CRIMINOLOGIA DE GARAGEM # 3 – SOBRE AS MARCHAS

Enquanto o blog hiberna pela saturação de compromissos profissionais, curtam oi Criminologia de Garagem # 3 – sobre as Marchas, comigo, Salo de Carvalho e Felipe Oliveira, trilha de Beirut, Rage Against the Machine e Yeah Yeah Yeahs.

LANÇAMENTOS DE 2011

ASOBI SEKSU, FLUORESCENCE – Depois do ótimo “Citrus” (2006), onde o Asobi Seksu cunhou ao lado de outras bandas o que se passou a chamar “nugaze”, combinando os vocais nipônicos de tom delicado com guitarras na mais intensa eletricidade, a banda volta com um disco ligeiramente mais suave, quiçá mais próximo do “dream pop” e outros gêneros psicodélicos de menor intensidade. Infelizmente, isso enfraquece a energia que regava seus álbuns e aquilo que os tornava mais interessantes em canções do álbum anterior como “Thursday” ou “Red Sea”.

BEADY EYE, “DIFFERENT GEAR STILL SPEEDING” – Sou fã de Oasis. Fã de carteirinha. Infelizmente, esse disco da banda sem seu compositor principal, Noel Gallagher, é uma imagem pálida, quase como um zumbi vagando como corpo sem alma. Todos os clichês do rock que o Oasis soube reinventar, retrabalhar, magistralmente executar aqui aparecem na sua forma mais monótona, enfadonha e previsível.

DESTROYER, “KAPPUT” – Esse disco tem para mim a mesma característica de todos os anteriores que ouvi do Destroyer: um som competente, folk honestíssimo e com bons momentos, mas incapaz de produzir uma sensação extra, algo que atraia para si atenção, ou seja, disco excessivamente dentro de parâmetros que não produzem amor. Apesar disso, há vários bons momentos, especialmente porque a banda muitas vezes acresce ao tradicional voz/violão diversos elementos até então ausentes, enriquecendo sua sonoridade. Melhor momento é a faixa-título, “Kapput”.

JOAN AS THE POLICE WOMAN, “NERVOUS” – O primeiro álbum de Joan as the Police Woman oscilava entre momentos em que a irrelevência era brutal, quase próxima do easy-listening, e outros de beleza ímpar, capazes de concentrar uma profundidade de sentimento apaixonante. É o caso de músicas como “To America” ou “Start of my heart”. Aqui, em “Nervous”, as coisas estão ainda melhores: a sonoridade está mais precisa e complexa, poucas vezes desaguando na irrelevância. Mantendo Feist como a principal influência, Joan as the Police Woman tem empolgantes momentos alegres e tristes, envolvendo o ouvinte com sua voz excelente. São destaques “The Magic”, “Nervous”, “Human Condition” e a minha preferida, “Chemmie” (com pequenos toques de Amy Winehouse), com tempo ainda para a experimental “Flash”.

MOGWAI, “HARDCORE WILL NEVER DIE” – Lindo disco dessa banda-camaleã desse estranho gênero chamado “pós-rock”. Após levar ao limite a experimentação em disco como Young Team, o Mogwai aparece aqui quase melódico, bem próximo de uma estrutura mais tradicional do rock. Permanece, contudo, a característica do pós-rock: primazia da harmonia sobre a melodia, regada a boa guitarras sobretudo. Destaque para a fantástica “San Pedro”, vizinha de porta do Sonic Youth.

PJ HARVEY, LET ENGLAND SHAKE – Ainda não tenho palavras para descrever a grandeza desse álbum. Trabalho conceitual que enfoca a Primeira Guerra Mundial, mostra como o rock pode transbordar dos seus pontos de referência e encontrar-se com o mais rico conceitual, sendo complexo, denso, profundo em letras, melodias, instrumental. Uma obra que consolida mais do que nunca a já consolidada PJ Harvey. De se ouvir todo de cabo a rabo, sem hesitação.

