Quantas peles sob/sobre as peles?

under-the-skinConfesso que fiquei surpreso com Sob a pele (Under the skin) (2013, Dir. Jonathan Glazer), película lançada esse ano que vi mais ou menos despretensiosamente, sem maiores expectativas que pudesse ser um filme que escapasse das bordas do lugar-comum. É um filme multifacetado e certamente são possíveis diversas interpretações (que deixo em aberto), mas vou me deter apenas no aspecto da pele.

O pensamento normalmente despreza a pele, usando justamente como imagem do equívoco a ideia do “superficial”, daquilo que está distante do “profundo”. A pele é a casca que esconde a estrutura oca, sem fundamento, desprezando aquilo que é o próprio lugar da verdade: a essência. Coube a Nietzsche, e depois tantos outros, fazer-nos repensar essa questão a partir do que Deleuze, mencionando no caso os estoicos, passou a chamar de “efeito de superfície”. A busca por um alicerce último, pelo fundamento definitivo, pela pedra fundamental, é substituída por um pensamento da leveza, da superfície, dos pés que dançam. Movemo-nos não mais no subsolo que, paradoxalmente, é aquilo que representa o Alto (como as formas ideais platônicas estão fora do tempo e do espaço), mas na superfície. No corpo, a pele é o que divide o interior e exterior, sempre mostrando – a partir da ferida, por exemplo – que o que separa ambos é uma membrana permeável que põe em questão a própria separação. Dentro-fora, fora-dentro, desconstrução da própria fronteira que não é mais limite, mas limiar.

No Ocidente, a ideia de “identidade” de certo modo carrega o sentido de “essência”. A partir da filosofia do sujeito, ela desloca para o foro interior, em um movimento de interiorização da transcendência, a estabilidade essencial. Por isso, em Descartes o “Eu” será o núcleo da certeza e a própria realidade da realidade será posta em questão (por exemplo, no célebre exemplo do Gênio Maligno que se repete em variações ad infinitum hoje em dia). O “Eu” é o ponto mais sólido que será, ao longo do século XX e em especial pela contribuição da psicanálise, permanentemente desconstruído. Mas será possível um pensamento da forma que não se baseie na estabilidade, que fuja do eidos platônico e do modelo matemático? É o que propõe a filósofa Catherine Malabou, que utiliza o conceito de plasticidade para questionar o modo filosófico tradicional de lidar com a forma. Movendo-se no espaço que ela própria designa pós-desconstrutivo, traça o movimento plástico da forma mostrando sua constante mutabilidade, sua capacidade de superar a própria dicotomia ativo/passivo (a plasticidade é tanto dar quanto receber forma) e inclusive de explodir, fazendo referência à palavra francesa plasticage que significa o caráter explosivo de alguns materiais. Malabou utiliza a plasticidade para construir uma visão dinâmica e transformacional da forma, sem cair no caótico (informe) e (o que seria o contrário) na presença (imutável).

O que isso tem a ver com o filme? Basicamente, que o que está em jogo não é a essência da personagem sem nome interpretada por Scarlett Johansson, mas exatamente sua pele, isto é, como ela constrói, em novas superfícies, novas identidades. Em outros termos, ao vestir a pele humana, a ET gradualmente passa por uma metamorfose que o filme belamente vai construindo em imagens, sem recorrer a algum fundo emocional que relembrasse o espírito romântico, mas ao contrário: no toque, na experiência da sensibilidade que torna a máscara (a pele) seu próprio fundo. Trata-se, no caso, do devir-humano da personagem, um devir que não revela um “fundo escondido” que precisa ser encontrado como “essência última” da personagem, mas justamente como a pele a transforma em outra, como provoca uma metamorfose que a torna um novo Eu em uma passagem que não deixa restos, como pensa Malabou em seu trabalho Ontologia do Acidente.

(SPOILER:)

Quanto se vê a última cena em que a personagem vê sua pele arrancada e aparece como um ser extraterrestre integralmente negro, percebe-se o que Giorgio Agamben quer dizer com “vida nua”. Na verdade, há duas interpretações entre as quais o próprio Agamben oscila: a primeira, mais fraca e inspirada em Heidegger, é a “redução da vida humana a uma vida biológica” ou, pior ainda, a uma “vida animal”. Deixemos essa leitura, no entanto, de lado, e fiquemos com a mais potente, inspirada em Homo Sacer: a “vida nua” é a vida que foi separada da sua forma. Se o que está em jogo não são mais as profundezas, não é mais essência, separar a vida da sua forma é nada menos que arrancar sua superfície, arrancar sua pele, e impedir, com isso, que ela possa se relacionar com o mundo. Faz-se com que ela, com isso, esteja totalmente exposta, vulnerável, completamente reduzida à sua forma mais frágil que pode se dilacerar apenas no contato com o real. A pele, nesse caso, é também aquilo que permite a mediação, a relação da vida com as imagens.

O paradoxo que surge para o pensamento tradicional da identidade, portanto, é que a essência da personagem é sua forma menos real, isto é, aquilo que retira sua plasticidade. Certa vez Malabou afirmou que “a moda precede o ser”: a partir da metamorfose que passa em seu devir-humana, a personagem não é mais sua essência alienígena. De certa forma, Sob a pele nos faz sentir como a roupa pode ser essência e a nudez, destruição.

PS: Para quem quiser conhecer a obra de Malabou, a Editora Cultura & Barbárie traduziu a obra Ontologia do Acidente: ensaio sobre a plasticidade destrutiva, que pode ser adquirida nesse link.

Nada

O que esperar dos nossos “representantes” eleitos nesse ano? Nada. A resposta é desoladora, mas não parece haver outra. A melancolia e o desânimo já se expressavam nas manifestações de votos que, estivessem do lado que estivessem, eram sempre no menos pior, contra o outro, “crítico” ou de “veto”. Imensas declarações críticas eram seguidas de um final desiludido, “realista”, pragmático. Os afetos que se seguiram às eleições foram os mesmos: eu mesmo, relendo minha entrevista pós-eleitoral ao IHU, acredito ter sido uma das coisas mais tristes que já escrevi, simplesmente porque totalmente sem vida, sem indignação, em estado zumbi. Não tinha nada a dizer. Nunca acreditei que seriam possíveis transformações no Governo Dilma e Aécio era ainda pior. O ruim e o péssimo: restou um não, simplesmente. Marina foi sombra de si mesma e talvez, depois de tanto luto e melancolia, cabe talvez comemorar termos nos privado de ver todo campo aecista a apoiando durante o segundo turno, especialmente os que a viam como uma força alternativa que poderia renovar a política no Brasil. Elegeu-se o velho PMDB e o peemedebismo, mais forte que nunca, a direita raivosa e segue no poder, indicando que irá fazer um governo ainda pior, a tecnocracia petista. Os primeiros gestos de Dilma apontaram para o mercado, para Kátia Abreu, mais Cardozo e até Kassab. Não tem “terceiro turno”, como disse Guilherme Boulos, salvo para anular mais uma vez o voto. Os tempos são de oposição.

Dei uma quarentena de alguns dias para ver as movimentações do que poderia ser esse próximo governo. Peguei leve, na medida do meu possível, na entrevista, deixando o espaço aberto para ver o que virá por aí. Mas as notícias são ruins – ou melhor, no geral, as mesmas. Depois da overdose de esperança das minhas timelines durante as eleições, praticando pintando o PT pré-2002 assumindo o Planalto, deixei um pouco o carro andar para ver o que acontecia. Nada. É cedo ainda, mas aguardar gestos que interrompam a militarização da segurança, o genocídio indígena, a destruição da Amazônia ou as alianças espúrias, por exemplo, parecem cada vez mais coisa de Poliana. Ou coisa de governista, simplesmente. Pessoal cuja imaginação bate no teto quando se trata de defender a qualquer custo de toda e qualquer crítica, mesmo quando a própria crítica que esses setores dirigem aos seus adversários volta por ricochete. Hipocrisia é serventia da casa.

O que esperar disso tudo? O que esperar de representantes envolvidos em uma plutocracia recheada de reacionarismo rasteiro e de um sistema blindado contra renovação como os carros dos ricos paulistas? O que esperar de um governo que não ouve ninguém, que se mantém na sua mentalidade dura e tecnocrática, sem que nada possa abalar? O que esperar quando as massas de apoio que gastaram todas suas energias fazendo campanha simplesmente silenciam depois da vitória nas urnas? O que esperar das equipes de batedores que fabricam monstros – como artistas decadentes e jornalistas asquerosos – para tentar se salvar pelo contraste com o pior? Até admito que levei um pouco a sério esses aglomerados fascistas que surgiram logo depois das eleições, mas hoje está claro que não têm qualquer relevância como força viável. Ainda bem. Servem mais para legitimar aqueles que se blindam contra críticas a partir de acusações e estratégias diversas de demonização. O que esperar disso? Nada. Do sistema político não virá nada de novo. Analiso as movimentações como se faz em jogo de futebol, pelo gosto por sistemas táticos e estratégias de jogo. Mas desse jogo todos os resultados serão simplesmente péssimos. Nossa única chance é quebrar o tabuleiro.

