O cenário pós-eleitoral

Evitei escrever sobre o cenário eleitoral no fim do segundo turno porque as coisas estavam tão turbulentas que qualquer coisa que dizia já me causava a perda de dois ou três amigos. Quando o teor constativo da fala se confunde tão fortemente com o performativo, quando o observar fica tão perto do desejar, fica difícil que se entenda que nem sempre o que a gente escreve é o que quer que aconteça. Vou deixar agora a análise da campanha em aberto e lançar alguns palpites sobre o cenário pós-eleitoral, especialmente em relação à reorganização dos partidos.

Dilma venceu a eleição, mas sai em uma situação instável. Por um lado, afirmou-se como uma liderança com personalidade getulista-populista no PT, criando seu próprio espaço em relação à posição de representante de Lula. Por outro, a votação apertada cacifa o partido a reagir quanto ao centralismo da Presidenta e sua visão em relação a vários tópicos, que é bastante destoante de boa parte dos militantes do PT. Além disso, terá que administrar a figura de Lula caso ele comece a promover gestos em direção a 2018. E o próprio PT deverá passar por um período turbulento nos próximos anos, inclusive não descartando que certas lideranças que estão radicalizando o discurso, como Olívio Dutra, Tarso Genro e Eduardo Suplicy, abandonem o partido. Voltarei a esse ponto no final.

Sobre o governo em si, há visões otimistas e pessimistas: para os otimistas, Dilma deve repetir Lula fazendo um segundo mandato melhor, a crise internacional deve arrefecer, as obras tornar-se-ão mais visíveis e as eleições teriam aberto um espaço maior à esquerda. Para os pessimistas, o enfraquecimento da economia e a eleição de um grande número de reacionários deve colocar o Governo ainda mais à direita e torná-lo ainda mais impermeável, fazendo do segundo mandato mais uma gestão da crise política que um momento positivo. Dilma não teria mandado sinais inequívocos de mudança em nenhum dos aspectos negativos do seu governo: quando falou de indígenas, não citou demarcações, tirou o meio ambiente totalmente da pauta e usou o escandaloso caso da Maré, onde civis estão sendo presos por crimes militares e vigora um assumido estado de exceção, como exemplo de política de segurança. Pessoalmente, estou mais próximo da leitura do segundo grupo, mas é o momento de ver como as coisas devem se movimentar nos próximos dias.

O peemedebismo se fortaleceu com a eleição. Os novos partidos – PROS e PSD – conseguiram eleger governadores, apesar da artificialidade da sua base. O PMDB lavou as mãos para quem seria eleito: fosse quem fosse, continuaria firme e forte no governo. Para dar um exemplo, o Governador Sartori, do PMDB gaúcho, apoiou Aécio enquanto Michel Temer era o vice da chapa de Dilma. O PSB também saiu por cima: conseguiu colocar governadores e foi competitivo onde perdeu, mostrou-se aberto a alianças por todos os lados, afastou a ameaça de ser sombra de Marina e da Rede e tornou-se a segunda força peemedebista, abaixo apenas do próprio PMDB, no Brasil. As fraturas causadas por Roberto Amaral e Luiza Erundina na realidade apenas fortalecem o partido, já que sabemos que o peemedebismo como prática prefere a fragmentação à unidade. O PV também fortaleceu-se nesse espectro com a figura simpática e ousada de Eduardo Jorge, afirmando o status paradoxal da sua política arrojada na plataforma e fisiológica nas práticas de modo tranquilo e explícito. Sobre o avanço dos reacionários, o Diego Viana já escreveu muito bem e tenho pouco a acrescentar. Talvez em outra oportunidade. Por ora, porém, fica a observação de que não creio impossível que Bolsonaro funde novo partido para alinhar as bases ultraconservadoras e firmar uma força política como o Front Nacional na França, ficando como espécie de Le Pen brasileiro. Como o PP é partido peemedebista e Bolsonaro recebeu parte da sua votação exatamente pela imagem de “integridade” que caracteriza os fascistas, essa ameaça é real e existe.

