OS RURALISTAS DAS IDEIAS

No Brasil o adjetivo “ruralista” representa os donos de grandes propriedades não-urbanas, herdeiros das capitanias hereditárias, que embalam o “agronegócio” nacional “aquecendo” a economia com exportação, investindo em tecnologia e muitas vezes devastando o meio ambiente, geralmente para criação bovina ou monocultura. O interessante é que, apesar do aberrante tamanho de tais propriedades e da sua filiação “legítima” muitas vezes duvidosa (seja pela certidão de nascimento violenta na “fundação” do Brasil, seja por atos menos “gloriosos” como grilagem e ocupações violentas), pouco se questiona acerca disso. Com uma forte campanha difamatória que envolve manipulações grosseiras – mas geralmente ilude cabeças preguiçosas – o MST, por exemplo, é demonizado.

Em parte, está-se tentando fazer algo parecido com a questão da pirataria na Internet. Em vez de se perceber a virtude de novas formas de compartilhamento que rompem com a troca simétrica do capitalismo, não raro os mesmos que criticam os ruralistas (entre os quais um intelectual gaúcho que adora ironias) agora se tornaram ruralistas das ideias. Querem transformar a cultura em propriedade privada, como se o intelecto humano não fosse, por definição, público (o que sabemos bem desde que a ideia do autor-gênio moderno – em especial romântico – desabou). Em vez de observar o potencial desse compartilhamento que rompe com nosso modelo social e inaugura uma nova época, da qual fazem parte uma série de movimentos transversais que vão ganhando corpo pela Internet, preferem reagir de forma agressiva e estigmatizadora, etiquetando a “pirataria” de forma criminosa. (Aliás, não deveria ser novidade para esse intelectual que pelo menos desde Durkheim sabemos que inúmeros transformadores foram, no início, etiquetados como criminosos.)

Desde que venho defendendo a circulação livre de cultura, baseado no fato de que cultura não é “patrimônio”, mas forma-de-vida, tenho recebido tweets desse naipe:

(1) você pode recorrer ao Estado para obter os livros por meio de bibliotecas. É seu direito;

(2) se você não tem dinheiro, peça de presente um livro;

(3) você pode pedir o livro emprestado a um amigo;

(4) existem bibliotecas. Já ouviu falar?

(5) baixar livros é se apropriar indevidamente do conhecimento;

(6) quem defende baixar livros são “adolescentes anarquistas irresponsáveis”;

(7) quem defende baixar livros é como os “militares obscurantistas”;

Etc.

Enfim, coisas que eu jamais teria pensado sozinho e das quais eu não tinha nenhum conhecimento, p.ex., a existência de bibliotecas. O que esse pessoal de argumentos fracos – não por acaso do campo jurídico, onde os argumentos são tão abundantes quanto superficiais – não pode responder é, por exemplo, se uma pessoa que não dispõe de 100 reais para adquirir um livro de Heidegger deve ser privada de lê-lo. Da mesma forma, que os downloads não diminuem o volume de livros comprados, apenas diversifica. Além disso, como aconteceu na música, provavelmente será o declínio do jabá (e tem muita gente perdendo muito dinheiro com isso).

Em todo caso, as reações são sinal do mais profundo desespero. Pois, por exemplo, como chamar de obscurantista quem dissemina conhecimento? Ou por acaso a pseudoironia desse pessoal irá sustentar que isso não é disseminação, mas roubo (e se for, o problema está no ladrão ou no policial)? O desespero vem do fato que chamei aqui de “obsolescência do capitalismo”, ou seja, como o regime de propriedade e troca simétrica típica do ethos capitalista está trancando o desenvolvimento de novas tecnologias. A colisão está se tornando cada vez mais intensa e irá, fatalmente, desembocar numa reestruturação radical cujos rumos ainda não podemos prever, mas que certamente retirará as máscaras dos ruralistas das ideias mostrando o que realmente são: reacionários.