“Não nos representam”, como disseram por aqui e outros lugares nas ruas do mundo todo. Esperemos que o Brasil possa ferver novamente. Não são as manifestações de 2013 que têm que ser julgadas pelos resultados nas eleições, mas as eleições que tem ser julgadas se estiveram à altura do que aconteceu. Não estiveram. Porque na rua algo aconteceu, enquanto nas urnas tudo permaneceu igual. Que o Brasil ferva de energia política novamente, ou simplesmente vamos continuar nossa fervura climática sem água, em meio à fumaça poluída, na baixa intensidade da nossa vida colonizada pela monotonia e entregue à aceleração sem sentido.

O cenário pós-eleitoral

Evitei escrever sobre o cenário eleitoral no fim do segundo turno porque as coisas estavam tão turbulentas que qualquer coisa que dizia já me causava a perda de dois ou três amigos. Quando o teor constativo da fala se confunde tão fortemente com o performativo, quando o observar fica tão perto do desejar, fica difícil que se entenda que nem sempre o que a gente escreve é o que quer que aconteça. Vou deixar agora a análise da campanha em aberto e lançar alguns palpites sobre o cenário pós-eleitoral, especialmente em relação à reorganização dos partidos.

Dilma venceu a eleição, mas sai em uma situação instável. Por um lado, afirmou-se como uma liderança com personalidade getulista-populista no PT, criando seu próprio espaço em relação à posição de representante de Lula. Por outro, a votação apertada cacifa o partido a reagir quanto ao centralismo da Presidenta e sua visão em relação a vários tópicos, que é bastante destoante de boa parte dos militantes do PT. Além disso, terá que administrar a figura de Lula caso ele comece a promover gestos em direção a 2018. E o próprio PT deverá passar por um período turbulento nos próximos anos, inclusive não descartando que certas lideranças que estão radicalizando o discurso, como Olívio Dutra, Tarso Genro e Eduardo Suplicy, abandonem o partido. Voltarei a esse ponto no final.

Sobre o governo em si, há visões otimistas e pessimistas: para os otimistas, Dilma deve repetir Lula fazendo um segundo mandato melhor, a crise internacional deve arrefecer, as obras tornar-se-ão mais visíveis e as eleições teriam aberto um espaço maior à esquerda. Para os pessimistas, o enfraquecimento da economia e a eleição de um grande número de reacionários deve colocar o Governo ainda mais à direita e torná-lo ainda mais impermeável, fazendo do segundo mandato mais uma gestão da crise política que um momento positivo. Dilma não teria mandado sinais inequívocos de mudança em nenhum dos aspectos negativos do seu governo: quando falou de indígenas, não citou demarcações, tirou o meio ambiente totalmente da pauta e usou o escandaloso caso da Maré, onde civis estão sendo presos por crimes militares e vigora um assumido estado de exceção, como exemplo de política de segurança. Pessoalmente, estou mais próximo da leitura do segundo grupo, mas é o momento de ver como as coisas devem se movimentar nos próximos dias.

O peemedebismo se fortaleceu com a eleição. Os novos partidos – PROS e PSD – conseguiram eleger governadores, apesar da artificialidade da sua base. O PMDB lavou as mãos para quem seria eleito: fosse quem fosse, continuaria firme e forte no governo. Para dar um exemplo, o Governador Sartori, do PMDB gaúcho, apoiou Aécio enquanto Michel Temer era o vice da chapa de Dilma. O PSB também saiu por cima: conseguiu colocar governadores e foi competitivo onde perdeu, mostrou-se aberto a alianças por todos os lados, afastou a ameaça de ser sombra de Marina e da Rede e tornou-se a segunda força peemedebista, abaixo apenas do próprio PMDB, no Brasil. As fraturas causadas por Roberto Amaral e Luiza Erundina na realidade apenas fortalecem o partido, já que sabemos que o peemedebismo como prática prefere a fragmentação à unidade. O PV também fortaleceu-se nesse espectro com a figura simpática e ousada de Eduardo Jorge, afirmando o status paradoxal da sua política arrojada na plataforma e fisiológica nas práticas de modo tranquilo e explícito. Sobre o avanço dos reacionários, o Diego Viana já escreveu muito bem e tenho pouco a acrescentar. Talvez em outra oportunidade. Por ora, porém, fica a observação de que não creio impossível que Bolsonaro funde novo partido para alinhar as bases ultraconservadoras e firmar uma força política como o Front Nacional na França, ficando como espécie de Le Pen brasileiro. Como o PP é partido peemedebista e Bolsonaro recebeu parte da sua votação exatamente pela imagem de “integridade” que caracteriza os fascistas, essa ameaça é real e existe.

O PSDB sai muito mais forte das eleições. Depois de minguar até quase 15% do eleitorado, foi ressuscitado pela estratégia tudo-pelo-poder do PT no primeiro turno. Sem atacar Aécio e reservando todo fogo contra Marina, o PT deixou o corredor aberto para que Aécio crescesse e quase perdeu a eleição. A estratégia, no entanto, foi calculada e contava com os votos da esquerda que, ao fim da eleição, acabariam por apoiar apesar de tudo. Uma parte da esquerda, a chamada “democrática”, recusou a estratégia e partiu para o contra-ataque apoiando Aécio, mas convenha-se que é um exercício forçado visualizar na candidatura dele qualquer chance de diálogo comprometido com a esquerda. Foi um erro político. PT e PSDB fortalecem-se reciprocamente fazendo de São Paulo e Minas Gerais os polos que emanam a disputa política nacional, com o sacrifício mortal, por exemplo, do Rio de Janeiro, que sempre paga o pato pela mediocridade do PT e tem que aguentar um segundo turno como o que teve, com Ninguém (nulos, brancos e abstenções) vencendo os dois candidatos em disputa. Diga-se, no entanto, que o PSDB mostrou que, apesar de Alckmin e certas ações dos seus governos, é um partido de centro-direita. Não é, como os petistas desenham, um partido de ultradireita, hiper-reacionário, a condensação do mal na Terra. Essa leitura serve para Feliciano, Fidelix, Bolsonaro e toda essa turma. Mas tampouco é de centro-esquerda, como alguns dos seus adeptos gostam de dizer. É algo próximo de um partido liberal no Brasil, privilegiando a austeridade fiscal e adotando políticas sociais mais conservadoras, mas sem cair no fascismo de recusar direitos humanos ou mesmo políticas compensatórias. O anti-petismo é muito mais conservador que o PSDB.

O PSOL sai como vencedor dessas eleições. Luciana Genro teve bom desempenho no primeiro turno e Freixo e Jean Willys mostraram-se essenciais para angariar apoio para Dilma. Se ela não voltar para a torre de marfim do poder, vai ter que reconhecer isso. Os três por cento que desequilibraram a balança em grande medida foram conquistados com a credibilidade desses apoios que apareciam até mais como veto a Aécio que como concordância com Dilma. Para as próximas eleições (municipais), o PSOL chegará competitivo em duas grandes cidades: Rio de Janeiro (Freixo) e Porto Alegre (Luciana Genro). Talvez o apoio de Freixo possa até ter sido pensado nesses termos, contando com o apoio futuro da Presidenta e do PT nas eleições municipais. É verdade que afirmei que o PSOL podia ter crescido ainda mais, e continuo achando. O partido é composto por alas internas que se sentem à vontade apenas “afirmando espaço” e pensam mais como sombras do PT radical que como força política própria, e isso tudo será objeto de debate no próximo ano. Considerando sua vinculação orgânica com o socialismo e o marxismo, o PSOL não atrai toda turma do Ninguém e ainda há espaço para que os movimentos das ruas e outros grupos políticos possam criar um novo partido, quem sabe inspirado nas experiências do Podemos, Syrisa e outros.

A maior derrotada dessas eleições, para meu desgosto pessoal, é Marina Silva. Tendo entrado como a grande esperança de mudança com chances de se eleger, tomou decisões erradas e acabou tendo a Rede rachada antes mesmo do seu surgimento. Boa parte dos “sonháticos” que acompanhavam seu projeto não engoliram a adesão à candidatura Aécio Neves, que agora se mostra mais que nunca errada, e já pularam do barco. O perfil atual da Rede é incerto e ninguém mais sabe se é um partido de centro-esquerda ou de centro-direita. A proximidade com o mercado e a aliança com PSDB apontam para o centro-direita; a trajetória pessoal de Marina até então e a bandeira da sustentabilidade, para o centro-esquerda. De qualquer forma, dificilmente Marina e a Rede conseguirão reacender a chama da “nova política” depois da série de decisões equivocadas e alinhamentos desnecessários. Uma parte da Rede já não se sente mais contemplada por essas práticas políticas e outra se tornou tão antipetista que já está subscrevendo a aliança com a direita. É cedo para dizer qualquer coisa, mas o momento para a Rede é de uma profunda reflexão.

