CONTRA OS CHEFES, CONTRA AS OLIGARQUIAS

O nome dado ao livro com algumas entrevistas de Richard Rorty é bastante perspicaz para estabelecer algo que não está na plataforma dos governos petistas, mas que deveria ser um dos primeiros tópicos de qualquer “reforma política” que não fosse apenas uma mudança formal sem capacidade de mover o que especificamente merece ser movido.

Grande parte dos “escândalos” noticiados pela mídia envolvem o nome de Roseana Sarney. E no entanto sabemos que se trata de uma aliada do Governo Federal. Trata-se da aliança mais espúria e repugnante que o PT realizou ao longo dos últimos anos. Para mim e para tantos outros, com essa aliança o PT (enquanto projeto) simplesmente acabou. Se o Governo Dilma não fosse eminentemente uma tecnocracia de esquerda, saberia que o primeiro tema da política nacional deveria ser atacar chefes e oligarquias, dentre as quais a mais forte de todas – a Sarney.

Retomar a política não significa simplesmente se reduzir ao discurso moralista do combate à corrupção, como se tudo estivesse correto e o problema fosse do caráter individual. A corrupção no Brasil é endêmica não por ser abastecida por alguns indivíduos de correção duvidosa, mas porque ela consiste na privatização da esfera pública, ou seja, da democracia como fachada para o governo pactuado das oligarquias. Lula não tocou um dedo nisso nem parece que Dilma irá tocar. Ao contrário: ambos, aderindo a uma visão maquiavélica (no sentido técnico) de política, pactuaram com os fatores reais de poder que, como Lassalle sabia e os juristas fazem questão de esconder, são a verdadeira Constituição do nosso país.

Enfrentar as oligarquias em seu poder que produz miséria, desigualdade, violência e dominação nos lugares onde elas estão situadas significa aderir a uma política de alto nível, isto é, atacar verdadeiramente o poder que atinge nossas formas-de-vida. A luta contra a oligarquia Sarney, portanto, não é uma cruzada anticorrupção (como o jornalismo conservador gostaria de fazer crer, sacrificando um bode expiatório a fim de manter o resto como está), mas um conflito em nome da justiça para a vida nua que está sujeita ao poder descomunal de tais oligarquias, geralmente imposto com violência e não raro crueldade em seus domínios. Com isso, transformar-se-ia a “política” de baixo nível que frequenta o noticiário – a política dos acordos, das negociatas, das barganhas por cargos, das fofocas e dos diz-que-me-diz-que (o que faz o jornalismo político ser indissociável da Revista Caras) – numa verdadeira política, em que cujo centro não pode estar outra coisa se não o estado de exceção em que todos vivemos.

ANTI-ANTI-PETISMO

Uma das polêmicas mais célebres do final do século XX travou-se entre os brilhantes intelectuais norte-americanos Clifford Geertz e Richard Rorty. Geertz, rechaçando os universalismos nostálgicos que alertavam contra os “perigos do multiculturalismo”, posicionava-se como um anti-anti-relativista. Do outro lado, Rorty defendia, em resposta a essa posição, um anti-anti-etnocentrismo. A ambos incomodava sobretudo os “antis”, ou seja, aqueles que, no intuito de se posicionarem contra algo, distorcem esse algo a tal ponto que ele fica irreconhecível.

Não sou petista. Votei em Dilma no segundo turno e em Tarso Genro no primeiro não porque sou petista, mas porque não sou antipetista. A meu ver, eram os melhores candidatos nas circunstâncias. Não me identifico mais com o PT nem com seus principais políticos, nem reconheço na sua atuação grande parte do que suas plataformas têm de mais positivo e inovador. Não me sinto abrangido pelo petismo, tendo identificado alguns rastros do que eu gostaria de ver defendido na candidatura Marina Silva ao Planalto. Tento desenvolver isso aqui no blog nos últimos posts, tratando sobretudo da reconfiguração do cenário político no século XXI.

Conheço pouca gente tão chata quanto petistas dogmáticos. Detesto gente que acredita votar em um partido infalível. Detesto quem tem aquela visão fanática, caolha e cansativa que parece não ter visto os últimos 20 anos passarem. Só tem algo que detesto mais que esses petistas: os antipetistas. Nada pode ser mais burro do que aquele que se define pelo verso do outro. Nada pode ser mais entediante, previsível e anacrônico do que a retórica antipetista. Nada pode ser mais lamentável do que ver alguém que, na falta de ideias, vive traçando a caricatura do outro, atacando o outro para sobreviver. Falou que Lula é um “bêbado” ou que Dilma é “terrorista”, para mim é burro(a).

