Nada

O que esperar dos nossos “representantes” eleitos nesse ano? Nada. A resposta é desoladora, mas não parece haver outra. A melancolia e o desânimo já se expressavam nas manifestações de votos que, estivessem do lado que estivessem, eram sempre no menos pior, contra o outro, “crítico” ou de “veto”. Imensas declarações críticas eram seguidas de um final desiludido, “realista”, pragmático. Os afetos que se seguiram às eleições foram os mesmos: eu mesmo, relendo minha entrevista pós-eleitoral ao IHU, acredito ter sido uma das coisas mais tristes que já escrevi, simplesmente porque totalmente sem vida, sem indignação, em estado zumbi. Não tinha nada a dizer. Nunca acreditei que seriam possíveis transformações no Governo Dilma e Aécio era ainda pior. O ruim e o péssimo: restou um não, simplesmente. Marina foi sombra de si mesma e talvez, depois de tanto luto e melancolia, cabe talvez comemorar termos nos privado de ver todo campo aecista a apoiando durante o segundo turno, especialmente os que a viam como uma força alternativa que poderia renovar a política no Brasil. Elegeu-se o velho PMDB e o peemedebismo, mais forte que nunca, a direita raivosa e segue no poder, indicando que irá fazer um governo ainda pior, a tecnocracia petista. Os primeiros gestos de Dilma apontaram para o mercado, para Kátia Abreu, mais Cardozo e até Kassab. Não tem “terceiro turno”, como disse Guilherme Boulos, salvo para anular mais uma vez o voto. Os tempos são de oposição.

Dei uma quarentena de alguns dias para ver as movimentações do que poderia ser esse próximo governo. Peguei leve, na medida do meu possível, na entrevista, deixando o espaço aberto para ver o que virá por aí. Mas as notícias são ruins – ou melhor, no geral, as mesmas. Depois da overdose de esperança das minhas timelines durante as eleições, praticando pintando o PT pré-2002 assumindo o Planalto, deixei um pouco o carro andar para ver o que acontecia. Nada. É cedo ainda, mas aguardar gestos que interrompam a militarização da segurança, o genocídio indígena, a destruição da Amazônia ou as alianças espúrias, por exemplo, parecem cada vez mais coisa de Poliana. Ou coisa de governista, simplesmente. Pessoal cuja imaginação bate no teto quando se trata de defender a qualquer custo de toda e qualquer crítica, mesmo quando a própria crítica que esses setores dirigem aos seus adversários volta por ricochete. Hipocrisia é serventia da casa.

O que esperar disso tudo? O que esperar de representantes envolvidos em uma plutocracia recheada de reacionarismo rasteiro e de um sistema blindado contra renovação como os carros dos ricos paulistas? O que esperar de um governo que não ouve ninguém, que se mantém na sua mentalidade dura e tecnocrática, sem que nada possa abalar? O que esperar quando as massas de apoio que gastaram todas suas energias fazendo campanha simplesmente silenciam depois da vitória nas urnas? O que esperar das equipes de batedores que fabricam monstros – como artistas decadentes e jornalistas asquerosos – para tentar se salvar pelo contraste com o pior? Até admito que levei um pouco a sério esses aglomerados fascistas que surgiram logo depois das eleições, mas hoje está claro que não têm qualquer relevância como força viável. Ainda bem. Servem mais para legitimar aqueles que se blindam contra críticas a partir de acusações e estratégias diversas de demonização. O que esperar disso? Nada. Do sistema político não virá nada de novo. Analiso as movimentações como se faz em jogo de futebol, pelo gosto por sistemas táticos e estratégias de jogo. Mas desse jogo todos os resultados serão simplesmente péssimos. Nossa única chance é quebrar o tabuleiro.

“Não nos representam”, como disseram por aqui e outros lugares nas ruas do mundo todo. Esperemos que o Brasil possa ferver novamente. Não são as manifestações de 2013 que têm que ser julgadas pelos resultados nas eleições, mas as eleições que tem ser julgadas se estiveram à altura do que aconteceu. Não estiveram. Porque na rua algo aconteceu, enquanto nas urnas tudo permaneceu igual. Que o Brasil ferva de energia política novamente, ou simplesmente vamos continuar nossa fervura climática sem água, em meio à fumaça poluída, na baixa intensidade da nossa vida colonizada pela monotonia e entregue à aceleração sem sentido.

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