RADIOHEAD, “THE KING OF LIMBS” – Já falei bastante por aqui, mas apenas repito: trabalho difícil, intrincado, que lembra os momentos mais maquínicos do Radiohead, apostando sobretudo em novas formas de compartilhamento e na reconstrução das relações entre arte, economia, política e tecnologia no nosso mundo contemporâneo. Inegável que “Lotus Flower” e, por exemplo, “Give up the ghost” são belíssimas canções, ao lado de exotismos para degustadores seletivos como “Bloom” e “Little by Little”.

SHE WANTS REVENGE, “VALLEYHEART” – Desde o início o She Wants Revenge nada mais era que aproveita a onda de revival do pós-punk a partir do Interpol e a aplicava ao Bauhaus. No primeiro álbum, conseguiu acertar em dois singles, embora o conjunto da obra já fosse fraco. Aqui, seguindo a banda de Nova York (que o blogueiro muito aprecia) no seu último álbum, tropeçou de forma grotesca: concorrente a pior disco do ano.

THE DECEMBERISTS, “THE KING IS DEAD” – Banda queridinha da crítica, faz um folk para lá de competente que aqui tem momentos de extrema beleza, com vocais exóticos mas que alcançam uma serenidade impressionante, causando uma sensação de inegável bem-estar no ouvinte. Belos arranjos, melodias atraentes, um conjunto que merece ser ouvido, em especial nos seus dois melhores momentos: “January Hymn” e “Rise to me”.

BON IVER,”BON IVER” – Depois de uma ótima estréia (“For Emma”), a banda de Justin Vernon retorna com um álbum mais denso e complexo, que substitui o tom mais golpel do primeiro por um som mais recheado de elementos climáticos, fazendo ainda mais certeiro o conjunto da obra. Segue uma espécie de folk psicodélico de primeira linha. Certamente entre os melhores do ano, apesar do tropeço na última canção, “Beth/Rest”, quando lembram o horroroso Genesis.


EDDIE VEDDER,”UKELELE SONGS” – Você gostaria de saber como seria o Jack Johnson se não fosse apenas o cara que toca bem o violãozinho no fim da festa? Algo como – se tivesse alma? Ouça então esse álbum. É certo que não temos aqui o Eddie Vedder mais top, mais completo e mais criativo, mas se trata de um apanhado de canções com verniz praiano e espontaneidade na sua execução, sempre regadas pelo ótimo vocal de Eddie. Permaneça sentado e sinta a brisa.


DEATH CAB FOR CUTIE, “CODES AND KEYS” – Banda que se caracteriza por fazer um som aveludado e pop sem cair no clichê, consegue manter certo padrão de competência nesse álbum, ainda que não esteja tão inspirada quanto nos tempos de “Transatlanticism” e “Plans”. Em todo caso, trata-se de um álbum om bons momentos, especialmente a faixa-título.

 

 

FLEET FOXES, “HELPLESSNESS BLUES” – Outra banda que vem mantendo um padrão de excelência impressionante. Depois de ótimas estréias com o EP “Sun Giant” e o álbum “Ragged Wood”, a sonoridade inspirada em Crosby, Stills and Nash reverbera com a mesma qualidade aqui, fazendo folk de primeira classe. Impossível não se apaixonar pela faixa-título e pelo minimalismo que combina violões com os vocais de extrema harmonia que caracterizam o som campestre do Fleet Foxes.

THE Dø, “SLIPPERY SLOPE” – Em outro contexto poderia ter gostado mais desse álbum, um bom empilhado de músicas de dream pop que muitas vezes migram para um pop mais direto, outras para uma psicodelia mais intensa. Contudo, não sei se tenho espaço para outro Blonde Redhead.

THE RAVEONETTES, “RAVEN IN THE GRAVE” – Das bandas queridinhas da casa, na realidade não sei se já não está igualmente exaurida. Brilhante, realmente, na carreira dos Raveonettes é a sequência “Chain Gang of Love” (2003) e “Pretty in Black” (2005), quando conseguem capturar uma leitura renovado do Jesus and Mary Chain e a colagem dos 50’s e o glamour a la James Dean com eletrificação extrema. Aqui, depois do fraco “In and out of control” (2009), que exagerou no pop, o Raveonettes quer retomar a pegada forte da guitarra, mas parece sem a mesma inspiração melódica. Ficou devendo.