O outro derrotado nas eleições é o próprio PT, especialmente o projeto dilmista. Sim, venceu, e isso é sempre melhor que perder. Mas sabe que terá que encarar uma base hostil e que boa parte dos votos que foram decisivos – os de Ninguém – foram simples vetos a Aécio. A quantidade de manifestações que eram compartilhadas por militantes de figuras importantes que diziam votar em Dilma apesar de tudo mostra o esgotamento do projeto. Em determinado momento, nem mesmo a polarização com o PSDB foi suficiente para despertar o apoio. Somente com o risco real de o PSDB voltar ao poder que foi possível mobilizar o “voto crítico” a seu favor. De qualquer forma, mais quatro anos de governo nos mesmos termos do anterior tendem a tornar esse eleitorado – que se mostrou fiel da balança – ainda mais hostil. A reação do Governo Federal aos novos movimentos sociais nos próximos quatro anos vai ser um termômetro disso tudo. Veremos.

O múltiplo é pleno de antagonismos

A redução do campo eleitoral à polaridade tradicional no segundo turno tem provocado o ressurgimento de críticas àqueles que tentaram e ainda tentam destravar a política brasileira do eterno retorno do mesmo. As críticas reproduzem mais ou menos o seguinte esquema: a ideia de que estaríamos diante de uma “complexidade” que ultrapassa esses dois polos é, no fim das contas, uma diluição do antagonismo, utilizando a retórica de uma “união maior” para neutralizar aquilo que é efetivamente conflitivo e não pode ser absorvido por nenhuma lógica superior. É claro que esse argumento tem uma importância gigante, já que efetivamente acontece – especialmente naquele campo já meio falecido que se autodenominava “pós-moderno” – uma espécie de ressurgimento de uma visão consensualista que reduziria o conflito social a uma mera convivência tolerante entre diferenças, sem admitir que as relações entre essas diferenças possam expressar injustiça. É uma espécie de vingança do velho marxismo dilacerado pelas filosofias da diferença as quais, rompendo com a dialética, teriam neutralizado as polaridades de classe e fragmentado as lutas, perdendo o “foco principal” que é o conflito burguesia-proletariado. A mesma diluição teria ocorrido com a ideia de “terceira via” superando a polaridade entre direita e esquerda.

Apesar desse argumento ser importante, ele não é exato. É verdade que muitas narrativas apelam a uma falsa unidade (que pode ser até uma expressão fascista ou no mínimo conivente com a dominação), mas a ênfase ao antagonismo não pode prescindir da contribuição que as filosofias da diferença legaram inclusive ao marxismo. Dito de outra forma, o (eterno) retorno a Marx que deseja essa esquerda não pode se dar sem que tenha passado pelo luto (tese desenvolvida à exaustão e de modo próprio por Jacques Derrida em Espectros de Marx quando o marxismo sofria seu pior momento e, apesar disso, a afirmação serena e decidida do filósofo não veio sem uma série de críticas ao dogmatismo e aos potenciais equívocos dessa obra). Aliás, melhor ainda: é importante que essa passagem não se dê sem que se tenha efetivamente compreendido o que pensadores como Deleuze, Foucault, Derrida e Lyotard, para ficar nos mais clássicos, propuseram sem que isso seja confundido com a apropriação “pós-moderna”, sobretudo em solo norte-americano, da French Theory.

O papel eminente que Nietzsche desempenha nesse cenário é o que nos permite visualizar o quanto essa leitura da “diluição” é enganosa. O que aparece constantemente na recepção do pensamento do filósofo alemão em contexto francês é exatamente o destaque para a força na construção do real. Isso significa, contra qualquer tentativa de diluição, que eles reconhecem ser o universo analisado nas suas obras (variando conforme o autor) não apenas composto por discurso e consenso, mas exatamente como um campo de batalha em permanente disputa por diversas forças. Para alguns deles, essa é uma afirmação de nível ontológico, inclusive, para além das disputas hermenêuticas e das construções discursivas. Citando o exemplo daquele que conheço um pouco melhor entre os quatro, Jacques Derrida, quando este falava em desconstrução como dissolução dos binarismos o processo era precedido por uma inversão momentânea dos polos, para evitar exatamente a pura e simples diluição que manteria o jogo intacto (pois convém ao polo dominante). Interpretações que salientaram o aspecto da mestiçagem, como a de Homi Bhabha, correm o risco de diluir a polarização e trabalhar para o poder, mas disso Derrida não pode ser acusado.

O que estava em jogo, no entanto, era derrubar a hegemonia da dialética e sua insuportável cumplicidade com o Um. Fazendo a diferença acidente da identidade, o múltiplo acidente do Um, a variação uma espécie de negativo, os dialéticos reproduziam uma lógica que esses filósofos desejavam fraturar. A afirmação do múltiplo que brota do turbilhão diferencial, considerando a identidade apenas como um caso da diferença e abdicando de qualquer esqueleto pré-engendrado que divida o real em disputas binárias, esses filósofos não estavam ignorando os antagonismos nem eliminando as disputas de forças, mas as multiplicando. A redução do múltiplo ao binário é tão violenta quanto a redução ao Um. A dialética nos mostra um pensamento dinâmico e relacional, algo do que o pensamento do múltiplo não abdica. Mas, ao reduzir a diferença ao papel de contradição ou de negativo, impede variações das variações e elimina a disseminação da qual ela própria, enquanto economia em forma de dois polos, precisou para nascer. Ao fazer isso, sufoca a multiplicidade e dilui outros modos de conflitos (quando se pretendia a própria matriz de todos eles). Entender a realidade desse modo é certamente mais complexo do que de modo binário, mas isso não significa, em hipótese alguma, que os antagonismos desapareçam.

Na política, não é diferente. Hoje temos mais que apenas um campo de esquerda e os antagonismos estão multiplicados. Sem abdicar da diferença entre direita e esquerda, é preciso entender não se trata mais de dois polos, mas multiplicidades que podem eventualmente e estrategicamente trabalhar em aliança, ainda que sem não coincidir com o movimento binário e com radicais rupturas entre si. O múltiplo multiplica também os antagonismos, e nenhuma domesticação dialética pode dar conta desse processo com suas simplificações binárias sem ser ela própria reprodução daquilo que acusava.

Os quatro erros de Marina

Venho apoiando Marina Silva nas suas decisões políticas desde meados de 2008, quando o Governo Lula, com a descoberta do Pré-Sal, começa a afundar o viés ambiental e retroceder em direção ao estímulo dos combustíveis fósseis e a produção de mais energia com obras gigantescas como a usina de Belo Monte. Naquela época, ainda em um blog antigo, me posicionei várias vezes contra o destaque que vinham ganhando Dilma Rousseff e Roberto Mangabeira Unger como idealizadores do “progresso” nacional, sobretudo porque o projeto cheio de potenciais que Lula significava – com todo pluralismo que caracteriza o Brasil — vinha sendo gradualmente substituído por uma visão nacional-desenvolvimentista mais estrita, dogmática e completamente alheia aos problemas sócio-ambientais do século XXI. Nos dois últimos anos do segundo mandato de Lula, foi a Ministra Marina Silva, liderança ambiental e militante dos direitos humanos pelo PT, a mais sacrificada. Marina não resistiu aos rumos do governo (quem acompanhou a mídia na época lembra das notícias do constante embate com Dilma) e acabou desistindo do projeto quando Lula sinalizou que Dilma seria sua sucessora, apontando para o nacional-desenvolvimentismo sem preocupação ecológica como continuação do seu governo plural e conciliador das diversas forças políticas.

A opção seguinte pelo PV foi lógica, já que é o partido que carrega a luta ecológica no nome. Mas sabemos que o PV também é um partido com práticas políticas discutíveis, que se alia em demasia com setores conservadores e não raro adere à fisiologia mais rasteira do peemedebismo. Dizia-se à época que Marina tinha se filiado ao PV com o compromisso que, depois das eleições, o partido passasse por uma revisão dos seus fundamentos e da sua visão programática. Com 20 milhões de votos, Marina achou que poderia bancar essa mudança, mas foi barrada por velhos caciques que resistiram à proposta e preferiram manter o perfil. Mais uma vez inconformada e já uma liderança de peso nacional, Marina resolve fundar um novo partido – a REDE – que seria uma tentativa de instaurar o que ela passa a chamar a “nova política”, ideia de retorno da discussão em torno dos programas (em vez do fisiologismo) e de uma política mais horizontal, próxima da sociedade com o uso da tecnologia e dos movimentos sociais. Ela faz uma grande “turnê” pelo país e reage meio blasé diante das perguntas midiáticas sobre as eleições de 2014, afirmando que não tinha pressa porque pretendia fundar um partido com consistência programática, mesmo que a custo das eleições.

