Reorganizar as forças, contra-atacar o contra-ataque

2013 parecia apontar para a invenção de um novo Brasil. Depois de décadas de organização e um cruzamento intensivo das lutas com auxílio das redes virtuais, parecia que o Brasil finalmente poderia se reinventar em relação à sua imagem fraturada em duas partes, trocando a figura de país formado por uma desigualdade abissal por um composto de multiplicidades convivendo e confrontando o entulho da nossa história. Não se tratava de união, mas de composição. O lulismo havia tornado nossa sociedade um pouco menos injusta, movendo placas tectônicas e dinamizando setores que viviam estagnados na batalha cotidiana do dia-a-dia, lutando pela sobrevivência e sem possibilidade de olhar para um horizonte positivo. A nova geração, formada na crítica radical aos privilégios e às diversas formas de poder, confrontava as oligarquias corajosamente e enfrentava as polícias que tentavam contê-la.

Diversos obstáculos acabaram enfraquecendo essas lutas. O governismo, em vez de se propor escutar e tornar-se permeável aos movimentos sociais, preferiu encastelar-se nos projetos tecnoburocráticos da mandatária e sustentar-se na aliança com o baixo clero da política. A repressão política e policial foi brutal. As eleições de 2014 foram o ponto mais alto desse processo, quando as vozes dissonantes foram silenciadas pelas bandeiras do Vaticano Vermelho e a disputa que tornaria nosso país melhor acabou engolida pela velha polarização que comandara as eleições anteriores. A utilização de métodos virtuais sujos — como a boataria por meio de blogues alinhados e a proliferação de robôs operando como trolls – criou uma ferida que até hoje não cicatrizou. Os governistas vibraram ardentemente diante da vitória, mas logo perceberam que foi uma vitória de Pirro quando confrontados com um ministério ridículo e o chamado “ajuste fiscal”, desmentindo tudo que havia sido dito e afirmado como diferencial na campanha. A desmoralização total do PT provocou a reorganização da direita que, com a bagagem acumulada de 12 anos de desgaste, incluída a corrupção, e tendo aprendido estratégias com os movimentos de 2013, passou a ocupar as ruas, as redes sociais virtuais e a grande mídia.

Os movimentos, por outro lado, radicalizaram e desencadearam um processo de autofagia que envolvia uma luta contínua pela pureza e a expressão da “verdadeira militância”. O narcisismo das pequenas diferenças corroeu a composição, fechando em círculos cada vez mais restritos as redes longas que 2013, que eram culminância de um processo de longo fôlego forjado a partir da sinergia com movimentos internacionais e o fato de que a primeira batalha contra o conservadorismo das velhas elites havia sido vencida, passando-se a disputar qual seria a próxima fase. O projeto do Brasil Grande era recusado pelo Brasil menor, Brasil múltiplo, mas a hiperconectividade das redes sociais e o tipo de individuação sociotécnica que promovem acabou produzindo um desgaste em que a pessoalização gradualmente tomou o lugar da disputa política. As redes se esfacelaram e hoje briga-se por todos os lados. Cartas como essa – que recentemente circulou nas redes justamente em torno do MPL, principal articulador da primeira fase de 2013 – abundam pela Net, apontando divergências tratadas com agressividade, linchamentos, ironias, pesando o clima até o ponto em que o diálogo se torna impossível e os coletivos racham. A linguagem ácida, carrancuda e acusatória tomou conta do vocabulário e a alegria de estar junto perdeu espaço para a estrutura do “Tribunal do Facebook” que Tom Zé havia musicado alguns anos antes. O julgamento tomou o lugar da composição.

Diante de um governo fraco e envergonhado, as forças retrógradas avançaram. Sustentadas durante o lulismo pelo “pacto conservador” que excede o diagnóstico de André Singer, pois não se resume a uma estrutura econômica e nem mesmo “política” no sentido estrito, formas-de-vida fundamentalistas que se estendem do baixo clero parlamentar até setores desfavorecidos da sociedade identificados como propulsoras do próprio lulismo ganharam cada vez mais visibilidade. Ao que parece, o Brasil surfa com o resto do mundo não apenas nos enxames rebeldes, mas também na proliferação e capilarização do fundamentalismo religioso, nacionalista e contra a diferença em geral. Não se trata apenas do problema da falência da “inclusão pelo consumo”, mas da reversão de um pacto populista que foi engendrado e ruiu junto com a própria figura simbólica de Lula enquanto fiador de Dilma. Uma opção política que pede a conta dos efeitos colaterais. Os movimentos, que funcionavam no contrafluxo dessa tendência e envolviam um processo constituinte forjado nas universidades e nas ruas, enquanto isso devoravam-se em lutas vanguardistas, ignorando o foco de fascismo banal que crescia (e cresce) vertiginosamente a cada dia. Os nós mediadores das redes de longo alcance lutam entre si em torno de questões importantes, mas que poderiam ser tidas como um diferendo entre forças ocasionalmente aliadas diante de um adversário ultrapoderoso e com alta capacidade de disseminação.

Engendram-se tempos obscuros no futuro, com manobras parlamentares de um representante do pior da política nacional em torno de pautas polêmicas inicialmente seguradas pela Constituição em banho-maria e que por alguns instantes pareceram possíveis de caminhar numa direção transformadora, mas que hoje parecem em vias de ir na direção oposta, da demagogia, do cinismo, da violência. Redução da maioridade penal, estatuto da família, revogação do desarmamento, entre outras, são pautas que colidem com o “espírito” da Constituição, focado na dignidade humana e no respeito aos direitos, para polarizar a sociedade e torná-la ainda mais violenta. Enquanto isso, o “sistema-rede” ou “ecossistema” que gerou 2013 está cada vez mais fragmentado e despedaçado, corroído por lutas de vanguarda, quando o momento parece apontar para a necessidade de uma nova composição que mantenha o básico, apesar de novas alianças que vão se formando, como p.ex. no movimento promovido pelos garis do RJ ou pelos indígenas e ribeirinhos, entre outros. Infelizmente para todos, o momento político é de contra-ataque dos setores que foram atingidos pelas conquistas dos últimos anos, setores que não têm interesse em tornar a sociedade brasileira muito diferente do que ela é atualmente, pois lucram com isso, e não hesitarão em fazer as coisas ainda piores do que estão. O contra-ataque está aí, mas muitos ainda continuam pensando que os movimentos estão na ofensiva. Talvez seja o momento de reorganização para um contra-ataque ao contra-ataque, mas isso só ocorrerá se a retaguarda estiver forte. A construção dessa retaguarda não vai acontecer sem uma purgação do ressentimento e algum tempo para que cada um faço seu próprio luto. Por isso, quem quiser ajudar, na minha opinião, é bem vindo.

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