YOUNGTEAM, “DAYDREAMER” – Para terminar, uma obra e tanto. Primeiro álbum dessa banda da Suécia que retoma um shoegaze de alta classe e homenageia o Mogwai no disco mencionado linhas atrás,  convida-nos a dançar nas nuvens com guitarras que rasgam o horizonte para que entremos nas fendas a sonhar. Álbum excelente do início ao fim, com destaque para “Daydreamer” e sobretudo a belíssima “Northern Star”, quando lembram até o The Verve. Imperdível.

ROCK E REVOLUÇÕES ÁRABES

Lendo o ótimo dossiê da Revista Cult acerca dos países árabes e suas revoluções constatei em dois artigos a influência do rock (em especial do heavy metal) e do hip hop como elementos que impulsionaram a juventude dos países a lutar pela democracia e pela liberdade. Não muito diferente, aliás, do que foi o rock como força impulsionara dos movimentos do 1968 – heterogêneos entre si – mas que constituíram o último suspiro do político no século XX.

Com isso, creio que lamentáveis livros como o de Finkielkraut, no qual ataca o rock como decadência da cultura, vão parar no lugar onde deveriam estar: na prateleira dos velhos nostálgicos e rabugentos. O velho nostálgico é dono daquele cansativo mantra: “no meu tempo era melhor, agora está tudo decaído, perdido”; o velho rabugento é aquele que reclama de tudo indiscriminadamente, veiculando uma espécie de pessimismo difuso que não raro se encontra com o preconceito. Livros como o de Finkielkraut e toda turma que vê fenômenos contemporâneos como o rock e a tecnologia de ponta como sintomas de decadência terão que ser revistos imediatamente a partir das revoluções árabes, embaladas pelo rock e mediadas pelo twitter e pelo facebook.

É evidente que isso não significa, de outra mão, um otimismo tolo com relação a esses fenômenos. Como em tudo, a política está também presente tanto no rock quanto nas novas tecnologias. O rock é atravessado pela disputa entre o movimento de consagração (a separação que estetiza a política, retirando dela seu sentido vital) e o movimento de profanação (o novo uso que politiza a arte, transformando-a em forma-de-vida). De um lado, estão os defensores do cânone e os produtos da indústria do espetáculo (estes últimos provavelmente os alvos de Finkielkraut, que contudo banalizou demais as coisas até um ponto em que a indiferenciação se torna violenta e preconceituosa), que estetizam a dimensão vital do rock, transformando-o em artigo formulaico e repetitivo, ou simplesmente uma forma vazia que se vende ao lado das balas e dos chocolates. De outro, estão aqueles que buscam com o rock transtornar a ordem, invertendo o sagrado na dimensão do maldito profanado, isto é, de um maldito que não quer ser o oposto do sagrado, mas apenas desestabilizá-lo, tirá-lo da esfera separada, desfazer seu arranjo violento. Esse maldito profanado – que é a própria essência de algum heavy metal – por óbvio teve o efeito de desfazer a concentração das energias políticas do Oriente Médio na religião (que por sua vez permitiu a ascensão dos fundamentalismos) – permitindo à juventude reivindicar novos arranjos políticos. O hip hop, por outro lado, seguindo sua tradição, foi o próprio grito das vozes silenciadas, fazendo ecoar a alteridade que era sufocada pelas polícias diversas que organizavam esses países.

Espero que, diante das revoluções árabes, as críticas de certa esquerda rabugenta possam ser capazes de perceber as sutilezas desse processo, substituindo seus preconceitos de pura rabugice por uma parceira produtiva com todas as forças subversivas que possam contestar as forças que mantém a injustiça nas nossas sociedades.