Evidente que isso não significa que a política não viva do conflito, do confronto, da oposição. É claro que sim. Porém não se trata, a rigor, de um confronto de ideias, mas sim de estereótipos, de projeções, de dramas mal-resolvidos e sobretudo de ignorância. No imaginário do antipetista, tudo que é petista é maldito, imundo, baderneiro. Portanto, para o antipetista o mundo está organizado; o petista é que quer bagunçar. Isso, evidentemente, só pode ser admissível para o conservadorismo mais atroz, haja vista que qualquer mínima sensibilidade permite perceber que o mundo em que vivemos é insuportavelmente injusto, violento e irracional. O antipetista se protege dos problemas que lhe poderiam tirar da zona de conforto por meio de uma denegação sistemática, traduzindo esse mecanismo a partir da imagem do petista baderneiro. Vive das imagens mais toscas, caricatas e dos preconceitos mais arraigados. Mantém o senso comum mais rasteiro e vulgar. Não é capaz de questionar minimamente sua doxa, reagindo com ódio e agressividade diante de todo aquele que lhe questionar. Em outras palavras, todo antipetista está muito próximo, se não coincide, com o fascista. Seu ódio é um ódio difuso e ilimitado, um ódio no fundo contra toda e qualquer possibilidade de transformação e esperança, haja vista ser ele simplesmente um poço sem fundo de medo. Todo esse medo ele projeta sobre uma única figura que serve como bode expiatório da sua projeção: o PT. Elimine-se o PT e os problemas acabam.

Isso é tão rasteiro, tão vulgar, tão incomensuravelmente simplório que só me resta me definir atualmente como um anti-anti-petista. Não me comprometo com o PT nem com suas políticas. Vejo pontos críticos nevrálgicos no “Projeto Chinês” que os Governos Lula-Dilma estão levando adiante. Porém a oposição antipetista (que não é toda oposição, mas boa parte dela) é ainda pior. Ser anti-anti-petista não é aderir ao PT, não é ratificar os absurdos que o PT pratica no poder, mas simplesmente não rejeitar a priori o PT como se ele fosse a imagem do mal sobre a Terra, como se ele fosse simplesmente aquele nome proibido que não pode ser dito – como se ele fosse um tabu. Ser anti-anti-petista é um convite, afinal, ao fim da burrice e início da política.

UM OUTRO BRASIL

Não resta dúvida que o Brasil desse início do século XXI é mais próspero do que aquele que terminou o século XX. As paranóias delirantes de sintomas autoritários e “ocupação do Estado” não passam disso: paranóias. Por outro lado, o discurso da corrupção não é forte o suficiente para colocar em xeque as mudanças atuais, cujos reflexos são sentidos por todos na melhoria das condições de vida, na existência de oportunidades, no horizonte que se avizinha. Escrever exige alguma responsabilidade e não é possível ignorar que o “projeto chinês” adotado por Lula e Dilma, com o acréscimo substancial da democracia, não é desprezível e vem produzindo muitas coisas interessantes e urgentes no cenário brasileiro. E, no entanto, é pouco.

É pouco porque é tarde demais para ele. O século XX, era do industrialismo e da social-democracia, terminou. Dele trazemos nossas melhorias tecnológicas, mas também uma enorme quantidade de lixo, usinas nucleares, armas de destruição em massa e o não-solucionado problema da pobreza: seja na falta de acesso a bens mínimos (alimentos, medicamentos, saneamento básico), seja na permanência da exclusão cultural (por falta de educação de qualidade ou pelo preconceito). É tarde demais para executar aquilo que o Brasil planejava nos anos 50: incrementar sua indústria, fortalecer o mercado interno, promover crescimento econômico. Tarde porque a Terra agoniza: a nossa casa pede a todos os seus habitantes que parem de agredi-la, que interrompam a sucção ilimitada, que não se voltem a ela como um objeto a ser dominado. É verdade que os benefícios desse processo de sucção não foram suficientemente distribuídos; que apenas alguns, na sua maioria do Atlântico Norte, usufruíram desses benefícios. Mas o problema é que não há mais tempo – é preciso conviver com a finitude – para compensações. A Terra é finita, disso podemos ter alguma certeza, apesar do obscurantismo que não raro frequenta o coração do centro de onde as principais decisões são tomadas (e onde supostamente, segundo as teorias metafísicas da política, deveriam estar os mais racionais).

Trata-se, portanto, de perceber a necessidade de uma virada. Nesse sentido, afora o arcaísmo a que alguns gostariam de retornar (por exemplo, os que desprezam a “nova classe C” porque ela deveria retorno aos morros e senzalas), disputam dois grandes projetos no Brasil: o “chinês”, capitaneado pelo PT, e algo ainda difuso, baseado na ideia de sustentabilidade, cuja força mais representativa nas eleições foi Marina Silva. Evidentemente, grande parte da esquerda não entendeu isso. Os petistas mais tacanhos não viram diferenças entre o projeto de Marina e o “neoliberalismo”. Coisa triste mesmo, e alguns foram até convidados para ocupar importantes secretarias por Dilma.