Em 2013, estouram as manifestações e Marina se fortalece muito, chegando quase aos 30% das intenções de voto. Ela representa uma liderança convicta, fora dos esquadros do peemedebismo, voltada para as questões ambientais (portanto, urbanísticas, pontos que eram discutidos nas manifestações) e disposta a fazer a reforma política. Marina resolve se colocar no pleito e envia 900.000 assinaturas para fundação da Rede, mas, segundo relato dela própria, vê o registro negado devido à inexplicável conduta de cartórios, em especial do interior de São Paulo, que evitam reconhecer as assinaturas. Enquanto isso vê dois partidos peemedebistas serem fundados sem qualquer base política. Marina, que dizia não ter “plano B” em relação à fundação da REDE, começa um processo de indignação cumulativa contra o sistema político que está aí – leia-se, o PT – que vai desembocar em uma série de decisões que considero terem a enfraquecido muito politicamente (não vou dizer “enterrado” porque isso é muita grosseria e toleramos “voltas” de políticos muito piores). Ia falar de três erros quando pensei no post, mas então me dei conta que esses três erros são estratégicos, enquanto o quarto é um erro de fundamento.

O primeiro erro foi ter apoiado Eduardo Campos, do PSB. Diante da negativa do registro da REDE, Marina usa o recurso de pedir “hospedagem” em outro partido, fazendo um acordo de independência material e aliança formal. Ela considerava a REDE um partido perseguido politicamente e que por isso precisaria de amparo em outro. A explicação para o apoio a Eduardo Campos era: um político jovem, de perfil empreendedor, vinculado a Miguel Arraes e de um partido tradicionalmente de esquerda. Parecia a melhor opção, mas boa parte dos seus apoiadores já não entendeu essa primeira medida. Os intelectuais que viam em Marina Silva a chance de algo totalmente novo, uma ruptura com o status quo da política e a real construção de uma alternativa confiável, deixaram-na em banho-maria a partir de então. Não romperam totalmente o apoio, mas perderam a empolgação. Marina passou a se confundir com o sistema político, já que abriu mão da interlocução direta com a sociedade para apoiar um candidato que, apesar da sua leitura em torno da juventude e da renovação, não significava a mudança qualitativa da política. Muita gente que fez falta durante as eleições para atacar o linchamento virtual promovido pelos petistas, sobretudo em termos de produção de textos pela blogosfera governista e manifestações de alguns intelectuais que já perderam totalmente sua independência, deixou de apoiar Marina desde a decisão de entrar no PSB. Eles prefeririam que Marina tivesse aberto mão da candidatura e se firmado como uma figura diferente no cenário político, voltando, quem sabe, em 2018 se fosse o caso. A campanha perdeu parceiros de muito peso que espantariam as inúmeras alegações de que Marina era linha auxiliar do PSDB, fundamentalista e todo resto de coisas que circularam durante esse período. Claro que Marina teve muitos apoiadores de peso mesmo assim, mas já esse primeiro desfalque pesou.

Mas o candidato era Eduardo, não Marina. Então a rigor temos que pensar que a candidatura foi construída para ele, não para ela. Marina foi candidata por acidente, sem planejamento, sem apoio sequer do próprio PSB na integralidade, sem a preparação da aliança e sem ter tempo de conquistar apoios estratégicos. Quando entrou na campanha, já estava sob fogo cerrado da estratégia mais baixa que já testemunhei até hoje. Para dar um exemplo: antes mesmo de ser declarada candidata, a blogosfera governista já ironizava uma foto no funeral de Eduardo Campos na qual Marina estaria sorrindo. O nível da campanha não subiu muito em relação a isso. Esse comportamento atroz, asqueroso, canalha, permaneceu durante toda campanha. E Marina não estava preparada para enfrentá-lo. Mas aí surge o segundo erro estratégico: ao lançar o programa de governo, que ela própria outorgou total centralidade, Marina não tinha suficientemente claros alguns pontos e não fez uma revisão final. A independência do Banco Central, questão que a martelou até o debate final com Dilma, era uma pauta de Eduardo que ela inicialmente não simpatizou, mas tampouco retirou do programa. Poderia ter revisado esse ponto (no final da campanha, ela já usava a expressão “autonomia”, claramente sua preferida), mas estava amarrada não só pelo compromisso político com Eduardo, como também com o luto. Preferiu seguir com a pauta, respaldada também por economistas liberais que a acompanham e consideram que o Brasil passa por uma grave crise de confiança pelo mercado financeiro e precisaria enviar um sinal inequívoco no sentido inverso. Mas esse não foi o ponto principal.

O erro central foi não ter feito uma revisão a contento do programa e com isso ter permitido passar uma pauta maravilhosa, mas além do que ela própria banca, em termos do direitos LGBT. Naquela época, a suspeição de que Marina Silva seria fundamentalista era grande (aos poucos foi arrefecendo durante as eleições, quanto mais ela se tornava conhecida) e esse foi o primeiro ponto a que qualquer pessoa se dirigiu quando abriu o programa. O capítulo continha todas as reivindicações do movimento e era surpreendente porque avançava para muito além de tudo que a candidata assumira até então. Existem milhares de vídeos no Youtube em que Marina Silva deixa clara sua posição: é a favor de todos os direitos civis para a população LGBT (adoção, união civil, luta contra homofobia etc.), mas considera o casamento um sacramento religioso e por isso é contrária à extensão. É uma posição totalmente errada, mas sempre foi essa. Quando sai o programa, diversas pessoas têm que dar o braço a torcer e ao mesmo tempo os fundamentalistas reais – como Malafaia – expressam sua revolta. Digo como quem teve mínimo acesso a relatos sobre os bastidores da campanha: nunca houve o momento em que Marina olhou o Twitter e viu os tuites do Malafaia. A retificação do programa para sua posição original sequer passou pela consulta da candidata (o mesmo aconteceu com o caso da energia nuclear, que evidentemente nunca foi comentado). Mas criou-se essa versão fabulosa de que Marina teria “mudado de posição” (quando o que houve foi a afirmação da sua posição – errada – original) em virtude de Malafaia. Isso foi um balde de água fria gigantesco que inviabilizou inúmeros apoios que vinham se construindo e impediu o crescimento da candidatura entre a esquerda. Provavelmente o maior erro técnico-gerencial (ironia…) que já presenciei, em termos de dimensões e repercussão, numa campanha presidencial.

Mesmo assim, Marina terminou a campanha relativamente “por cima”. Ao terem que enfrentar Aécio Neves no segundo turno, muitos petistas perceberam o erro de ter destruído a candidatura de Marina com seus 10 minutos de televisão e criar um problema ainda maior para si quanto ao enfrentamento de um candidato até então ileso. Vários intelectuais que hesitaram durante a campanha acabaram aderindo nos últimos dias, mostrando sua preocupação ambiental e desejando que o segundo turno se desse à esquerda. Houve inclusive quem fizesse “voto útil” em Marina para a levar ao segundo turno. Não era mais a Marina Silva de 2010, com sua aura de novidade e identificação com pautas novas para o sistema político, nem a Marina que ingressou nas eleições, meio inclinada demais para políticas de mercado, porém ainda identificada com parte da força de 2013, mas era ainda uma força política que o tempo mostraria ter sido alvo de uma campanha mesquinha, estúpida, mentirosa.

É quando então Marina comete o terceiro e definitivo erro apoiando Aécio Neves. Ressentida pelo tratamento que o PT lhe deu durante o primeiro turno, Marina prefere subscrever a candidatura de um candidato identificado com o conservadorismo no Brasil. Na visão dela, o PT – considerado o tratamento que deu à REDE e depois a ela como candidata – é uma ameaça real à democracia brasileira, tendo aparelhado boa parte das instituições e se mostrado capaz de fazer de tudo para se manter no poder. O neoliberalismo de Aécio não incomoda tanto, já que ela comprou o diagnóstico de que o Brasil sofre crise de confiança e precisa reafirmar compromissos, desde que mantidas as políticas sociais. Então ela arranca um documento de Aécio de que se comprometeria a manter políticas sociais e melhorar a visão ambiental e acerca dos direitos indígenas que Dilma estraçalhou nos últimos 4 anos. Ingenuidade ou cinismo? Tanto faz, porque o que importa aqui não é psicologismo. Politicamente, Marina retrocedeu. Perdeu uma infinidade de apoios que não a perdoarão porque poderia simplesmente ter ficado neutra, ou seja, na oposição dos dois projetos.