DOIS COVERS PRA MATAR

O cover oscila da irrelevância até um ponto notório, às vezes superando o original inclusive. São muitos exemplos para brincarmos. Essas duas canções que coloco têm relação com minha banda predileta, o Radiohead. A primeira é uma belíssima versão da magnânima “No Surprises” cantada por Marissa Nadler em um tributo ao Ok Computer. Baixei bastante coisa da artista e nada mais está nesse nível. Em todo caso, a versão é tão boa que quase atinge a original, não fosse essa irreparável. A delicada voz de Marissa e o bem tocado violão expressam bem a melancolia extrema da canção.

A segunda é uma brevíssima versão de Thom Yorke e Johnny Greenwood de “The Rip”, melhor canção do álbum “Third”, do Portishead, tocada sem o invólucro eletrônico da original. A delicadeza com que ambos conduzem a música faz jus à versão original, cantada na voz ímpar de Beth Gibbons. Recomendo aproveitarem.

CRIMINOLOGIA DE GARAGEM # 0

O Felipe Moreira de Oliveira, Professor da PUCRS, Salo de Carvalho, Professor da UFRGS e eu, por ideia do Felipe, nos reunimos com a ideia esse “programa” Criminologia de Garagem. O Salo já escreveu bastante e eu repito apenas:

No ar: Criminologia de Garagem, “Programa Zero“.
Resolvemos disponibilizar ao público a versão “zero” ou “demo”) do programa, com intuito de receber críticas e sugestões.
Assim, algumas explicações.
A ideia inicial era fazer um podcast, um programa exclusivamente de áudio. Quando fomos gravar percebemos que o estúdio fornecia a possibilidade de gravar áudio e vídeo. Gravamos ambos e ampliamos o projeto.
Como vocês irão perceber, a imagem é fixa e constante, circunstância que torna o programa um tanto quanto monótono.
Decidimos alterar este formato e que os programas serão limitados em sua duração: cerca de 15 o 20 minutos. De igual forma, serão diminuídos os vídeos – pensamos em torno de 02 por programa. A trilha sonora, portanto, tenderá a ser a música de fundo que servirá de base à discussão. As músicas mais relevantes serão disponibilizadas em forma de clip.
Neste “demo” o tema-problema é “a crise do ensino jurídico”. Em realidade, discutimos a própria motivação do programa, isto é, realizamos um programa sobre o programa, uma espécie de exposição de motivos.
Bueno: divirtam-se, enviem seus comentários e “Long Live Rock ‘n’ Roll!

Também estou reproduzindo por aqui para críticas e sugestões. Nos primeiros dois blocos falo mais de música, do Radiohead. No último bloco, lá 39, 40min, falando sobre o ensino jurídico propriamente dito. Fiquem à vontade, mas me poupem do bullying! 😀

AS PEQUENAS REVOLUÇÕES DO RADIOHEAD

A obra do Radiohead é formada por aprofundamentos e reviravoltas intensas. Assim, The Bends (1995) leva Pablo Honey (1993) até o limite, Ok Computer (1997) leva The Bends até o limite, o mesmo acontecendo com Kid A (2000) em relação a Ok Computer e Amnesiac (2001) em relação a Kid A. De alguma forma, são álbuns que fazem o anterior tocar um ponto extremo de radicalidade que só matura com o tempo. The Bends aprofunda a rebeldia jovem de Pablo Honey;  Ok Computer densifica a crítica do vazio tratado em The Bends; Kid A leva ao extremo o lado maquínico ainda amalgamado em Ok Computer; Amnesiac, por fim, eleva esse maquinismo até o limite. Por outro lado, podemos igualmente enxergar esses conjuntos de álbuns como pequenas reviravoltas: dos roqueiros Pablo Honey e The Bends para os conceituais Ok Computer e Kid A/Amnesiac, seguidos de uma intervenção política em Hail to the Thief (2003). Eu, contudo, não havia percebido o real significado artístico de In Rainbows (2007), afora um belo conjunto maduro de canções. Só agora, com esse exótico The King of Limbs (2011), entendi finalmente.