O outro projeto – aquele que gostaria de recolocar as coisas em outras posições – envolve um complexo de iniciativas que passa da educação e cultura até a economia e infraestrutura. Não é apenas um projeto de “inclusão social” baseado no trabalho e, em termos macro, no crescimento do capital nacional (PIB). É um projeto que colocaria o Brasil na vanguarda em relação aos demais países. Ele seria uma estratégia de expansão dos sistemas de educação, cultura e tecnologia voltados para a dimensão sustentável, isto é, a formação de engenheiros, químicos, físicos, biólogos etc. para pensar a produção de tecnologias nacionais limpas, baseadas, por exemplo, na energia eólica e solar. Ao mesmo tempo, poderia congregar pesquisadores das ciências humanas e da filosofia para pensar as possibilidades de criação de uma nova ética e cultura, e seus marcos jurídico e político, baseada na percepção da importância da diversidade cultural, na riqueza mestiça brasileira, nas tradições marginais negra e indígena, no repensar as relações entre o humano e demais viventes. Projeto coletivo que envolveria investimento maciço em pesquisa e educação para construir outro país. Ao mesmo tempo, uma reconfiguração das cidades baseadas numa visão mais holística, isto é, menos preocupada com questões privadas (o empresário tal quer fazer a obra tal; vamos fazer, dá empregos) e mais com uma visão total da cidade, baseada na qualidade de vida e na sustentabilidade. Isso significaria reposicionar a arquitetura urbana baseada no carro, por exemplo, e privilegiar bicicletas, metrôs e ônibus. Significa reviver a urbe aberta dos cinemas de rua em lugar das salas de shopping centers. Significa restringir condomínios fechados e arranha-céus que prejudiquem a paisagem urbana, em especial em áreas sensíveis onde há sol para todos. Atacar os focos de extrema pobreza como prioridade absoluta, dando maior qualidade de vida para quem está lá. E daí por diante. Tudo isso pressupõe o salto que mencionei em certo post: da quantidade (dos números da economia) para a qualidade (o retorno da política).

Essa reflexão vem de uma conversa com colegas de doutorado da disciplina Filosofia da Ciência, onde há uma riqueza de colegas de todas as áreas. Conversava com um colega que teve a formação de mestrado na Grã-Bretanha e Suiça em energia solar e resolveu voltar para o Brasil apesar de quatro convites de doutorado, apesar de inexistir marco regulatório para energia solar no país (em compensação, planejamos Belo Monte e usina de energia atômica na Bahia). Ao mesmo tempo, estava junto colega zoóloga que pesquisava a questão dos peixes e seus problemas com barragens. Ambos votaram em Marina. (Obviamente, quem é inteligente é capaz de perceber que esse post não é propaganda para Marina. Quem não é, bem, que fazer?)

Enfim, a euforia dos últimos tempos não deve ocultar questões importantes que se apresentam nesse século XXI. Optamos por um projeto que é, ainda, o último fôlego do século XX. Planejamos crescer em velocidade acelerada nos próximos anos para alcançar os norte-americanos e europeus. Mas por que não pensar em algo totalmente novo, algo que possa ensinar inclusive nossos vizinhos do Norte? Seria muito arriscado? Mas não é risco a única possibilidade de o Novo sobrevir? E para o novo século que inicia, novas ideias são necessárias.

A FALÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES

Causou estranheza o penúltimo artigo, publicado na terça passada, em que Vladimir Safatle critica o STF como “casa de horrores“. Não porque o STF mereça ser consagrado, tampouco porque Safatle questiona alguns dogmas jurídicos, e muito menos porque insiste em uma “democratização” (necessária) a que o Poder Judiciário resiste. A estranheza vem da proximidade do texto com o senso comum, um certo cochilo na vigilância crítica que tem caracterizado os brilhantes artigos de Safatle.

Qual é, afinal, a inconsistência do texto? É a subestimação do fenômeno contemporâneo da moralização da política, isto é, a transformação de questões estruturais que envolvem um questionamento amplo das nossas formas-de-vida em questões individuais de caráter (em última instância: quesões disciplinares). Não importa tanto se o STF declara por razões óbvias (mas não necessariamente justas) a inconstitucionalidade da Lei do Ficha Limpa. Não me interessa, nesse momento, a discussão jurídica acerca do tema (embora haja interessantes tentativas de correção dessas distorções pela dogmática constitucional), mas a discussão propriamente política. E a “Ficha Limpa” representa, como síntese expressiva, esse perigoso movimento.

Por que Safatle subestima isso? Não sei exatamente, mas vejo a contradição no ponto em que o mesmo Judiciário criticado torna-se parte da solução: a aposta nas sentenças de primeiro grau. A rigor, considerando a prática judiciária, é indecidível saber qual é a sentença justa, a primeira ou a última (a do juiz singular ou das instâncias de Brasília). Isso nos previne de fazer aqui apologias aos recursos e chicanas processuais. Mas, por outro lado, o brete nos encaminha para uma situação em que todas as opções são inválidas. E que só consigamos pensar nessas opções é o gesto mais afirmativo que Totalidade cuja violência consiste exatamente em fornecer essas opções que estão em jogo.