O “ingovernável” que dá nome ao blog é a posição de não-submissão ao poder, ao governo, a profanação dos ídolos, o lugar em que é possível que o pensamento, por exemplo, se desenvolva sem reverenciar ninguém. Meu critério pessoal que me faz separar bons e maus intelectuais é a independência. Uma inteligência sem independência para mim é uma contradição em si mesma. Por isso, não posso aceitar que Marina tenha cometido um quarto e último erro que é a expressão de todos os que foram até aqui arrolados: não confiar no seu próprio conceito de “nova política”. Se efetivamente existe algo que mereça esse nome, não pode se deixar decidir apenas pelas eleições. A política não se faz só na urna. Na era da Internet e de todas as novas tecnologias que se infiltram na nossa vida, estamos a todo momento vivendo a política. As eleições viraram uma forma caricata de participação quando online estamos em contato direto com as decisões, podendo influir inclusive argumentativamente se efetivamente fosse aberto esse espaço. A nova política é a desconstrução das diversas categorias da velha democracia representativa, de baixa intensidade e participação, burocratizada e cada vez mais convertida em plutocracia. Marina se sentiu obrigada a optar por um dos polos que ela mesma insistiu estarem desgastados. Errou. Mais que um erro estratégico, isso foi um erro de fundamento. Uma descrença no que ela mesmo sustentava acreditar, que é possível uma nova interlocução entre sociedade e estado no século XXI. E que vai ocorrer independentemente de Marina (ela própria sempre se negou esse status de líder). Já está ocorrendo, basta passar os olhos pelo resto do mundo.

Se alguém deve ser responsabilizado por todos esses erros, com a cota de humanidade que sempre convém lembrar, é a própria Marina, não a nova política. Se ela não foi capaz de bancar sua própria visão, não muda nada a necessidade de que precisamos renovar as instituições, oxigenar a esfera pública, enfrentar as oligarquias. A nova política já está aí, gostem ou não, e por mais que a “velha política” tente a sufocar, não será capaz de impedir seu florescimento. Agora, quando o sistema político só consegue sinalizar a antiga e mesma e monótona polaridade, resta aos que desejam o novo, enquanto corpos insubmissos, encarnar a sociedade contra o Estado.

E se a matéria da política fosse o sonho?

Para Jacques Derrida in memoriam

 

Dez anos da morte desse pensador vigoroso que desponta entre as três maiores influências intelectuais no imaginário político (fora dos esquadros estritamente marxistas ou liberais) da segunda metade do século XX, ao lado de Michel Foucault e Gilles Deleuze. A tríade – que nada a ver com as tríades hegelianas e muito menos com santíssima trindade – é o nó borromeu que forja a maioria dos conceitos que traduzem a esquerda pós-1968. A geração que pediu o impossível nas ruas, que reivindicou a imaginação, que libertou os corpos das prisões humanistas e a revolta dos grilhões da disciplina militante. Esquerda que encontrou na repressão o eixo que liga todos os poderes, do público ao privado, do estatal ao indivíduo, do estado ao mercado. O que dizer para Jacques Derrida, dez anos depois da sua morte?

A primeira pergunta seria: pode-se falar aos fantasmas? Nossos scholars ensinam que os fantasmas não existem. A força da razão é o exercício de desmistificar fantasmagorias. Nada como a força da boa consciência, o encontro da razão consigo mesma na reflexão esclarecida que permite limpar o mundo da sujeira espectral. O mundo passa a ser “claro como a luz do sol”, livre das ilusões e das alucinações. Falar de fantasmas é ressuscitar os velhos fantasmas da religião e do mito, que em outros termos remetem às suas versões mais modernas já com outros nomes porque de certo modo desmistificadas: a ideologia e a alienação, dois lados da mesma moeda daqueles que escravizam os outros com a força da dominação legitimada pela irracionalidade. Nada como a força do logos para apresentar as contradições da realidade e dissolver os fantasmas.

Derrida nos ensina a pensar essas questões de outro modo, ou ao menos de enxergar a mitologia do logos como apenas uma condensação específica de um turbilhão de virtualidades. A dyferença, que grafo com y em homenagem a Glauber Rocha, não é a arqui-origem, mas a anarquia da qual toda origem pode existir — e apenas retroativamente (como mito). Esse campo anárquico não tem bordas nem limites, é o limiar que se dobra e desdobra sobre si mesmo sem que reconheça qualquer exigência econômica. Não tem sentido, porque é a condição de possibilidade e impossibilidade de qualquer sentido. É desse campo que emerge – se escrevendo em grafemas – a forma, a organização, a vida e tudo que tem programa. Exposto ao outro, outro de si, variações infinitamente infinitas que se disseminam e multiplicam sem tomar a forma do Um. Formas inconsistentes que se organizam e reorganizam.

As duas principais referências para pensar esse campo espectral são Georges Bataille e Sigmund Freud. Bataille, com a ideia de economia geral, abriu espaço para a “aneconomia” dos fantasmas derridianos. Ao não respeitar mais a troca simétrica e receber a economia da dádiva de Mauss, Bataille liberta o pensamento da exigência da simetria e do sentido. Mas Freud é também fundamental. Se Derrida não é um materialista, não é exatamente por fidelidade ao judaísmo (que ele nunca nega, mas se considera fielmente infiel) e tampouco pelas recentes tentativas de aproximá-lo da teologia negativa. O outro que entra na política a partir do dom, da justiça e da hospitalidade, entre outros, não é o inefável nem o transcendente. Não se trata de uma ideia regulativa e nem da perfeição inatingível. Não é isso que Derrida objeta ao materialismo.

A objeção derridiana ao materialismo vem do próprio conceito de matéria como substância. O atomismo ainda estaria preso a essa ideia, seria necessário ainda dessubstancializar a matéria para, sem fazer uso do “espiritual”, pensar um real que possa ser fraturado e fraturável, infinitamente divisível e ao mesmo tempo não-atômico. É aqui que o campo espectral encontra em Freud o campo da fantasia e do sonho como modelo: o sonho não é o oposto do real, mas sua infinita virtualidade. O que chamamos de real não é mais que um sonho reificado. O sonho, aqui arrisco eu, não é um fenômeno subjetivo e privado, mas a matéria da matéria. Desprivatização do espaço cujos trabalhos de Emanuele Coccia e Ludueña Romandini, com suas imagens e espectros, tem nos ajudado a pensar.

Se isso é verdade, então quando justiça, dom, hospitalidade e todos os impossíveis entram na política, não fazem parte de um domínio inefável ou ideal. Eles ingressam na política como sonho. Sonho como campo das imagens cujo humus é a imaginação.  Eles se disseminam, abrem e desconstroem todos os fechamentos e inscrições contingentes que se estabilizam em instituições. Como seria uma política que reconhecesse como sua matéria o sonho, e não o programa? De certa forma, ao introduzir os espectros justamente no momento em que Fukuyama declarava a história encerrada, Derrida recolocava o sonho na esfera da política. Ele prefere a palavra “messianidade” para expressar essa demanda infinita. Penso que Derrida subestimou com isso outra palavra ainda mais poderosa: a utopia. Sim, claro que ele a rechaça pela ideia de planejamento e futuro projetado, que contrasta com a abertura infinita, mas por que não pensar essa abertura justamente como a u-topia, o não-lugar que impossibilita toda presença e por isso arromba a própria identificação com todos os mitos judaico-cristãos? (Ao usar messianidade em vez de messianismo, ele já pretendia isso). Lugar que sustenta as imagens mas que não se confunde com nenhuma delas, o utopia não pode ser habitada, não se faz presente porque sua “matéria” é demasiado inconsistente para existir como tal. Lugar abastecido pela imaginação, não apenas pela razão. A utopia realizada é a presentificação do mal, porque ela nunca pode ser experimentada in totum salvo como falsificação, ela é sempre aquilo que abre a trilha para a errância da experiência que se escreve em formas contingentes sem nunca se fechar de uma vez por todas. Nesse caso, poderíamos dizer que uma política que reconhece o sonho como sua matéria pode ser chamada de utopia ou, dito mais organizadamente, a utopia seria nesse caso a superfície da política onde transitam os sonhos.

O pior pode estar por vir

O clima de fim do mundo do segundo turno defendido pelos dois lados está amenizando a percepção do grande erro político que o PT cometeu no primeiro turno e da necessidade de reorganizarmos as alianças pela esquerda, apesar de todo policiamento que aqueles que divergem dos rumos atuais da política têm que aturar, contra o pior que está por vir. E ele não será nem o PT nem o PSDB. O pior pode ser ainda muito pior do que ter aberto as portas para o crescimento de Aécio ao focar ataques em Marina ou mesmo que corroborar políticas identificadas com a ortodoxia neoliberal.

