DOIS COVERS PRA MATAR

O cover oscila da irrelevância até um ponto notório, às vezes superando o original inclusive. São muitos exemplos para brincarmos. Essas duas canções que coloco têm relação com minha banda predileta, o Radiohead. A primeira é uma belíssima versão da magnânima “No Surprises” cantada por Marissa Nadler em um tributo ao Ok Computer. Baixei bastante coisa da artista e nada mais está nesse nível. Em todo caso, a versão é tão boa que quase atinge a original, não fosse essa irreparável. A delicada voz de Marissa e o bem tocado violão expressam bem a melancolia extrema da canção.

A segunda é uma brevíssima versão de Thom Yorke e Johnny Greenwood de “The Rip”, melhor canção do álbum “Third”, do Portishead, tocada sem o invólucro eletrônico da original. A delicadeza com que ambos conduzem a música faz jus à versão original, cantada na voz ímpar de Beth Gibbons. Recomendo aproveitarem.

RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.