Guerra ao Terror de Bush. Bom, por outro lado, porque significa que o nervo central dos poderes mundiais – em todas as esferas, da econômica à moral – ainda podem ser tocados e despedaçados. Recolher as vozes descontentes nesse processo não significa adotar uma idílica política do “bom selvagem”, passando a ser aliado de fundamentalistas cujas ideias são diametralmente opostas a tudo que uma esquerda gostaria de contar, mas encontrar meios e formas criativas de focalizar a energia subversiva para a vida, recuperando o espaço que antigamente se chamava de política.

 

PS: Depois de escrever esse texto e ao chegar das primeiras férias, resolvi antecipar sua publicação, uma vez que encontrei textos de Vladimir Safatle (aqui) e Slavoj Zizek (aqui) no mesmo sentido.

EXPERIÊNCIA E AUTORIDADE

Não resta dúvida que vivemos na época do declínio de toda e qualquer autoridade. De certa forma, a cultura punk mergulhou tão profundamente no nosso imaginário social que, realmente, a juventude não reconhece mais autoridades quaisquer. As demandas desesperadas do neoconservadorismo que impregna os jornais cotidianos não passam de gritos desesperados por um tempo que passou, como, aliás, é típico dos “neos” (todo “neo” traz junto consigo uma crosta de decadência). Ora, o problema aqui não é a decadência da autoridade, mas de toda e qualquer autoridade.

A Modernidade – em especial a partir daquilo que denominamos Iluminismo – é a rejeição de toda e qualquer autoridade que não a razão. Isso é bom? Parece maravilhoso. De fato, se pensarmos na sombra que lhe antecedia do dogmatismo medieval e do direito divino dos reis, foi um avanço assombroso. O problema, dito em forma coloquial, é que o Iluminismo jogou fora o bebê junto com a água suja da bacia.

Se é absolutamente legítimo pretender que toda autoridade seja fundada na razão, certo, porém, é que existe um âmbito da experiência humana que não se reduz à racionalidade calculadora típica da Modernidade desde Descartes e Leibniz. Esse âmbito poderia ser chamado simplesmente de “vida”. Ao reduzir a filosofia à epistemologia (teoria do conhecimento), a Modernidade encurtou o âmbito da experiência humana, reduzindo tudo aquilo que não tinha legitimidade epistemológica à esfera puramente subjetiva e privada (sobre o tema, autores díspares como Gadamer e Adorno estão de pleno acordo, recomendo Verdade e Método e Minima Moralia). Com isso, plantou a semente para o individualismo monádico da contemporaneidade (muitas vezes perverso e narcisista, chegando ao limite em ações como queimar um índio, bater em uma prostituta, pichar um morador de rua, espancar um “playboy”, apenas para o gozo) e a impossibilidade de se reconhecer qualquer autoridade. O punk – com toda sua ambivalência (fugindo de descrições edificantes, é preciso dizer que o punk oscila do anarquismo ao neonazismo) – é uma expressão estético-cultural desse fenômeno.

Então, relegitimar a autoridade, como defendem os neoconservadores nas suas discussões infindáveis sobre a “falta de limites” na educação? Se estivéssemos simplesmente a ratificar essa posição, estaríamos ao lado do pior do pior do reacionário no Brasil (digamos, quase nível TFP). A questão é perceber que a autoridade, como diz Gadamer, não é simplesmente a que manda, mas a que sabe mais. A autoridade não deve ser o pujante, mas o sábio. A questão é, no horizonte da nossa sociedade de espetáculo e do consumo, ainda somos capazes de produzir sábios?

Como já foi dito, ao encurtar o campo da experiência para o âmbito estrito do conhecimento e retirar qualquer saber prático do campo de legitimidade filosófica, a tradição moderno-iluminista delegou ao âmbito subjetivo – da plena liberdade no âmbito privado e tolerância no âmbito público – essa esfera de saber. (Precisaríamos de muito mais linhas para mostrar o quanto essas ideias são falaciosas e simplesmente falsas.) Com isso, produziu um declínio nesse saber que hoje se traduz na incapacidade de os sujeitos mais velhos narrarem seu conhecer por simplesmente não terem qualquer conhecer. As conquistas da geração-68, ao serem capturadas pela sociedade do espetáculo, deixaram de lado a energia utópico-messiânica para ficar apenas com a parte mais frágil: a “juventude eterna”, essa que aparece em comerciais de tinta para cabelos brancos.

O resultado disso é um conjunto de velhos ridículos, isto é, velhos que não reconhecem o valor da experiência vivida que tiveram (porque, às vezes, simplesmente não viveram, eram sonâmbulos morimbundos que apenas sobreviviam ao stress enquanto adquiriam bens de consumo) e têm como único objeto parecer jovens a partir de procedimentos cirúrgicos que apontam para o corpo como plataforma biopolítica da sociedade do espetáculo. Trata-se de uma gravíssima crise cultural, pois, pergunto, como poderiam os jovens reconhecer a autoridade (o saber mais) nesses velhos? Quando os pais querem ser iguais aos filhos, a própria noção de autoridade se implode, uma vez que só resta a figura do irmão, jamais a do pai. Como diz o amigo Luciano Mattuella em interessante artigo sobre o tema, sem a mediação de uma tradição que possa dialetizar, o sujeito contemporâneo vive em permanente desamparo.

A transformação de autoridade baseada no poder e na disciplina para a ausência total de autoridade (ou, se quisermos, da sociedade punitiva para a sociedade permissiva) levou ao modelo social em que vivemos, onde a perversidade parece ganhar ares de mal-estar similar ao que a neurose ocupava no século XIX e início do XX. Um pensamento que se preocupe em pensar a própria vida – como uma tradição filosófica jamais deixou de fazer – deve se encarregar da transformação de autoridade disciplinar para a autoridade da experiência, amparando o desorientado sujeito contemporâneo a partir do cuidado e da sabedoria.