Até agora, vinha interpretando a obra do Radiohead sobretudo a partir do respectivo conteúdo, isto é, do teor conceitual que todos os seus álbuns apresentam em menor ou maior medida. Finalmente percebi que os dois últimos discos estão com outro foco – voltados para a forma. Uma das principais questões do século XXI em que ingressamos é a dos direitos autorais e da circulação da cultura. Sabemos que a interpretação jurídico-liberal dessas questões está ligada sobretudo ao conceito de propriedade, do qual deriva inclusive a ideia de autoria (o “Eu” moderno, autor-gênio, é sobretudo um proprietário de si mesmo), traduzida como propriedade intelectual. A emergência da internet e seu evidente potencial subversivo a partir das redes piratas, do anonimato, da cultura da dádiva e dos novos arranjos políticos virtuais é, portanto, uma questão central para o nosso século.

Sabemos que o Radiohead foi uma das primeiras bandas a abdicar dos seus direitos autorais permitindo o download de In Rainbows pelo preço que o ouvinte quisesse pagar (talvez a que tenha realizado isso com o gesto mais significativo). Com isso, causou um abalroamento da indústria fonográfica – parte da “indústria cultural” – deslegitimando a preponderante posição conservadora dos artistas em relação aos seus direitos de propriedade intelectual. Por essa razão, a grande revolução de In Rainbows – apesar do absoluto brilhantismo das canções – não está no conteúdo, mas na forma. O Radiohead pôde “pousar na Terra” novamente, gravando um álbum mais acessível (embora complexo e já influente), porque era na forma de distribuição que o gesto político se movimentava.

Em “The King of Limbs” essa lógica é levada ao extremo. Com uma sonoridade muito menos acessível, mais quebradiça, estranha, próxima do desconforto inicial, o Radiohead duplicou o gesto de ruptura com a indústria cultural: além da distribuição continuar preponderamente com o mp3 via internet (o que inexoravelmente, e a banda sabe bem disso, provoca a pirataria), a forma do próprio álbum contaminou-se por essa lógica disruptiva. Assim, The King of Limbs não é propriamente nem um álbum nem um EP, mas algo entre eles (enquanto um EP costuma ter até 6 músicas, um álbum raramente tem menos de 10; King of Limbs tem 8); o primeiro single, “Lotus Flower”, não apenas foi lançado via youtube, fazendo uso da disseminação livre, como conta com uma performance paródica de Thom Yorke, em que é indecidível o sério e o cômico (tentem responder essa: Thom Yorke dança sozinho porque pensa que é um bom dançarino ou não?). Além disso, a própria separação entre som e imagem se esvaece, pois a performance tornou-se tão central para a própria canção que já é quase inviável a ouvir sem pensar em thom Yorke dançando. Com isso, a própria forma de definir um single é posta em questão (isso em um nível ainda superior ao que a MTV havia estabelecido).

 

The King of Limbs vai ainda mais longe nessa ruptura ao traçar suas canções de forma descontínua, inorgânica, voltando a um certo estilo próprio de Amnesiac: quebradiço, inconstante, maquinal. A simbiose homem/máquina que o Radiohead explora como ninguém não ganha agora outra forma política – não o afundamento melancólico na paranóia de Kid A ou a frieza industrial de Amnesiac – mas algo como uma miscigenação alegre, a tentativa de dançar com a máquina? Talvez esse estranho, exótico, quase incompreensível álbum esteja a sinalar algo desse gênero (deixo para comentá-lo em maiores detalhes em outra ocasião). O certo é que o Radiohead nesses últimos dois álbuns apresenta-se, definitivamente, como a primeira banda do século XXI.

RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.

DISCOTECA BÁSICA # 2 – OASIS, “(WHAT’S THE STORY) MORNING GLORY” (1995)

Poucos álbuns dizem tanto de uma geração quanto “(What’s the story) Morning Glory”. Tanto isso é verdade que uma pilha de leitores desse blog certamente tem muito mais a dizer sobre ele que eu, apesar da minha obsessão pelo rock e de o Oasis estar entre as minhas três bandas favoritas. Entretanto, é preciso contar algo sobre esse disco, e começarei pelo contexto.