A votação expressiva de políticos fascistas indica que talvez estejamos testemunhando a emergência do fascismo assumido e institucionalizado no Brasil. A Constituição de 1988 de certa forma neutralizou durante algum tempo esses discursos na forma explícita, mas sabemos que a mídia — especialmente aquela de baixo nível — e grande parte da população é entusiasta das suas ideias. Na sala de aula, na feira, no táxi, no restaurante: os fascistas sempre estão por perto. Eles demonizam os direitos humanos e consideram que as lutas das minorias são uma espécie de “ditadura” (exatamente porque concebem democracia como a vontade da maioria, mesmo que ela seja interferir na vida privada e na autonomia individual ou ratifique a injustiça social), identificam-se com a violência policial, apoiam políticas higienistas e moralistas de toda ordem e creem na figura do líder autoritário.

O paradoxo é que hoje quem mantém boa parte do orçamento do fascismo na política é o próprio PT. Ao se aliar a partidos como o PP, o PT cede parte do orçamento público para que cargos em comissão ajudem a financiar campanhas e deem sustentação econômica para esses partidos (sem falar de outro tipo de financiamento). A razão disso é que o PT precisa deles para governar: o peemedebismo é o modus operandi típico do sistema político brasileiro e o partido ajudou a o consolidar. Quando o peemedebismo foi contestado, durante as manifestações, o PT resistiu a aceitar e preferiu se agarrar nos aliados, apostando que no final a chantagem (“nos atacar é fortalecer a direita”) seria suficiente para derrubar a revolta. Não foi. O resultado disso é que o PT perdeu o apoio de boa parte da esquerda e o lado direito do governismo se fortaleceu. Como naquele conto do escorpião, está pronto para dar o bote quando se tornar forte o suficiente para andar com as próprias pernas ou encontrar melhor aliança. E o erro de demonizar as manifestações continua a pleno vapor nas eleições.

Por isso a atitude de monopolizar a esquerda pode ser bastante grave no futuro e repete os erros do “socialismo real” e dos partidos comunistas do século XX. Com uma provável recessão à vista, se o PT vencer, a direita tende a se fortalecer. E não só a direita “neoliberal”, o centro-direita, mas a ultradireita de Bolsonaro, Heinze e Feliciano. Ela pode ser fiel da balança no futuro próximo — 2018 — e iniciar um ciclo realmente infernal. Para enfrentar isso, será necessária uma ampla aliança de esquerda. O PT sozinho não é forte o suficiente. Apenas se tivermos juntos a esquerda radical, os verdes e os trabalhistas, espectro político com divergências amplas, poderia haver chance de enfrentar os reacionários. Mas para isso o PT precisa sair do projeto do monopólio da esquerda e deixar florescerem outras correntes. Da mesma forma, é necessário deixar que os movimentos sociais possam crescer e pressionar o sistema político a ponto de formarem um força paralela ao Estado. Só assim é possível que a esquerda se apresente como algo novo, inclusive alternando entre si de posição. O quadro atual que se desenha com a atitude exclusivista do PT é o pior possível: se assistirmos uma crise nos próximos anos, a única saída será relançar Lula como líder nos moldes de Getúlio e Perón e estraçalhar o cenário político com uma figura puramente simbólica e paternal enveredando na direção do populismo. Mas o problema não é só esse: o outro lado pode estar mais forte e vai justamente tensionar a figura de Lula como principal rival político, o que pode significar mais força para a extrema direita e radicalização do cenário até o ponto de ameaçar a democracia. Em outros termos, havendo fortalecimento das figuras da extrema direita em nível nacional e se Lula for eleito em 2018 pelo peso exclusivamente simbólico (com todas as polarizações de classe e região que costuma atrair), passa a existir o risco real de um golpe no Brasil. Sob essas condições, evidentemente (em um cenário de bonança nos próximos 4 anos, por exemplo, a situação não seria essa). Por tudo isso a própria renovação do PT é imperativa.

O velho dilema de 1968, com destaque para a Primavera de Praga, reaparece aqui. A chantagem de apoiar o Partidão sob pena de entregar o poder para a direita é o grande equívoco que não pode ser repetido. Sabemos que enquanto o Partidão é apoiado a qualquer custo o fantasma de Stalin continua nos rondando. É só arrancando compromissos do poder, pluralizando a própria esquerda, que é possível uma saída que não seja chancelar o que não pode ser suportado e nem a entrega do poder aos reacionários. A alternativa do tudo ou nada é uma redução infernal que nos coloca nas mesmas aporias que já deveríamos ter aprendido a contornar. Pluralizar e construir novas alianças reconhecendo outros campos políticos e evitando a lógica autoritária é a única saída para a esquerda, que não tem mais o direito de errar os mesmos erros eternamente.

O preço das manifestações

Há muita coisa que gostaria de dizer sobre o resultado das eleições, especialmente sobre a campanha sórdida que resultou na queda de Marina Silva e subida vertiginosa de Aécio que farei questão de retomar em todos os seus pontos (do “sorriso no funeral” e a “queda suspeita” do avião, passando pelo “fundamentalismo religioso” até a “nova cara da direita”), mas vou deixar para daqui a pouco. Hoje um “blogueiro progressista” já anunciou que talvez a primeira pesquisa coloque Aécio na frente no segundo turno. Esse blog avisou que isso era um risco real.

As notícias sobre os resultados eleitorais, salvo algumas exceções como Dino no Maranhão, foram péssimas para a esquerda. Os maiores ícones do fascismo no parlamento, Luiz Carlos Heinze (que declarou serem índios, quilombolas e LGBT “tudo que não presta”) e Jair Bolsonaro (que dispensa comentários) foram os deputados federais mais votados nos seus estados. No RS, Tarso Genro dificilmente baterá Sartori, do PMDB. Lasier Martins, comunicador conservador da RBS que declarou recentemente que muitos índios viraram bons trabalhadores e que o problema é “os tirar da pobreza”, foi eleito derrotando Olívio Dutra. Ronaldo Caiado e Marcelo Miranda, políticos ruralistas, eleitos senador e governador, respectivamente, dos seus estados. Beto Richa e Geraldo Alckmin, políticos ultraconservadores, idem. Serra bateu Suplicy para o senado paulista e repito que Aécio vem fortíssimo no segundo turno, pois toda artilharia petista durante o primeiro turno foi dirigida à Marina Silva, “a nova cara da direita”.

O declínio eleitoral do PT, apesar da arrogância dos seus militantes que achavam por exemplo que poderiam levar no primeiro turno, é um nítido efeito das manifestações de 2013 e de todo processo que as desencadeou. O único consenso sobre as manifestações é que elas são um enigma, mas tenho tentando esboçar algumas leituras sobre elas por aqui.

Muito antes das eleições já estava dito que as manifestações não eram movimentos puramente de esquerda, mas uma mescla de várias tendências com uma pauta mais ou menos comum: a revolta contra o sistema político. Defendi por aqui que a juventude que foi às ruas abrangia uma esquerda de novos movimentos sociais lutando contra a plutocracia e o avanço dos projetos de gentrificação nas cidades especialmente impulsionados pela Copa do Mundo. O MPL propunha uma revisão da política aceleracionista de investimento na indústria automobilística, um dos principais pactos trabalhistas do PT que, contudo, corrói a experiência nas cidades transformando-a num inferno de stress e agressividade, além de detonar a multiplicidade da paisagem para transformar tudo em asfalto cinza e, a longo prazo, fortalecer o aquecimento global. O MTST propunha uma crítica dos investimentos dos bancos públicos em empréstimos dados a mega-empreiteiras que, a pretexto de “promover o desenvolvimento” e “dar empregos”, comandavam projetos sociais como o “Minha Casa Minha Vida” e promoviam remoções e exclusão da população pobre. Os povos indígenas inauguraram esse ciclo e fizeram parte das manifestações — lembro por exemplo do caso da Aldeia Maracanã, no RJ –, uma vez que o Brasil vive a maior ofensiva anti-indígena desde a Ditadura Militar por causa das políticas de crescimento atuais. Esses movimentos, entre outros, revoltavam-se não contra as concessões do Governo Federal, mas contra seu projeto. A crítica de um programa social tido como vitrine é prova disso.

Mas as manifestações não tiveram apenas essa face de esquerda. Também a direita saiu às ruas. Usando seu próprio jargão, a juventude de direita criticou a corrupção e a fisiologia do sistema político. Lembrei da divisão de Renato Janine Ribeiro entre o PT, mais “democrático”, e o PSDB, mais “republicano”, para explicar essas tensões nas ruas que já não se sentiam mais representadas por ambos. A fisiologia do peemedebismo irritava também os manifestantes da direita. E lembro que, apesar da existência de células fascistas, havia também ali muito da juventude da “nova classe trabalhadora” lulista que, embora reconheça a contribuição dos programas sociais, acredita no discurso da meritocracia e tem uma visão de centro-direita acerca do processo político. De perfil mais “empreendedor”, essa parcela beneficiada menos pelo Bolsa-Família (não raro é até contrária a ele) que pela elevação do mínimo e a abertura de crédito se nega a perceber a influência do Estado na sua ascensão e prefere acreditar no mérito próprio, que é verdadeiro, mas nunca explica tudo. Esses manifestantes procuravam mais “qualidade” na política, evitando a drenagem de recursos públicos nos pactos fisiológicos e a permanência das velhas oligarquias mantidas pelo PT (Sarney, Collor, Renan etc.).