A aporia me faz manter meu ceticismo em relação às instituições. Diga-se de passagem que o próprio Safatle denuncia a “juridicização da vida”. Pois é importante demarcarmos que o que Safatle mostra – como a corrupção é antidemocrática – é verdade, mas ao mesmo tempo nenhuma instituição é capaz, enquanto aparato formal que é, de promover a ética. O sonho liberal é exatamente transformar a ética em instituições e formalizações. Mas a própria vida protesta, e a ética não é senão o transcorrer da própria vida apesar do poder que tenta aprisioná-la. A ética, portanto, não virá das leis moralistas nem das formalizações jurídicas, mas da própria vida que é capturada e busca livrar-se dessa captura.

NOTAS SOBRE OS PETRALHAS

Graças a um jornalista extremamente vulgar e cujo blog é seguido por internautas ávidos de retórica histérica anti-esquerdista, popularizou-se o termo “petralhas” para chamar os adeptos do PT e, talvez, uma grande margem da esquerda. Evidentemente, os próprios petistas colaboraram para isso ao proporcionarem o espetáculo indecente do “mensalão” (uso aspas porque o termo está carregado de muita coisa que não ratifico), em especial pelas peripécias da direção da burocracia petista com suas Land Rovers e tudo que a indiferencia de toda cafonice consumista-emergente da nossa sociedade.

Provavelmente pelas estratégias retóricas sujas que o signatário do blog utiliza, inclusive usando gritos virtuais (para quem não sabe, há muito tempo é convenção na net que letras maiúsculas são gritos), muito pouca gente se deu o trabalho de investigar mais a fundo o problema. Afinal, nem todos têm estômago para isso. Aliás, podem me incluir nesse grupo. Não tenho paciência para ler esse tipo de discurso paranóico e histérico que, a rigor, é totalmente superficial e caricato e cuja popularidade se explica unicamente pelo fato de que, infelizmente, a mediocridade não é um privilégio de poucos.

Obviamente “petralha” é uma aglutinação de petista com metralha, fazendo referência aos “irmãos metralhas”, criminosos do Universo Disney cujo principal alvo é o “Tio Patinhas”. Se é isso mesmo, deveríamos então completar o díptico dos petralhas com o seu verso.   Quem é o Tio Patinhas? Um milionário cujo dinheiro está acumulado em um depósito específico e cujo característica central é a avareza, a incapacidade de – mesmo milionário – estender um único centavo para alguém. É ele que os irmãos Metralhas pretendem saquear.

Essa representação da realidade elaborada pela Disney não é a própria expressão daquilo que Max Weber chamou do “espírito do capitalismo”? Esse “ethos burguês”, consubstanciado na acumulação imotivada do dinheiro, não é exatamente aquilo que está descrito na Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo? O Tio Patinhas não é quase um “tipo ideal” do burguês que acumula bens apenas por acumular, praticamente como um dever imposto de cima (de Deus), como um ideal disciplinar que regula a própria vida? Se essa hipótese é verdadeira, então conseguimos visualizar a quem realmente interessa o estigma “metralha” (ou “petralha”). É porque uma determinada revista representa hoje a defesa irrestrita desse ethos (hoje relativamente desconectado do protestantismo e mais vinculado a uma parafernália yuppie, dos discursos de “saúde”, passando pela “arte da guerra” até chegar ao discurso da tecnocrático da administração, combinação de gerencialismo com atuarialismo), que convém manter seus rivais como “metralhas”. Afinal, ela não faz nada além de defender o Tio Patinhas.

POLÍTICA DO SÉCULO XXI

É muito cedo para traçarmos qualquer diagnóstico mais conclusivo sobre o que virá no século em que estamos. Mas os primeiros anos do século XXI parecem dar sinais.

O primeiro ponto é o esgotamento da narrativa moderna do progresso e da formalização liberal da esfera política. Por mais denegações que existam – especialmente aquelas que estabelecem teorizações abstratas sobre a política como se esta pudesse ser recriada em condições ideiais, despida de história, violência e memória – o avanço da filosofia e das ciências do século XX apontam para o esgotamento da ideia de um indivíduo autocentrado na consciência que delibera contratualmente com os demais acerca dos limites da sua liberdade que, no fundo, confunde-se com a propriedade. Todas as áreas – da história à biologia, da antropologia à psicanálise – desconfirmam essa tese. A imagem sobrevive agonizante no direito, na filosofia política e na teologia. Mas o contraste – em especial o contraste cultural e material – que a tecnologia moderna torna mais visível (e também mais invisível) mostra que mesmo o discurso dos direitos humanos (com toda lógica que lhe é implícita, em especial a do cosmopolitismo) já não soa tão convincente quanto no final da Segunda Guerra Mundial.

