ANACRONISMOS

Sou ingênuo e sonhador. Sou um desses malucos perigosos que quer mudar o mundo. Tenho a crença, hoje totalmente ultrapassada e dinossaura, de que é possível transformar o mundo para melhor. Que perigo! Ao teu lado estão Mao, Pol-Pot e toda essa catrefa! (Ah, sim, e com eles muita gente mais, não é?) Sonho com um mundo mais justo. Penso, sim, que existem formas muito claras que definir o que é justo, e nem sempre coincidem com conteúdos legais. Perigoso como sou, acredito que as pessoas estão acima das instituições. Entre indivíduos e as instituições a que eles pertencem, dirijo minha crítica preferencialmente a estas. Acredito, ultrapassado como sou, que nem todos são cínicos, hipócritas e estão dispostos a praticar uma canalhice para obter vantagem pessoal. Ou ainda que se a maioria é assim, bem, isso continua sem ser uma lei, pois não há “natureza humana” qualquer que seja ela. De vez em quando, surgem indivíduos como Gandhi, Mandela, esses que resistem ativamente ao poder de uma forma tão direta que com eles sabemos que a manutenção do status quo é apenas questão de tempo. Penso, embora esteja errado, que existe vida para além do dinheiro. Aliás, penso que não devemos ter medo de pensar. Utopia, essa moda velha que ninguém mais quer, sim, de certa forma eu compartilho dessa ideia. Não acho que a história acabou. Não acho que o capitalismo e tampouco o liberalismo político é intocável. Não acho que aqueles que pensam que o mundo pode ser diferente devam ser estigmatizados como são. Nutro ilusões – severas ilusões nessa terra de lobos – de que é possível construir um mundo menos selvagem, barbáro, onde a violência não se alastra por todos os lados, mesmo que na sua forma mais escamoteada e comum que é a indiferença. Me comovo com as fotos do Sebastião Salgado, mesmo que as críticas de que ele toma champagne e vai a festas de elite sejam verdadeiras. Me escandaliza o sofrimento humano, e cada vez mais percebo o quanto os outros animais e a Terra sofrem. Penso que o amor é uma tonalidade emocional mais sadia que todas as demais, seja no sentido de Eros, seja no de Ágape, especialmente tomando em conta o ódio que transparece nas formas mais comuns e estruturais de violência dos nossos dias: racismo, machismo, homofobia, belicismo, xenofobia etc. “Mas que ‘demodé’ falar de amor nesse mundo onde o sucesso é o que importa, ou onde serás esmagado antes que pense qualquer outra coisa!” Sei, sei. Dinossauro, ultrapassado, idealista, utópico, melhorador da humanidade, anarquista, baderneiro, subversivo, comunista, sei, sei, são etiquetas que os bem-pensantes dos nossos tempos diriam que sou. Ok, se quiserem, posso ser. Mas a esperança – é tão fora de moda falar de esperança! – é a chama que jamais se apaga, pois quando a nossa fonte real de energia – o Sol – explodir sequer estaremos aqui para contar a história. Até lá, o tempo ainda é nosso.

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6 respostas em “ANACRONISMOS

  1. Belo texto! “Mas que ‘demodé’ falar de amor nesse mundo onde o sucesso é o que importa, ou onde serás esmagado antes que pense qualquer outra coisa!” – deixa que falem, que pensem. Porque só quem ama vive, mais que quem fala.
    Só discordo do tempo ser nosso: sou eu do tempo e não ele meu (o tempo, o tempo que nem relógios conhecem, o tempo…).

  2. Moysés, sou leitor recente de teu blog, e pretendo acompanhar. É raro encontrar quem tenha visão tão simples e clara. Teus sonhos também me perseguem. A “civilização” parece utopia, mas existe um caminho. Continuo acreditando.
    Um abraço e parabéns.

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