A reorganização da direita e a nova política

As manifestações do 15M brasileiro têm dado o que pensar. Se a discussão é muito pouco profícua entre os adeptos dos dois polos em luta, que geralmente reproduzem os clichês mencionados já no post anterior, ela tem mostrado igualmente que a situação política está alcançando tal nível de insatisfação que até mesmo os governistas mais refratários à autocrítica parecem estar finalmente dando o braço a torcer daquilo que negaram, sem interrupções, desde 2013: o Brasil mudou. O massivo compartilhamento do excelente texto de Eliane Brum sobre a situação geral é um exemplo disso. Eliane é muito compartilhada nas redes, mas esse último texto parece ter estourado o teto ontem. E perceba-se que, sem desmerecer em nenhum momento qualquer ponto da brilhante análise da jornalista, absolutamente nada ali é inédito: trata-se de uma síntese muito bem ponderada de tudo que uma larga rede de pessoas vem sustentando há muitos anos, bem antes de 2013 inclusive, no ativismo digital e nas ruas. O que parece ter mudado é que alguns dos últimos muros de resistência parecem estar caindo e a situação vai ficando cada vez mais escancarada.

Muitos intérpretes do momento têm sustentado uma tese semelhante à que defendi (como parte que sou da mesma rede) no post anterior: o afunilamento e a insistência de polarização agressiva por parte do PT e seus apoiadores, com a negativa de reconhecimento de outros campos viáveis de alternativas transformadoras (dos movimentos mais subversivos de Junho até uma saída institucional com Marina Silva), provocou o efeito de “profecia que cumpre a si mesma”, tornando o polo conservador dominante nas ruas diante da fragilização do Governo. Se era com a direita que o petismo queria brigar, ei-la nas ruas, exatamente como os blogueiros progressistas descreviam os mais diversos eventos que se acumularam desde 2013, incluídos aí os protestos contra a Copa, a greve dos garis e professores no Rio de Janeiro, entre muitos outros. A vertigem que provocavam tais “análises”, sempre concentradas em mostrar que os envolvidos seriam fantoches manipulados pela direita e com isso reforçando um sistema de consensos que se reforçava em escala cada vez maior e refletia em ações institucionais do poder público (como a perseguição policial e judicial até hoje em curso), hoje já pode ser considerada superada. Com a extenuação da capacidade de mobilização crescente dos novos movimentos sociais pela forte repressão, quem sai às ruas é a própria direita, agora sem ambiguidades e com o claro objetivo de derrubar o PT.

Que fique claro que, como sugeriu Eduardo Sterzi em um dos comentários recentes nas redes, se trata de uma luta entre fantasmas ou em torno de um “significante vazio”, já que o PT hoje em dia concretamente não representa mais aquilo que a direita afirma. Nesse sentido, se simbolicamente os protestos nos lembram o pior do pior (manifestações classistas, pedido de volta do regime autoritário, incapacidade de perceber a corrupção na modalidade sistêmica que excede o caráter dos indivíduos e de não fazer uma censura seletiva que atinja apenas inimigos políticos), é possível ler as manifestações materialmente como uma reorganização natural da direita diante da incompetência gerencial do governo e da perspectiva de retração econômica. O medo da classe média que atinge por tabela, e isso se faz ver nas ruas, as classes mais baixas é da falta de horizontes. O que na Europa se canalizou contra as políticas de austeridade aqui, devido à conjuntura diferente e ao fato de um partido de esquerda estar no governo, se apresentou como uma demanda do “cidadão comum” contra a corrupção – causa tida como explicativa do cenário econômico desfavorável vivido. Assim como o PT foi capaz de trazer a simpatia de uma grande parte da população refratária a pautas de esquerda devido ao sucesso econômico do lulismo, a mesma população “não-ideológica” agora pede a conta do insucesso atual. O salto alto dos petistas até o baque da eleição de 2014 se baseava nessa confiança subterrânea de que, acontecesse o que acontecesse, a economia seguraria o rojão da política e manteria a base fiel ao lulismo. Ao minar a credibilidade do pacto conservador com a maquiagem da situação econômica, Dilma perdeu a confiança e com isso rompeu a aliança silenciosa.