A Grã-Bretanha passava por um momento relativamente conturbado. Já eram alguns anos de prevalência do rock norte-americano, a partir do grunge, sobre o rock britânico. As revistas pastelonas que até hoje continuam fazendo esse papel de bobo (NME e outras) tentavam emplacar bandas, mas pouco conseguiam: Stone Roses (apesar de tudo, uma lenda em solo britânico), Suede, Elastica, Supergrass. Apesar de não serem ignoradas, essas bandas não conseguiam alcançar o nível das principais da época: Nirvana e Pearl Jam. Em termos de mainstream, o rock britânico agonizava.

Foi então que apareceu – ao mesmo tempo em que começava o ocaso do grunge com o suicídio de Kurt Cobain – uma hecatombe chamada OASIS. Pegando emprestado o acervo melódico e a beleza dos arranjos vocais dos Beatles e atualizando-o com as influências de My Bloody Valentine, Stone Roses, Sex Pistols e toda parafernália do rock britânico do início dos anos 90, a banda cunha um estilo a opor ao grunge: o britpop. O arrojo punk combinado com baladas recuperadoras das raízes do rock inglês pode ser traduzido nos seus dois nomes: Liam e Noel Gallagher. Essa dupla explosiva de irmãos contrastava a atitude anti-hype de Kurt Cobain e Eddie Vedder com um sonoro sim, nós queremos ser rock stars, desde que isso signifique ser transgressor, beber e se divertir ilimitadamente, ser jovem para sempre. Todo o resto não importa. Primeira música do antológico primeiro álbum: “Rock ‘n’ Roll Star“.

Após verdadeiramente explodir em 1994 na Inglaterra, o Oasis vai conquistar o mundo. A polêmica com o Blur – o outro expoente do britpop – catapultou o Oasis para o sucesso. Apesar de ter perdido a disputa de singles com “Some might say” (onde a influência das bandas de início dos anos 90, com paredes de guitarras e violência sonora, ainda é muito nítida), o que se seguiu na comparação entre “(What’s the story) Morning Glory” e “The Great Escape” foi verdadeiro massacre. Tudo isso se potencializou com a atitude baderneira, caótica, desafiadora dos irmãos de Manchester (terra da principal agitação musical britânica no início dos anos 90).

E o disco? Musicalmente, é impecável. Abre com “Hello”, a mais shoegaze de todas, saudando os fãs, “é bom estar de volta”, com paredes de guitarras e atitude de quem estar abrindo o jogo no ataque. “Roll with it”, “Some might say”, “Hey Now” e “Morning Glory” compõem o bloco das pesadas e eletrificadas ao extremo canções de agitar qualquer platéia. A energia que penetra nos poros é indizível. É como tomar um martelinho de tequila: bate aquele calor na goela e dá vontade de pular. “Wonderwall”, “Don’t look back in anger”, “Cast no shadow”, “She’s electric” e “Champagne Supernova” compõem o outro bloco: as baladas devastadoras que, recuperando o legado dos Beatles, mostram um domínio da harmonia e da melodia ímpar. A voz rasgada de Liam, em particular, somada ao perfeito backing vocal de Noel, dá uma feição totalmente particular a essas belíssimas canções na maioria tocadas com violão pela banda.

O back to basics do Oasis (que não foi a mesma coisa do Strokes, alguns anos depois) é, essencialmente, um retorno às raízes do rock britânico para fazer uma sonoridade suja o suficiente para ser chamada de rock’n’roll. Abdicar das experimentações extremas para dar origem a algo simples, curto, reto, seco, direto, mas essencial: simplesmente rock. Esse som de, por exemplo, “Morning Glory”, merece ser chamado de POWER.

“(What’s the story) Morning Glory” não é apenas o signo de uma geração pós-grunge que encontrou no Oasis a banda definitiva. É a maturidade da conciliação entre as tendências mais díspares e ao mesmo tempo fundamentais do rock britânico: os melódicos Beatles, com seus arranjos perfeitos e harmonias vocais absolutas, e os barulhentos punks, com suas guitarras simples, estridentes, sua eletricidade pulsante. Álbum essencial para quem quer entender qualquer coisa sobre o rock.