A teologia do mercado do final do século XX, apelidada por aqui de “neoliberalismo”, igualmente agoniza ao lado do seu rival, o “Welfare State” e todo seu caminhão burocrático. São possibilidades que implodiram a si próprias: o Welfare pela elevação da qualidade de vida que provocou revoluções culturais e insustentabilidade financeira; a teologia de mercado pela quebradeira dos últimos anos, apesar de ainda existirem “lacaios da burguesia” (expressão de Adorno que mereceria uma retomada) capazes de justificar tudo e sempre, eufemisticamente chamando de “crise” aquilo que é um evidente efeito da própria estrutura que supostamente estaria abalada.

Por fim, o “projeto Huntington” de transformar o século XXI em um “Choque de Civilizações” ruiu com as revoluções árabes desse ano, cujo teor escancarou que a representação do árabe (e em especial do islâmico) como “outro-barbáro” é uma forma de escamotear a dominação material e cultural que perdura por séculos do Ocidente em relação àquelas regiões. (Estratégia, diga-se de passagem, nada inédita.) O “Choque de Civilizações” ficou apenas para os dois pólos fanáticos, ou seja, os fundamentalistas cristãos dos EUA e os fundamentalistas islâmicos da Al-Qaeda.

O que temos, então? Acredito que vivemos uma reconfiguração da polaridade esquerda/direita. Uma das formas de visualizar as perspectivas históricas de forma mais errônea é acreditar que a história é uma linha do tempo, isto é, aquilo que está atrás foi necessariamente apagado pelo que vem na frente. Na realidade, os tempos continuam existindo, o que significa que  esquerda e direita tradicionais continuam lutando nos seus mesmos termos (nos termos que, digamos, a Veja coloca a questão). Mas, ao mesmo tempo, testemunhamos a emergência de novos campos políticos, dos quais eu destacaria pelo menos três:

– O “Projeto da Direita” (falta um nome melhor), cujas estratégias são simplesmente colocar em ação todo aparato possível do estado de exceção a fim de conter os marginalizados espalhados pelo mundo, sobretudo a partir das políticas de imigração e da política criminal de encarceramento massivo, ao mesmo tempo em que garante àqueles que estão acima da linha da cidadania todas as benesses da sociedade de consumo (mantendo ambiguamente em vigor os velhos conservadorismos morais ao lado da pura performance);

– O “Projeto Chinês” (traduzido mundialmente como BRIC)  – que consiste na utilização da sociedade do consumo como mecanismo inclusivo dos pobres e mantém plenamente vigente a matriz exploratório-industrialista da Modernidade como forma de reduzir a desigualdade social. Esse projeto é também tecnocrático, à medida que propõe uma despolitização geral como forma de evitar as polêmicas da Guerra Fria (da qual é herdeiro) e busca promover a transformação social a partir das próprias armas que a obstaculizam;

– O “Projeto (mas aqui “projeto” não cai bem) da Sustentabilidade”, – que engloba  multiplicidade de perspectivas que se encontram no ponto em comum de propor um novo modelo de relação com o mundo, abrangendo tanto a exploração ambiental, a relação com outros viventes, a reconfiguração do espaço urbano, rediscussão da propriedade (em especial da propriedade intelectual), quesitonamento radical do utilitarismo naturalizado a partir da dádiva e a recuperação das energias revolucionárias não-violentas que se voltam contra a dominação sangrenta exercida hoje em dia (ainda que por vezes travestida – e a palavra é aqui importante – na forma da democracia liberal e do mito do contrato social).

Todos esses pólos são condensações de uma complexidade imensa. Esses são apenas alguns elementos que eu vislumbro na política do século XXI que procuram traçar um mapa do nosso cenário.

RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.

O HORROR! O HORROR!

A conhecida frase de Joseph Conrad é a precisa sinalização de um ponto do qual se teve absoluta consciência apenas no século XX: o perfeito encontro entre civilização e bárbarie ou, dito de outra forma, o momento em que a civilização é bárbara.

A medula do século XX que inspirou tantos filósofos e sociólogos é justamente a constatação de que o progresso técnico-industrial típico do otimismo moderno não havia encaminhado as sociedades para um estado superior, para uma boa vida, e sim para um inferno particularmente inóspito que substituía uma barbárie por outra. Essa é a consciência que ilumina em especial as obras de Adorno e Benjamin, entre outros, e que levou o último a afirmar que todo monumento de cultura é também um monumento de barbárie. Conrad sintetizou tudo isso com a expressão “O horror!”, proferida por um enviado da “civilização” que confidencia a absoluta barbárie escondida por trás das luzes.

Hoje, essa consciência ainda permanece perfeitamente atual. O progresso técnico incomparável dos últimos 50 anos não nos levou a uma sociedade onde a vida é qualificada, mas a uma espécie de barbárie high-tech, onde os chicotes foram substituídos por buzinas e as facas e pistolas por pedais de acelerador. Não são os habitantes do medievo brasileiro, aqueles que ainda não tiveram acesso à Modernidade –  a vida nua nas favelas, palafitas e morros brasileiros –  o retrato fidedigno da nossa barbárie. Ela se expressa antes em carros blindados e bem polidos, na selvageria do desfile barulhento e nauseante da fumaça, da borracha, da buzina e do motor.