O PSDB sai muito mais forte das eleições. Depois de minguar até quase 15% do eleitorado, foi ressuscitado pela estratégia tudo-pelo-poder do PT no primeiro turno. Sem atacar Aécio e reservando todo fogo contra Marina, o PT deixou o corredor aberto para que Aécio crescesse e quase perdeu a eleição. A estratégia, no entanto, foi calculada e contava com os votos da esquerda que, ao fim da eleição, acabariam por apoiar apesar de tudo. Uma parte da esquerda, a chamada “democrática”, recusou a estratégia e partiu para o contra-ataque apoiando Aécio, mas convenha-se que é um exercício forçado visualizar na candidatura dele qualquer chance de diálogo comprometido com a esquerda. Foi um erro político. PT e PSDB fortalecem-se reciprocamente fazendo de São Paulo e Minas Gerais os polos que emanam a disputa política nacional, com o sacrifício mortal, por exemplo, do Rio de Janeiro, que sempre paga o pato pela mediocridade do PT e tem que aguentar um segundo turno como o que teve, com Ninguém (nulos, brancos e abstenções) vencendo os dois candidatos em disputa. Diga-se, no entanto, que o PSDB mostrou que, apesar de Alckmin e certas ações dos seus governos, é um partido de centro-direita. Não é, como os petistas desenham, um partido de ultradireita, hiper-reacionário, a condensação do mal na Terra. Essa leitura serve para Feliciano, Fidelix, Bolsonaro e toda essa turma. Mas tampouco é de centro-esquerda, como alguns dos seus adeptos gostam de dizer. É algo próximo de um partido liberal no Brasil, privilegiando a austeridade fiscal e adotando políticas sociais mais conservadoras, mas sem cair no fascismo de recusar direitos humanos ou mesmo políticas compensatórias. O anti-petismo é muito mais conservador que o PSDB.

O PSOL sai como vencedor dessas eleições. Luciana Genro teve bom desempenho no primeiro turno e Freixo e Jean Willys mostraram-se essenciais para angariar apoio para Dilma. Se ela não voltar para a torre de marfim do poder, vai ter que reconhecer isso. Os três por cento que desequilibraram a balança em grande medida foram conquistados com a credibilidade desses apoios que apareciam até mais como veto a Aécio que como concordância com Dilma. Para as próximas eleições (municipais), o PSOL chegará competitivo em duas grandes cidades: Rio de Janeiro (Freixo) e Porto Alegre (Luciana Genro). Talvez o apoio de Freixo possa até ter sido pensado nesses termos, contando com o apoio futuro da Presidenta e do PT nas eleições municipais. É verdade que afirmei que o PSOL podia ter crescido ainda mais, e continuo achando. O partido é composto por alas internas que se sentem à vontade apenas “afirmando espaço” e pensam mais como sombras do PT radical que como força política própria, e isso tudo será objeto de debate no próximo ano. Considerando sua vinculação orgânica com o socialismo e o marxismo, o PSOL não atrai toda turma do Ninguém e ainda há espaço para que os movimentos das ruas e outros grupos políticos possam criar um novo partido, quem sabe inspirado nas experiências do Podemos, Syrisa e outros.

A maior derrotada dessas eleições, para meu desgosto pessoal, é Marina Silva. Tendo entrado como a grande esperança de mudança com chances de se eleger, tomou decisões erradas e acabou tendo a Rede rachada antes mesmo do seu surgimento. Boa parte dos “sonháticos” que acompanhavam seu projeto não engoliram a adesão à candidatura Aécio Neves, que agora se mostra mais que nunca errada, e já pularam do barco. O perfil atual da Rede é incerto e ninguém mais sabe se é um partido de centro-esquerda ou de centro-direita. A proximidade com o mercado e a aliança com PSDB apontam para o centro-direita; a trajetória pessoal de Marina até então e a bandeira da sustentabilidade, para o centro-esquerda. De qualquer forma, dificilmente Marina e a Rede conseguirão reacender a chama da “nova política” depois da série de decisões equivocadas e alinhamentos desnecessários. Uma parte da Rede já não se sente mais contemplada por essas práticas políticas e outra se tornou tão antipetista que já está subscrevendo a aliança com a direita. É cedo para dizer qualquer coisa, mas o momento para a Rede é de uma profunda reflexão.

O outro derrotado nas eleições é o próprio PT, especialmente o projeto dilmista. Sim, venceu, e isso é sempre melhor que perder. Mas sabe que terá que encarar uma base hostil e que boa parte dos votos que foram decisivos – os de Ninguém – foram simples vetos a Aécio. A quantidade de manifestações que eram compartilhadas por militantes de figuras importantes que diziam votar em Dilma apesar de tudo mostra o esgotamento do projeto. Em determinado momento, nem mesmo a polarização com o PSDB foi suficiente para despertar o apoio. Somente com o risco real de o PSDB voltar ao poder que foi possível mobilizar o “voto crítico” a seu favor. De qualquer forma, mais quatro anos de governo nos mesmos termos do anterior tendem a tornar esse eleitorado – que se mostrou fiel da balança – ainda mais hostil. A reação do Governo Federal aos novos movimentos sociais nos próximos quatro anos vai ser um termômetro disso tudo. Veremos.

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