Quantas peles sob/sobre as peles?

under-the-skinConfesso que fiquei surpreso com Sob a pele (Under the skin) (2013, Dir. Jonathan Glazer), película lançada esse ano que vi mais ou menos despretensiosamente, sem maiores expectativas que pudesse ser um filme que escapasse das bordas do lugar-comum. É um filme multifacetado e certamente são possíveis diversas interpretações (que deixo em aberto), mas vou me deter apenas no aspecto da pele.

O pensamento normalmente despreza a pele, usando justamente como imagem do equívoco a ideia do “superficial”, daquilo que está distante do “profundo”. A pele é a casca que esconde a estrutura oca, sem fundamento, desprezando aquilo que é o próprio lugar da verdade: a essência. Coube a Nietzsche, e depois tantos outros, fazer-nos repensar essa questão a partir do que Deleuze, mencionando no caso os estoicos, passou a chamar de “efeito de superfície”. A busca por um alicerce último, pelo fundamento definitivo, pela pedra fundamental, é substituída por um pensamento da leveza, da superfície, dos pés que dançam. Movemo-nos não mais no subsolo que, paradoxalmente, é aquilo que representa o Alto (como as formas ideais platônicas estão fora do tempo e do espaço), mas na superfície. No corpo, a pele é o que divide o interior e exterior, sempre mostrando – a partir da ferida, por exemplo – que o que separa ambos é uma membrana permeável que põe em questão a própria separação. Dentro-fora, fora-dentro, desconstrução da própria fronteira que não é mais limite, mas limiar.

No Ocidente, a ideia de “identidade” de certo modo carrega o sentido de “essência”. A partir da filosofia do sujeito, ela desloca para o foro interior, em um movimento de interiorização da transcendência, a estabilidade essencial. Por isso, em Descartes o “Eu” será o núcleo da certeza e a própria realidade da realidade será posta em questão (por exemplo, no célebre exemplo do Gênio Maligno que se repete em variações ad infinitum hoje em dia). O “Eu” é o ponto mais sólido que será, ao longo do século XX e em especial pela contribuição da psicanálise, permanentemente desconstruído. Mas será possível um pensamento da forma que não se baseie na estabilidade, que fuja do eidos platônico e do modelo matemático? É o que propõe a filósofa Catherine Malabou, que utiliza o conceito de plasticidade para questionar o modo filosófico tradicional de lidar com a forma. Movendo-se no espaço que ela própria designa pós-desconstrutivo, traça o movimento plástico da forma mostrando sua constante mutabilidade, sua capacidade de superar a própria dicotomia ativo/passivo (a plasticidade é tanto dar quanto receber forma) e inclusive de explodir, fazendo referência à palavra francesa plasticage que significa o caráter explosivo de alguns materiais. Malabou utiliza a plasticidade para construir uma visão dinâmica e transformacional da forma, sem cair no caótico (informe) e (o que seria o contrário) na presença (imutável).

O que isso tem a ver com o filme? Basicamente, que o que está em jogo não é a essência da personagem sem nome interpretada por Scarlett Johansson, mas exatamente sua pele, isto é, como ela constrói, em novas superfícies, novas identidades. Em outros termos, ao vestir a pele humana, a ET gradualmente passa por uma metamorfose que o filme belamente vai construindo em imagens, sem recorrer a algum fundo emocional que relembrasse o espírito romântico, mas ao contrário: no toque, na experiência da sensibilidade que torna a máscara (a pele) seu próprio fundo. Trata-se, no caso, do devir-humano da personagem, um devir que não revela um “fundo escondido” que precisa ser encontrado como “essência última” da personagem, mas justamente como a pele a transforma em outra, como provoca uma metamorfose que a torna um novo Eu em uma passagem que não deixa restos, como pensa Malabou em seu trabalho Ontologia do Acidente.

(SPOILER:)

Quanto se vê a última cena em que a personagem vê sua pele arrancada e aparece como um ser extraterrestre integralmente negro, percebe-se o que Giorgio Agamben quer dizer com “vida nua”. Na verdade, há duas interpretações entre as quais o próprio Agamben oscila: a primeira, mais fraca e inspirada em Heidegger, é a “redução da vida humana a uma vida biológica” ou, pior ainda, a uma “vida animal”. Deixemos essa leitura, no entanto, de lado, e fiquemos com a mais potente, inspirada em Homo Sacer: a “vida nua” é a vida que foi separada da sua forma. Se o que está em jogo não são mais as profundezas, não é mais essência, separar a vida da sua forma é nada menos que arrancar sua superfície, arrancar sua pele, e impedir, com isso, que ela possa se relacionar com o mundo. Faz-se com que ela, com isso, esteja totalmente exposta, vulnerável, completamente reduzida à sua forma mais frágil que pode se dilacerar apenas no contato com o real. A pele, nesse caso, é também aquilo que permite a mediação, a relação da vida com as imagens.

O paradoxo que surge para o pensamento tradicional da identidade, portanto, é que a essência da personagem é sua forma menos real, isto é, aquilo que retira sua plasticidade. Certa vez Malabou afirmou que “a moda precede o ser”: a partir da metamorfose que passa em seu devir-humana, a personagem não é mais sua essência alienígena. De certa forma, Sob a pele nos faz sentir como a roupa pode ser essência e a nudez, destruição.

PS: Para quem quiser conhecer a obra de Malabou, a Editora Cultura & Barbárie traduziu a obra Ontologia do Acidente: ensaio sobre a plasticidade destrutiva, que pode ser adquirida nesse link.

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