POR QUE O CARTESIANISMO NÃO FUNCIONA NAS CIÊNCIAS HUMANAS?

Por que testemunhamos todos os dias no noticiário em geral a existência de pesquisas científicas na área das humanas em que, apesar de um levantamento minucioso (considerando que não isento de erros metodológicos), chega-se a uma conclusão ridícula? Apesar de um rigoroso levantamente quantitativo, aparentemente os pesquisadores não capturam quase nada do fenômeno, terminando por concluir, por exemplo, que “Abstinência antes do casamento melhora vida sexual, diz estudo” (retirei o exemplo daqui).

Parece que nem todos os pesquisadores das humanas – e isso parece se dar em maior quantidade em países anglo-saxônicos (embora não diga isso como constatação, apenas como suspeita) – se deram conta que na área específica em que investigam o cartesianismo não apenas funciona muito mal, como inclusive parte de premissas falsas. A suposição – bastante lógica – de que a soma das partes é idêntica ao todo é totalmente falsa para a cultura humana. O que parece ser difícil a alguns entender é que a ideia de que a cultura é a soma de indivíduos em grau zero que reunidos formam uma totalidade é simplesmente mítica, isto é, destoa da verdadeira história do gênero humano que as próprias ciências – antropologia, arqueologia, biologia evolucionista (e eu acrescentaria a gramatologia) – nos revelam. Nesse sentido, é interessante perceber como a antropologia filosófica metafísica da cultura moderna interfere até mesmo em áreas que gostariam de se ver muito distantes de qualquer metafísica, justamente as mais positivistas.

É pela exigência de rigor científico que as ciências humanas não deveriam se restringir a levantamentos quantitativos. A ideia de que a cultura é formada pela soma das vontades de indivíduos é falsa porque sabemos que o ser humano tornou-se humano, isto é, é graças à cultura que ele se posiciona como tal. Porém o próprio pensamento – e nisso a leitura de Türcke parece interessante – nasce “coletivo” (com aspas porque, a rigor, a própria distinção coletivo vs. individual é aqui irrelevante). Isso significa dizer que o cartesianismo não funciona nas humanas porque o fenômeno da cultura é eminentemente relacional, isto é, aparece entre os viventes, e não dentro (como o psicologismo pensaria) ou fora (como pensa certo convencionalismo extremado) deles. Da relação emerge a qualidade que não se reduz às quantidades, uma espécie de força criativa da natureza (daí porque Derrida problematizou tantas vezes, por exemplo, a distinção entre natureza e cultura). Essa qualidade até pode ser descrita em termos quantitativos, mas essa própria quantificação irá ingressar como qualidade, ganhando com isso movimento. Trata-se de um processo circular que não pode ser capturado da mesma forma que, p.ex., os fenômenos físicos ou químicos. O efeito da “profecia-que-cumpre-a-si-mesma” é um típico exemplo disso.

Obviamente isso não significa que as ciências humanas devem prescindir de pesquisas quantitativas. Elas são necessárias para fazer aquilo que a ciência se especializou em fazer, ou seja, medir. No entanto, disso não deriva a hegemonia da quantificação, tendência de reduzir tudo a cálculos estatísticos. Porque a cultura atravessa o ser humano em todos os aspectos (inclusive o biológico, se adotarmos uma perspectiva monista como Merleau-Ponty) é impossível reduzir esse espaço intersticial que se passa entre os seres humanos – e é produtor e produto deles – a soma das partes jamais será capaz de capturar o todo, a qualidade sempre movimenta o quadro.