Ao invés de dialogar com ambos os setores, o PT preferiu subir no salto alto e se achar na condição de julgador. Etiquetou a pecha de “coxinhas” nos manifestantes e preferiu se afirmar como o suprassumo infalível da esquerda, agarrando-se para tanto em diagnósticos toscos e conspiratórios. Na Copa do Mundo, lançou o lema #vaitercopa e se desconectou totalmente dos movimentos sociais, preferindo reforçar a segurança e a vigilância sobre eles. Até hoje quando o assunto vem à tona sobram julgamentos sobre as manifestações, tidas como “alienadas”, e petistas se vangloriam da proposta de plebiscito constitucional da Presidenta Dilma que não durou um mísero dia. A culpa, no final, é das próprias ruas por enfraquecer o PT. O símbolo dessa visão risível é o sociólogo Emir Sader ter chamado de “vira-latas” movimentos de sem-teto que iriam protestar em frente ao Itaquerão e foram afastados pelas torcidas organizadas do Corinthians. Qualquer semelhança com paixão futebolística não é mera coincidência.

Mas a conta veio. O PT perdeu apoio de boa parte da esquerda e não soube dialogar com esse centro-direita jovem. Os puristas da esquerda arrebentaram Marina quando ela disse que a “nova política” não podia ser só de esquerda, ignorando que em uma democracia temos que conviver com conceitos mais abrangentes que a nossa própria visão ideológica. Confundiram programa de governo com o ambiente democrático. Hoje o PT corre o risco de sofrer uma grande queda se perder o governo federal. A verdadeira direita, em compensação, está mais forte que nunca. Ela sabe que esses manifestantes foram procurar integridade no fascismo, como tantas vezes já fomos obrigados a testemunhar. A direita aproveitou-se do que Benjamin chamava do “pessimismo desorganizado” da juventude para capitalizar votos. Conseguiu. Em contraponto a isso, o PT propõe um otimismo de Poliana que ninguém mais que não seja adepto quer subscrever. O mundo não está para otimismo e o PT não percebeu isso. Pode pagar caro, muito caro, por esse erro.

Neoliberalismo e Aceleracionismo

Um dos pontos que tem servido de mote principal para críticas à Marina Silva nas eleições é de que seria neoliberal. Para essas perspectivas, Marina teria dado garantias demasiadas ao mercado e com isso fortalecido os mecanismos monetaristas que configuram o neoliberalismo, regredindo em relação ao desenvolvimentismo que Dilma vem aos poucos implementando mais e mais em seu governo. Na realidade, pelo que vem aparecendo por aí – não sou economista para julgar – parece que o Brasil vai alcançar logo um ponto em que vai ter que decidir entre manter a base macroeconômica seguida por FHC e Lula ou simplesmente ir no contrafluxo e buscar uma solução keynesiana que romperia com o “tripé”. Em outros termos, se reeleita, ou Dilma irá recuar e colocar uma equipe econômica mais “ortodoxa”, ou vai comprar a briga e romper definitivamente com o modelo que Lula cautelosamente seguiu. Muitos petistas esperançosos dessa segunda via enxergam Marina Silva como um “recuo neoliberal”, significando um retrocesso que recolocaria o Brasil nos eixos do neoliberalismo em contraponto ao desenvolvimentismo de Dilma. Não tenho muita certeza se boa parte dos protestos não é hipocrisia, já que duvido muito — pela experiência dos últimos doze anos — que pressionado pelo mercado o PT banque a ruptura, sendo muito mais provável que esse papo todo seja apenas para captar votos da esquerda que mais tarde vai se “decepcionar” com escolhas conservadoras da mandatária. Em todo caso, confesso que não tenho instrumentos para julgar quem está certo porque não conheço economia. O que me impressiona, no entanto, é como o viés economicista dessas análises ignora totalmente o quanto os problemas contemporâneos do capitalismo cresceram em complexidade e escapam da discussão entre esses dois polos.

A formação de boa parte das cabeças do PT é o mesmo nacional-desenvolvimentismo que a Ditadura Militar implementou (não por acaso a influência de Delfim Neto e os vários elogios de Lula à visão econômica dos militares), mas com o projeto de distribuição de renda e cidadania inclusiva. Para essas descrições, o problema central do neoliberalismo seria o desmanche da estrutura do Welfare State e a desregulação dos mercados, com a consequente hegemonia do mercado financeiro sobre a indústria e a produção. A nostalgia desenvolvimentista pensa ser possível reconstruir a indústria com as bases do século XX e aplicar políticas de crescimento via intervenção do Estado com vistas à melhoria das condições sociais em especial dos mais pobres. No final, chegaríamos a uma sociedade no modelo dos Estados de bem-estar europeus e poderíamos somente então, quem sabe, começar a pensar nas utopias ecológicas ou anarquistas. Não por acaso boa parte do ideário dessa esquerda é nacionalista, como o poderoso ministro Aldo Rebelo e suas patacoadas não cansa de nos mostrar. Um keynesianismo econômico cumulado à plataforma constitucionalista seria o suficiente para transformar a sociedade brasileira contra a “globalização dos mercados” e suas políticas de exclusão social.

O problema desse diagnóstico é que ele deixa muitas variáveis de fora e não leva em considerações boa parte das transformações sociais do que hoje em dia podemos já chamar de século XXI.

O que se chamava de “neoliberalismo” hoje não pode mais ser reduzido a uma visão monetarista da política macroeconômica e tampouco apenas à hegemonia do mercado financeiro. Hoje o que se chama com esse nome é um complexo de medidas de urbanização que envolvem a reconstrução dos espaços públicos a partir de uma nova arquitetura das cidades. É um projeto de reconfiguração que funciona a partir de conglomerados econômicos que controlam o mercado da construção civil. A rigor, como o pessoal liberal me criticou com razão no Twitter, isso nem é mais liberalismo, porque o livre mercado foi para o brejo. É outra coisa. O complexo de oligopólios que atua no mercado da construção e conta com o apoio do sistema político — convertido em plutocracia — que usa a justificativa banal da “criação de empregos” para promover a reconfiguração do espaço urbano a partir de estratégias como a gentrificação e da organização de mega-eventos. O Estado, que no caso brasileiro até pode acreditar estar “induzindo” processos de crescimento, financia essas operações ou no mínimo as respalda usando sua força policial — especialmente a militarizada — para evitar o protesto dos atingidos.

O Brasil não apenas faz parte desse modelo, como inclusive o está exportando. A aliança Sul-Sul que alguns compram com um alinhamento automático pouco crítico na verdade está consolidando uma espécie de “quase-colonialismo” sobre outros países ao viabilizar que empreendimentos relativos à extração de matéria-prima e construção civil comandados pelos oligopólios brasileiros sejam levados para mercados como a própria América do Sul e a África, atingindo sobretudo as populações vulneráveis (como os indígenas da Bolívia e Peru) e favorecendo as cleptocracias (especialmente na África). Ao lado da aliança política comemorada pelos intelectuais partidários existe uma estratégia econômica que fortalece algumas mega-empresas que não por acaso se destacam em termos de doação para a campanha majoritária. Esse fenômeno é ainda mais visível se considerarmos a ocorrência da Copa do Mundo e todas as remoções e outras medidas que ela significou. Lembrando que, antes do Brasil, essa estratégia aconteceu na África do Sul, outro dos países emergentes. Não se pode negar que a FIFA tem visão. O projeto desenvolvimentista brasileiro está embarcando forte nessa aventura. Ele se converteu em um reposicionamento do capitalismo contemporâneo não na forma decadente de neoliberalismo, explodida em 2008, mas do aceleracionismo.