Nada poderia testemunhar essa barbárie com mais veemência do que o atropelamento dos ciclistas da Massa Crítica em Porto Alegre. Independentemente das circunstâncias particulares, o evento apresenta uma imagem que é a própria expressão da barbárie cotidiana em que vivemos: a Massa Crítica é atropelada por um veículo. As imagens do cotidiano às vezes falam mais do que qualquer argumento.

A Massa Crítica, um coletivo horizontal e anarquista com o certeiro lema “pedalando por um mundo mais respirável” é violentamente agredida por um ser simbiótico (homem/carro) intoxicado pela dinâmica urbana regida pelo imperativo da pressa, paranóia e guerra de todos contra todos, não é a própria expressão do fascismo reagindo contra a diferença? O ódio violento, a vontade desesperada de erradicar qualquer dissonância e singularidade que arranhe a Totalidade materializada no trânsito não é o gesto mais comum e infelizmente repetido do fascismo cotidiano ainda não destruído? O constrangimento com que se noticia e as instituições respondem – inclusive chamando o fato de “acidente” – não é uma mea culpa constrangida por tratarem toda manifestação política como uma “interrupção do fluxo de automóveis”? Nada, afinal, deveria interromper o fluxo de automóveis, hoje a imagem sinistra e doentia da própria Totalidade.

PEDRO ABRAMOVAY E UM RÉQUIEM PARA A POLÍTICA CRIMINAL DO GOVERNO DILMA

A notícia de que Pedro Abramovay foi demitido da Secretaria Nacional de Drogas é o primeiro sinal das piores expectativas que se avizinhavam desde que Dilma assumiu o Planalto em matéria de política criminal. Se havia dúvidas acerca da gradual e cada vez mais visível transição da preponderância do realismo de esquerda no Governo Lula (refiro-me, para os leigos, a políticas de prevenção à violência tal como o PRONASCI, que investem em melhorias na polícia, programas educativos, políticas de redução de danos etc.) para a esquerda punitiva no Governo Dilma, elas hoje parecem ter acabado.

O que Pedro Abramovay fez de tão grave para ser demitido? Simples, declarou que os pequenos traficantes (leia-se, a juventude pobre e negra – geralmente entre 13 a 25 anos – das favelas brasileiras que vende drogas para toda sociedade, inclusive boa parte da “de bem”) não deveriam ser encarcerados.

A situação surreal, no entanto, deve ser explicada, tal como Kafka dedicou longas páginas para narrar o absurdo que, no entanto, é o próprio mundo real em que vivemos. Respeito muito amigos petistas – alguns conheço pessoalmente, outros estão por aí na blogosfera – que depositaram severas esperanças em Dilma como legatária do Governo Lula, em especial naquilo que foi de melhor: eliminação da miséria e redução da desigualdade social. No entanto, Dilma já vinha mandando vários sinais negativos, e a área criminal – para um ponto de vista de esquerda – hoje se apresenta como a pior. Atribuo basicamente isso a três razões:

1) A “Guerra do RJ” – o “sucesso” da entrada do exército no Complexo do Alemão, aplaudido inclusive por parte da sociologia crítica nacional (com pessoas que eu admiro e respeito profundamente, mas discordo com veemência), apresentou louros políticos inquestionáveis para Sérgio Cabral e Dilma. Ficou claro que o antibelicismo radical não seria matriz da política criminal baseada nas UPPs. Aliás, “Tropa de Elite” – com seu sensacionalismo fascista – já havia preparado esse clima para esse evento, tornando o BOPE um símbolo nacional (o BOPE, uma tropa de extermínio). Aliás, a classe média só não aprovou mais porque faltou o banho de sangue que Capitão Nascimento tinha prometido. Se não veio, bem, ok, e ainda agradamos nossos amigos da esquerda que comemoram o “Estado de Direito” na favela.

2) A nomeação de José Eduardo Cardozo e Mário do Rosário – nomear para o Ministério da Justiça e para a Secretaria dos Direitos Humanos dois políticos que acreditam que a pauta dos direitos humanos no Brasil é o aspecto mais policialesco e caricato do “politicamente correto” foi também vergonhoso. Maria do Rosário, em especial, prestou um desserviço monstruoso ao Brasil ao ser responsável pela mudança nos crimes sexuais, prevendo a figuras estapafúrdias e mantendo moralismos como a criminalização da casa de prostituição (não é piada, isso é crime no Brasil!) e cometendo erros técnicos crassos.