Do ponto de vista das pautas, muito pouco se pode esperar da organização do 15M. A pauta reflete as abordagens mais simplistas da política brasileira, o conservadorismo enraizado, as visões mais tacanhas dos problemas do Brasil que nunca responsabilizam a gigantesca injustiça histórica na nossa formação nacional pelos problemas atuais, mas apenas a falta de iniciativa individual dos mais pobres e a incompetência dos governantes, com destaque para os petistas. Curiosamente, os mesmos integrantes da elite e classe média que acusam de preguiçosos os pobres são os que se mostram refratários à leitura, à reflexão e ao estudo em geral, formando num específico habitus de classe que valoriza a ostentação do luxo consumista sobre a formação intelectual (ou em muitos casos até mesmo moral) sólida (salvo poucas exceções). Os grupos organizadores dos eventos, apesar de reivindicarem-se liberais, não apresentam a menor clareza do que isso significa, mostrando-se refratários a enfrentar temas que exigiriam compromisso com a liberdade individual (p.ex., política de drogas, aborto, respeito aos direitos humanos em geral) com coerência e sendo mais parecidos com o que Luiz Eduardo Soares chamou em um texto antigo de “liberal de costeleta”. Mas o recorte de classe, apesar de verdadeiro, não dá conta de todos os aspectos do fenômeno, pois, como Rodrigo Nunes escreveu depois dos eventos, a sombra afetiva de Junho está presente ali. A sensação de “empoderamento” e participação política está presente e tende a se repetir. O Junho que o Governo negou até onde pode, fazendo engolir as manifestações na repressão, voltou a aparecer.

Quando se falava de “nova política”, muitos deram gargalhadas e reafirmaram (de modo bastante cínico e bem pouco cético, diga-se) que a única política possível era a que está aí. Recolheram a fala de Beto Albuquerque para dizer que era impossível governar sem o PMDB. Mas o que se afirmava – independentemente da figura de Marina Silva – é que existe uma nova forma de fazer política e esse processo não só é inevitável, cruzando os dois hemisférios e se manifestando nos mais diversos países, como já começou. Esse processo envolve uma nova constituição da relação entre o presencial e o virtual, uma ampla integração entre as redes digitais e a política de rua, o surgimento de novos mediadores e a participação ativa dos agentes na construção do imaginário coletivo. Junho mostrou e o 15M confirmou que a organização não depende mais das instituições do século XX, mas atua com flashmobs, usando a lógica da ocupação como mecanismo de pressão sobre o sistema político institucionalizado. O Estado é visto como uma burocracia distanciada da realidade social pulsante que tenta incessantemente a capturar, mas cada vez mais se aprofunda o abismo entre ambos. O 15M mobilizou essas redes à direita, canalizando os afetos na direção moralista, integrando parcelas descontentes do eleitorado que perdeu a eleição. Independente disso, do ponto de vista formal essa mobilização marca a entrada definitiva da nova política no sistema fechado dos partidos políticos.

Muitos governistas reagiram contra as manifestações acusando-as de ingenuidade e cobrando propostas de reforma política. O casuísmo, no entanto, não é privilégio da direita: todos lembramos do “Fora FHC” e que o PT na oposição aproveitava politicamente os escândalos de corrupção para se cacifar politicamente. Por isso, a censura é tão casuísta como a crítica. A linguagem da direita é legítima do ponto de vista democrático, mesmo que saibamos os desequilíbrios na cobertura da grande mídia e que a própria direita vive envolvida em escândalos onde está no poder hoje mesmo. A corrupção também é uma pauta legítima e um mal epidêmico no Brasil. Ela perpetua velhas oligarquias, drena recursos que deveriam retornar para toda população e vitimiza justamente os mais pobres de forma mais intensa.

O que surpreende, no entanto, é a falta de imaginação da própria esquerda governista quanto à reforma política. A resposta unânime para todos os problemas do Brasil, quando esmiuçada, reafirma os partidos e reforça a estrutura atual, representando muito menos do que efetivamente já acontece em termos políticos no século XXI. Nada se comenta sobre o uso nas novas tecnologias, sobre novos arranjos coletivos, a possibilidade de organizações mais horizontais e descentralizadas, uma participação maior na construção cidadã, sem falar da resposta imediata à possibilidade real de catástrofe ecológica. O financiamento público de campanha aparece como grande panaceia que iria dar conta de uma quantidade de problemas que transborda a questão, envolvendo o problema da representação como um todo. Não seria a crise política também um resultado da timidez das propostas que são apresentadas como a linha de fuga da situação atual? Em vez de falar em reforma política e continuar a idolatria da burocracia estatal, por que não pensarmos com mais arrojo, em um pensamento político revolucionário? Deixar aflorar essa nova política pode ser dar a chance de reorganização do velho aparato mundialmente desgastado, em plena crise. E se o grande pacto de 1988, com seu fiador PMDB (quem foi mesmo o principal articulador da Constituinte?), não estivesse dando conta do surgimento dessas novas redes de articulação política que por ora, na falta de oxigenação das instituições, se expressa como destituinte de tudo e todos? Mesmo os setores mais radicais da esquerda só conseguem pensar em termos de poder constituinte – conceito que ainda está preso dentro da armadura jurídica -, em vez de falar de revolução. Se a palavra está marcada por grandes eventos sangrentos que procuram fundar uma comunidade política ex nihilo, não é possível dar um novo sentido para ela, mais gradual e menos teológico-salvacionista, mas forte o suficiente para penetrar nas mais íntimas nervuras do poder e liberar o potencial criativo que está reprimido nesse imaginário político neurótico que vivemos? Essa parece ser a única resposta à altura da gigantesca rearticulação da direita que vivenciaremos nos próximos meses.

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