Não por acaso o PT, partido majoritariamente formado nas categorias socialistas e social-democráticas, não entendeu nada dos protestos de 2013. Os protestos (encarados por Gilberto Carvalho, das cabeças mais compreensivas do governo atual, como “traição”) organizaram-se justamente a partir da pauta urbanística, em torno da questão do transporte público, mas também da gentrificação e da interferência dos oligopólios econômicos na política institucional. As ocupações de todos os estilos, inclusive das câmaras municipais, e os protestos contra a Copa protestaram sobretudo contra essa nova onda do que antes se chamava “neoliberalismo”. Essa onda não é mais anti-Estado, e por isso os libertários talvez fiquem magoados, mas precisa do Estado como indutor desses processos de reconfiguração sobretudo a partir do uso da violência “legal” exercida pela polícia. Ela também precisa do apoio dos desenvolvimentistas para driblar as proteções ambientais e fazer girar a roda da “modernização” sem respeitar os limites. Em troca, promete “aquecer” o mercado e melhorar os índices macroeconômicos gerais que contentam aos desenvolvimentistas. Devastando a paisagem e variedade das experiências urbanas, faz proliferar espaços “higienizados” com a construção de gigantescos arranha-céus, imensas autopistas e a vigilância generalizada por meio de tecnologias sempre em renovação. A multiplicidade e o colorido da diferença são absorvidos na monotonia cinza da grande megalópole. “Aquecendo” o mercado, o aceleracionismo nos conduz a lugar nenhum: a felicidade desidratada do consumidor nunca satisfeito, com seu carro e gadgets, mas cada vez mais privado de singularidade e esmagado pelo stress causado pela máquina abstrata da aceleração.

Reservo a questão ecológica e o reflexo dessas políticas na área rural para outro post. Nesse caso, o quadro é ainda muito pior, muito mais catastrófico. Mas o que podemos visualizar nisso tudo é que o projeto “progressista” está em completa sintonia com as dinâmicas aceleracionistas do capital. Analisar a questão eleitoral apenas sob o ângulo da macroeconomia sem macroecologia, por exemplo, é um anacronismo a que não temos mais direito. O neoliberalismo como descrito pelos petistas não existe mais. Não tem mais futuro. Ele ruiu com a crise de 2008. O principal rival a ser enfrentado hoje em dia é o aceleracionismo, a “modernização urbana” que é na realidade a exploração do espaço existencial da cidade no modelo “Dubai”. O futuro do capitalismo hoje é o Brasil, a África do Sul, a Índia, os “mercados emergentes”. Hora de avançamos o debate.

Para pôr fim no Vaticano Vermelho

Uma das questões perenes para todo mundo que se autodenomina de esquerda é por que razão esta costuma fracassar quando está no poder. Não vou entrar no mérito, embora concorde, com a afirmativa de Gilles Deleuze de que não existe governo de esquerda. E também – ainda que concorde também – deixarei de lado as frases do mesmo filósofo (citadas recentemente por Déborah Danowski e Isabelle Stengers, respectivamente) de que a pessoa de direita sempre parte de si mesma para chegar ao outro, enquanto na esquerda é o inverso, e que para ser de esquerda é preciso pensar, ao contrário da direita, para cuja adesão basta seguir a maré. Como disse, concordo com todas as afirmações de Deleuze, mas vou suspendê-las por um instante e pensar que seria possível ao menos um governo que se tornasse menos governo – e portanto mais vida (ou como se queira chamar esse espaço ingovernável) – e que isso poderia ser chamado de “esquerda”.

Dito isso, o diagnóstico quase universal, sempre em tom de lamentação ou de auto-ironia, é que a direita sabe se unir, enquanto a esquerda se dispersa facilmente. É folclórica a afirmação de que as reuniões de esquerda sempre terminam em ruptura e que cada um funda sua célula. A direita, ao contrário, seria capaz de se aglutinar em torno de objetivos pragmáticos, contando ainda com o bônus extra fundamental da inércia. Por isso, seria necessária uma espécie de “pacto de unidade” que permitiria à esquerda superar as diferenças e reunir-se na luta contra a direita (ao fim das contas, o inimigo comum).

Meu palpite é que não é por acaso que essa lamentação já dura mais de 100 anos. Ela dura porque está errada. E esse erro, entre muitos outros possíveis, é que tem afundado a esquerda e condenado-a a repetir sempre os mesmos erros. Por alguma espécie de reflexo condicionado, os esquerdistas sempre procuram resolver os erros e aporias voltando a uma interpretação “mais original” do que teria sido mal lido. Conservadorismo de esquerda? Parece que sim. Essa hipótese que denega o acontecido, ou melhor, que o acontecido ocorreu porque o erro fazia parte das suas virtualidades, é uma espécie de mecanismo de repetição que não permite à esquerda superar seus traumas, em especial o maior de todos: o estalinismo. O que Zizek costuma dizer em relação ao neoliberalismo é válido também para a própria esquerda, Zizek inclusive. O filósofo afirma que o neoliberalismo sempre nega suas crises não como defeito, mas como falta de neoliberalismo. Faltou mais mercado, quando houver mais mercado aí sim as coisas funcionarão. De certa forma, esse mesmo mecanismo opera na mentalidade de esquerda: faltou mais unidade, faltou mais do projeto original, o que aconteceu não foi radical o suficiente. É interessante perceber o quanto nossa esquerda hegeliana é anti-hegeliana no assunto, já que a dialética do pensador alemão é exatamente a incorporação da contradição como parte da lógica da totalidade. Sendo assim, os efeitos “negativos” ou “contraditórios” tem que ser assumidos como parte da dialética do real, e não meros pálidos reflexos de algo que não teria se apresentado em toda sua verdade. Assim como vários pensadores contemporâneos postulam o nazismo como efeito, e não desvio, da Modernidade, é preciso assumir o estalinismo como contradição real da esquerda.

O que quero dizer com isso é que a imagem de uma esquerda que se dispersa demasiadamente e se nega à “união” que nos permitiria enfrentar a direita é exatamente a raiz não apenas da violência estalinista, mas do fracasso da esquerda no poder. Quando a esquerda vence, ela perde também, já que no final terá que se submeter a uma infinidade de pautas e concessões à direita ou recorrer a um governo autoritário que é o próprio contrário do que o significante “esquerda” deveria representar. A maioria da sociedade é conservadora e por isso de direita, de modo que a esquerda está sempre emparedada, mesmo quando eleita. Quando a situação se torna crônica, a esquerda vai gradualmente se recolhendo até ficar quase idêntica à direita, ficando por isso imprestável, já que esse serviço a direita faz melhor. A hipótese é que é justamente a representação da “unidade” como solução para esse dilema a causa do problema.

Em outros termos: precisamos de uma esquerda que não seja mais uma (e muito menos um Partido), precisamos de múltiplas esquerdas. O que o estalinismo deveria ensinar à esquerda é que a lógica centralizadora é justamente seu pior defeito, que a busca da unidade é exatamente seu ponto fraco. Eis agora a maior provocação: o que a direita sabe é que não precisa da unidade. A direita pode conviver com liberais, conservadores, reacionários e fascistas. Ela comporta essas variações, do sujeito que por exemplo é favorável à liberdade de mercado e ao mesmo tempo aos direitos humanos e sustentabilidade até o fascista que quer “ir para cima” dos gays. Ela não demanda a unidade. E é isso que a esquerda precisa aprender com a direita: a conviver com o múltiplo. Claro que o múltiplo da direita é homogeneizador e trabalha fundamentalmente com figuras determinadas: o consumidor, o empresário, o pai de família etc. Mas a isso a esquerda não deveria opor outro Um, mas multiplicar o múltiplo. Mostrar os que ficam de fora do mundo da direita e apresentá-los como mais diferença. Usar menos a imagem do “povo”, uma unidade, que os múltiplos (índio, mulher, gay etc.).

Isso significa que as esquerdas deveriam se reconhecer mais como esquerdas. Recentemente, Eduardo Jorge mencionou que não existe “Vaticano Vermelho” para decidir quem é mais socialista. No entanto, uma das principais lutas da esquerda se dá exatamente pela posição de Vaticano Vermelho. A ideia de que existe só uma esquerda verdadeira é a mais lamentável herança estalinista na esquerda. Ela é também burra estrategicamente: ou a esquerda mantém-se no projeto autoritário de que somente no Um (na “união”) é possível a hegemonia (o que nos conduz a um cenário indesejável), ou nunca terá maioria porque despreza o múltiplo (quem não é “Eu mesmo” não é esquerda). Quando vejo que ao se apresentarem alternativas de esquerda os velhos fantasmas do Partidão vêm nos assombrar, chamando-as de aliadas da burguesia e toda essa nomenklatura que serviu para que não se reconhecesse até hoje, por exemplo, o evento-1968, vejo o quanto a sombra da “unidade” continua sendo um mecanismo de repetição compulsiva. Toda esquerda que quer esmagar suas variações como falsificações do Verdadeiro Um, de preferência o Partido, é autoritária e burra. Em vez de eliminar possíveis alianças que poderiam consolidar um novo campo político para realmente enfrentar a direita, contar com elas e com apoio de boa parte sociedade que se veria contemplada nessa multiplicidade para dar conta da tarefa. Reconhecer que existem variações possíveis em pautas e que elas não precisam convergir no Um. Admitir que “eu não sou a única esquerda” deveria ser o primeiro passo para qualquer perspectiva que quer ser chamada de esquerda.

Em síntese: saber-se perspectiva, e não verdade.