3) O recuo de José Eduardo Cardozo das declarações de Abramovay: se era um bom sinal a troca de nome da Secretaria Nacional Anti-Drogas (nome tipicamente vinculado à War on Drugs de Nixon e Reagan) para Secretaria Nacional de Drogas, e transpô-la da pasta da defesa para a justiça (embora o ideal fosse para a saúde), tudo foi rapidamente derrubado. Pedro Abramovay disse o óbvio: é preciso parar com a monstruosa inflação carcerária no Brasil, quarta maior população prisional do mundo, atrás apenas dos EUA, China e Rússia, da qual quase 30% são relacionados com a política de drogas. O encarceramento dos pequenos traficantes só piora a situação: agudiza conflitos, não resolve nem o problema do uso problemático de drogas nem o do comércio, provoca o impacto da passagem no cárcere no preso, alimenta as fileiras do “crime organizado” (facções que dominam as prisões, como o PCC), destrói as opções de vida do sujeito e é mais do que tudo hipócrita: vivendo na periferia e com poucas opções, o sujeito (é bom lembrar que geralmente aos 12, 13 anos) vê a traficância como uma opção de vida atraente e acaba embarcando nela. É preciso ver que as gravíssimas questões biopolíticas da política de drogas (o higienismo da abstinência, a intolerância com a diferença, a gestão do corpo do drogado etc.) hoje em dia são menos importantes que a thanatopolítica da guerra às drogas, que se traduz como verdadeira política de extermínio no Brasil. Todo mundo – mesmo uma parte da esquerda menos interessada na questão criminal – dá de ombros para essa política exatamente porque se trata da vida nua, ou seja, da vida descartável.

É óbvio que todas as patrulhas reacionárias e obscurantistas iriam se revoltar contra essa posição. O moralismo atroz que se manifesta no discurso que justifica a guerra às drogas – para qual concorrem os mais diversos “empresários morais” – somados à ignorância da população acerca do que está em jogo e o clima de pânico moral criado pela mídia certamente trariam resistência. Mas o ridículo foi o recuo covarde, minguado, poliqueiro de um Ministro da Justiça que, infelizmente, não teve coragem para dar um basta ao genocídio da população pobre em andamento. Em vez disso, prefiriu aderir ao discurso mais rasteiro e fazer aquilo que Elena Larrauri chama de “populismo punitivo”.

Se observamos o marcante artigo escrito por Maria Lucia Karam há mais de dez anos atrás, quando anunciava a esquerda punitiva, podemos observar que se trata exatamente da política adotada pelo Governo Dilma: “combate” ao crime de colarinho branco, aos crimes vinculados aos movimentos sociais (racismo, violência contra a mulher etc.) e “combate ao crime organizado” (o cifrão que Maria Lucia tão bem colocou como uma simples manobra retórica para justificar políticas de lei e ordem típicas da direita). A ênfase no realismo de esquerda típico do Governo Lula com o PRONASCI vai perdendo peso a cada dia para o punitivismo de esquerda, a aposta no sistema penal como mecanismo de legitimação do poder político-eleitoral.

O detalhe é que – como o amigo Marcelo Mayora apontou no twitter – o próprio Ministério da Justiça encomendou pesquisa sobre o tema que lhe indicava o caminho da descarcerização. Não importa que os setores mais retrógrados e cada vez mais ignorantes do mundo jurídico tachem a pesquisa de “garantista” ou algo do gênero; é uma pesquisa científica, com dados claros e conclusões importantes, e quem nesse caso sofre da mais fanática cegueira ideológica são esses próprios conservadores (agora também obscurantistas: odeiam “teorias” e a “academia”; em vez disso, propõe a prática que se dá no meio da papelada dos processos e do ar condicionado dos fóruns, como se isso fosse a vida real). O Ministério da Justiça agora joga fora os dados que ele próprio coleta em nome do populismo punitivo.

Na prática, Dilma está numa posição bem parecida com Bill Clinton nos anos 90. Clinton sabia que a pena de morte era a questão da maior densidade eleitoral, tendo sido responsável pela derrota do Partido Democrata nas eleições anteriores. Aderindo ao “pragmatismo”, resolveu ele próprio se mostrar “duro” e executar vários condenados, tendo por isso sido eleito. Na prática, o mega-encarceramento e as operações bélicas que Dilma e o Min. José Eduardo Cardozo estão aderindo pouco diferem disso. Todo o resto é pequeno diante da Guerra em andamento.

CÍNICOS E EVANGÉLICOS

Em algum momento da eleição algo aconteceu. Olhada friamente, essa frase é quase absurda. Porém, se levarmos em consideração que o modelo publicitário que colonizou a política visa exatamente a isso, ou seja, os candidatos querem justamente que fato algum ocorra, pois isso implicaria a necessidade de defender ideias, tomar posição, então a afirmação deixa de ser trivial. Esse algo estranho não foi percebido nem bem delimitado. A campanha difamatória da grande mídia contra Dilma não vinha dando certo, a candidatura de Serra não conseguia emplacar (o que era constatável por brigas internas e posts exaltados de apoiadores contra o candidato), Marina estava estagnada nos seus 13%, Plínio continuava – depois de pequeninos shows de dogmatismo e ironia nos debates (em todo caso, suas ironias ao menos desnudavam o vazio que circundava as discussões) – nanico, e Dilma era praticamente eleita no primeiro turno. Algo, então, aconteceu.

