DOIS COVERS PRA MATAR

O cover oscila da irrelevância até um ponto notório, às vezes superando o original inclusive. São muitos exemplos para brincarmos. Essas duas canções que coloco têm relação com minha banda predileta, o Radiohead. A primeira é uma belíssima versão da magnânima “No Surprises” cantada por Marissa Nadler em um tributo ao Ok Computer. Baixei bastante coisa da artista e nada mais está nesse nível. Em todo caso, a versão é tão boa que quase atinge a original, não fosse essa irreparável. A delicada voz de Marissa e o bem tocado violão expressam bem a melancolia extrema da canção.

A segunda é uma brevíssima versão de Thom Yorke e Johnny Greenwood de “The Rip”, melhor canção do álbum “Third”, do Portishead, tocada sem o invólucro eletrônico da original. A delicadeza com que ambos conduzem a música faz jus à versão original, cantada na voz ímpar de Beth Gibbons. Recomendo aproveitarem.

AS PEQUENAS REVOLUÇÕES DO RADIOHEAD

A obra do Radiohead é formada por aprofundamentos e reviravoltas intensas. Assim, The Bends (1995) leva Pablo Honey (1993) até o limite, Ok Computer (1997) leva The Bends até o limite, o mesmo acontecendo com Kid A (2000) em relação a Ok Computer e Amnesiac (2001) em relação a Kid A. De alguma forma, são álbuns que fazem o anterior tocar um ponto extremo de radicalidade que só matura com o tempo. The Bends aprofunda a rebeldia jovem de Pablo Honey;  Ok Computer densifica a crítica do vazio tratado em The Bends; Kid A leva ao extremo o lado maquínico ainda amalgamado em Ok Computer; Amnesiac, por fim, eleva esse maquinismo até o limite. Por outro lado, podemos igualmente enxergar esses conjuntos de álbuns como pequenas reviravoltas: dos roqueiros Pablo Honey e The Bends para os conceituais Ok Computer e Kid A/Amnesiac, seguidos de uma intervenção política em Hail to the Thief (2003). Eu, contudo, não havia percebido o real significado artístico de In Rainbows (2007), afora um belo conjunto maduro de canções. Só agora, com esse exótico The King of Limbs (2011), entendi finalmente.

Até agora, vinha interpretando a obra do Radiohead sobretudo a partir do respectivo conteúdo, isto é, do teor conceitual que todos os seus álbuns apresentam em menor ou maior medida. Finalmente percebi que os dois últimos discos estão com outro foco – voltados para a forma. Uma das principais questões do século XXI em que ingressamos é a dos direitos autorais e da circulação da cultura. Sabemos que a interpretação jurídico-liberal dessas questões está ligada sobretudo ao conceito de propriedade, do qual deriva inclusive a ideia de autoria (o “Eu” moderno, autor-gênio, é sobretudo um proprietário de si mesmo), traduzida como propriedade intelectual. A emergência da internet e seu evidente potencial subversivo a partir das redes piratas, do anonimato, da cultura da dádiva e dos novos arranjos políticos virtuais é, portanto, uma questão central para o nosso século.

Sabemos que o Radiohead foi uma das primeiras bandas a abdicar dos seus direitos autorais permitindo o download de In Rainbows pelo preço que o ouvinte quisesse pagar (talvez a que tenha realizado isso com o gesto mais significativo). Com isso, causou um abalroamento da indústria fonográfica – parte da “indústria cultural” – deslegitimando a preponderante posição conservadora dos artistas em relação aos seus direitos de propriedade intelectual. Por essa razão, a grande revolução de In Rainbows – apesar do absoluto brilhantismo das canções – não está no conteúdo, mas na forma. O Radiohead pôde “pousar na Terra” novamente, gravando um álbum mais acessível (embora complexo e já influente), porque era na forma de distribuição que o gesto político se movimentava.

Em “The King of Limbs” essa lógica é levada ao extremo. Com uma sonoridade muito menos acessível, mais quebradiça, estranha, próxima do desconforto inicial, o Radiohead duplicou o gesto de ruptura com a indústria cultural: além da distribuição continuar preponderamente com o mp3 via internet (o que inexoravelmente, e a banda sabe bem disso, provoca a pirataria), a forma do próprio álbum contaminou-se por essa lógica disruptiva. Assim, The King of Limbs não é propriamente nem um álbum nem um EP, mas algo entre eles (enquanto um EP costuma ter até 6 músicas, um álbum raramente tem menos de 10; King of Limbs tem 8); o primeiro single, “Lotus Flower”, não apenas foi lançado via youtube, fazendo uso da disseminação livre, como conta com uma performance paródica de Thom Yorke, em que é indecidível o sério e o cômico (tentem responder essa: Thom Yorke dança sozinho porque pensa que é um bom dançarino ou não?). Além disso, a própria separação entre som e imagem se esvaece, pois a performance tornou-se tão central para a própria canção que já é quase inviável a ouvir sem pensar em thom Yorke dançando. Com isso, a própria forma de definir um single é posta em questão (isso em um nível ainda superior ao que a MTV havia estabelecido).

 

The King of Limbs vai ainda mais longe nessa ruptura ao traçar suas canções de forma descontínua, inorgânica, voltando a um certo estilo próprio de Amnesiac: quebradiço, inconstante, maquinal. A simbiose homem/máquina que o Radiohead explora como ninguém não ganha agora outra forma política – não o afundamento melancólico na paranóia de Kid A ou a frieza industrial de Amnesiac – mas algo como uma miscigenação alegre, a tentativa de dançar com a máquina? Talvez esse estranho, exótico, quase incompreensível álbum esteja a sinalar algo desse gênero (deixo para comentá-lo em maiores detalhes em outra ocasião). O certo é que o Radiohead nesses últimos dois álbuns apresenta-se, definitivamente, como a primeira banda do século XXI.

RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.