NIKOS KAZANTZÁKS, “O CRISTO RECRUCIFICADO”

A fascinação de alguns autores contemporâneos – em especial Giorgio Agamben e Alain Badiou – pelo que se convenciona chamar de “cristianismo primitivo” (traduzido na figura de Paulo) não parece irrelevante. Contra um edifício majestoso e opulento de instituições sólidas, mas assassinas, como reagir senão com uma “grande recusa”, recuperando a promessa messiânica de um mundo totalmente outro?

O castelo que constrói Kazantzákis no seu poderoso romance é um emaranhado de cobiça, avareza, mesquinhez, descaso, mediocridade, tudo resumido na mais visível putrefação moral dos personagens (paradoxalmente chamados de “notáveis”). Nada sobra nesse mundo corrupto onde o notável recusa dar pão ao estrangeiro pelo mais puro egoísmo, quase gratuidade do mal. As pretensas “personalidades” da aldeia onde se passa o romance são figuras grotescas que parecem os juízes de Kafka a esconder revistas pornográficas em meio a livros de “doutrina”.

Nesse mundo insuportável onde o menor vestígio de resposta à hipocrisia e mediocridade é tratado como grave ofensa resta pouco da vida que merece ser vivida. Manólios e seus amigos vão buscar no ascetismo uma alternativa inicial.

Mas os estrangeiros que chegam na aldeia e passam fome precisam de ajuda – uma muito mundana ajuda – e é nesse momento que a chama da indignação e ascese do cristianismo de Manólios percebe que Cristo é o pobre que passa fome, exigindo uma justiça muito real e concreta. Não é preciso ser cristão nem acreditar em dogmas teológicos, metafísicos ou místicos para perceber aí que o cristianismo primitivo carrega uma sabedoria que obviamente incomoda o poder, pois pede justiça para o oprimido em um mundo onde essas pretensões são abafadas pela hipocrisia majestosa das instituições que a sustentam. E – de certa forma se ligando ao judaísmo – essa justiça não é um gesto de amor e perdão, mas a implacável suspensão da injustiça, ainda que a custa da violência.

Bolchevique ou cristão, não importa, Manólios é a vida nua que exclama diante da indiferença que deixa morrer. A injustiça de todos os dias e cujas instituições (pretensamente) cristãs não cansam de negar e naturalizar.  Instituições que parecem ter nascido justamente para neutralizar esse potencial subversivo, indomável, desmascarador de uma fé que nasceu para recolher os restos da história e redimi-los em meio à violência onipresente, praticando uma mensagem de amor à alteridade que acabou domesticada para conservar tudo aquilo contra o qual ela lutava.

CHRISTOPH TÜRCKE, “FILOSOFIA DO SONHO”

Recomendado pelo Prof. Hans-George Flickinger, esse interessantíssimo livro de Christoph Türcke foi o primeiro livro que devorei esse ano de 2011. Türcke enquadra-se na tradição da primeira geração da Escola de Frankfurt, sendo pleno de ressonâncias de Adorno, Horkheimer e Benjamin. No entanto, o que pesa mais na sua obra é propriamente Freud. Propondo uma psicanálise ampliada à filosofia ou filosofia que se deixa tomar pela psicanálise, Türcke procura escavar as raízes do pensamento humano a partir do sonho enquanto resíduo da “pré-história do pensamento”. Seu método é arqueológico e estrutural (não estruturalista), ou seja, busca partir dos fatos históricos, e não da abstração metafísica, para pensar sonho, pensamento, linguagem, palavra. Aproveita o conhecimento científico da paleontologia, arqueologia e outras ciências para tentar especular acerca dos eventos que levaram à hominização como tal. Por essa razão, se tivéssemos que etiquetar em qual área está o livro, eu classificaria na antropologia filosófica.

Türcke vê na Interpretação dos Sonhos de Freud uma chave para o surgimento do pensamento. A partir das operações de condensação, deslocamento e inversão, típicas do sonho, ele identifica as raízes do processo que levou o animal humano ao seu estado atual. Para tanto, evita a definição de pulsão como “fronteira entre físico e psíquico” e se prende, ao contrário, na questão da descarga de estímulos: um organismo busca descarregar tensões. O elemento central da pulsão é, por isso, a “compulsão à repetição”, que viabiliza – mediante condensação, deslocamento e inversão – ao hominídeo amenizar o “susto da natureza”, numa espécie de domesticação pela repetição suavizadora. Assim, em sequência o “susto” é concentrado no sacrifício humano, para em seguida dirigir-se aos animais e finalmente aos seres brutos. Com essas operações, gradualmente a dimensão de pensamento – que no início é coletiva (ou melhor, o coletivo é indissociável do individual) – vai se “internalizando”, formando o “espaço mental”. Assim Türcke, um materialista convicto, define o surgimento do espírito.

Para além disso, chama atenção a capacidade de Türcke movimentar-se em todas as correntes da filosofia (em um tempo no qual basta etiquetar um rótulo – p.ex., pós-moderno – para que as discussões de dêem por encerradas), de um lado, e seu método anti-metafísico (ou anti-onto-teológico, se quiseremos assim), por outro. Evitando as abstrações, Türcke desenha um quadro filosófico completo que, se é questionável, tem o inequívoco mérito de apontar a um caminho inevitável de pesquisa em antropologia filosófica: falar do humano é sempre falar de história de algo que se fez humano, e não de um ser cuja gota divina caiu sobre sua cabeça.