O desempenho de Marina nos debates foi, aos poucos, melhorando. A fragilidade de Dilma, pouco acostumada a eleições, também aparecia. E Serra, convenha-se, não convence ninguém fora de SP. Nesse ínterim, houve uma “segunda onda” de votos para Marina. Os votantes são identificáveis pelo discurso crítico petista: a juventude de elite, em especial das grandes cidades. O perfil dessa juventude pode ser relacionado com o magistral livro de Vladimir Safatle, Cinismo e Falência da Crítica. Desiludida com “a política”, essa juventude cresceu em meio à ressaca pós-Queda do Muro e pós-contraculturas, migrando da arena pública para a vida privada. Sem os  freios religiosos que antes ocupavam o espaço de referencial normativo, vive no regime discursivo do cinismo: reconheço a lei moral (por exemplo, que existe injustiça social), mas como ninguém está lá, também não estou (portanto, não cabe a mim lutar contra injustiça social, apenas ser mais um individualista entre outros). É uma espécie de naturalização da contradição performativa (isto é, a contradição entre o que digo e o que faço).

Uma vez que essa juventude não consegue politizar sua ação, pois considera política coisa de “políticos”, todo seu potencial crítico que poderia ser transformador volta-se unicamente para uma ação conservadora: o moralismo. A moralização da política consiste em considerar que problemas estruturais são, na realidade, desvios de caráter, o que também significa dizer que no fundo tudo está correto (por isso a bandeira anticorrupção é conservadora e popular). Uma vez que não há ideais para lutar, pois o mundo é assim mesmo (já foi plenamente naturalizado), resta apenas o niilismo e a guerra de cada um por si. O que resta para a crítica é uma espécie de gracejo trágico, mais ou menos na linha do humor de Marcelo Tas.

Essa juventude moralista viu em Marina a possibilidade de uma alternativa diferente e íntegra. Livrando-se de José Serra, que pertence a um partido com toda uma história no poder (e, portanto, com toda uma história de corrupção, como todos os outros), encontrou em Marina a chance de um consenso em torno de temas transversais na sociedade, tal como o meio ambiente e a corrupção na esfera pública. Uns três ou quatro pontos a mais de Marina devem ser reputados a essa juventude, alvo de seguida ironia petista como alienada e que teria votado em Marina por ser “descolada”, quase como uma moda.

Ao lado dos cínicos, também houve um movimento subterrâneo, imperceptível para a mídia, que foi o crescimento do fator religioso durante as eleições. Uma vez que Dilma era francamente identificada no seu passado com lutas de esquerda (em especial a luta armada), começaram a proliferar boatos em torno de temáticas nevrálgicas como o aborto e o casamento gay. Temáticas que, diga-se de passagem, sempre foram lançadas contra Marina pela esquerda. Como em um ricocheteio, de repente Dilma e em menor escala Serra se viram na defensiva diante de tais temas, o que gerou uma migração de votos final para Marina, sabidamente evangélica (a terceira e última onda, que fez sua candidatura alcançar 20%).

É preciso entender os evangélicos, mesmo os fundamentalistas, como um fenômeno tipicamente do século XXI. Diante da opulência da sociedade do consumo e do seu habitante performático, o evangélico reage apontando sua falta de espiritualidade, encontrando nos seus dogmas a âncora vital necessária para suportar a realidade cotidiana. Além disso, o fundamentalismo evangélico está ligado especialmente à periferia da periferia, indicativo da necessidade de um anteparo firme para suportar as condições desiguais e injustas em um país como o Brasil. Diante do contexto de violência estrutural brasileiro, o pobre resiste com um “sou trabalhador” ou “estava na missa” (pessoas que convivem no sistema judiciário sabem que testemunhas pobres jamais afirmam ter se divertido em qualquer situação, estão sempre “cumprindo deveres”; é a forma de evitar a estigmatização do “vagabundo” e adjacências). Apesar de Marina jamais, em nenhum momento das eleições ter invocado por conta própria sua religião (e de seu maior grupo apoiador ser francamente laico), sua identificação com a periferia acabou alavancando esse crescimento.

Esses dois fenômenos mal-lidos pela esquerda em geral revelam algumas surpresas: (a) a juventude “desiludida” ainda pode ser mobilizada, devendo-se para isso politizar sua energia crítica que está moralizada; (b) o fenômeno religioso ingressa como evento negativo no final do primeiro turno, na sua faceta mais fundamentalista; (c) isso sinala a necessidade de que a religião seja vista como algo sério no século XXI que exige um repensar das nossas categorias políticas. Aliás, há muito a tradição filosófica discute essas questões seriamente (Benjamin, Levinas etc.).

No próximo post, falo sobre o segundo turno e as eleições como um todo.