O múltiplo é pleno de antagonismos

A redução do campo eleitoral à polaridade tradicional no segundo turno tem provocado o ressurgimento de críticas àqueles que tentaram e ainda tentam destravar a política brasileira do eterno retorno do mesmo. As críticas reproduzem mais ou menos o seguinte esquema: a ideia de que estaríamos diante de uma “complexidade” que ultrapassa esses dois polos é, no fim das contas, uma diluição do antagonismo, utilizando a retórica de uma “união maior” para neutralizar aquilo que é efetivamente conflitivo e não pode ser absorvido por nenhuma lógica superior. É claro que esse argumento tem uma importância gigante, já que efetivamente acontece – especialmente naquele campo já meio falecido que se autodenominava “pós-moderno” – uma espécie de ressurgimento de uma visão consensualista que reduziria o conflito social a uma mera convivência tolerante entre diferenças, sem admitir que as relações entre essas diferenças possam expressar injustiça. É uma espécie de vingança do velho marxismo dilacerado pelas filosofias da diferença as quais, rompendo com a dialética, teriam neutralizado as polaridades de classe e fragmentado as lutas, perdendo o “foco principal” que é o conflito burguesia-proletariado. A mesma diluição teria ocorrido com a ideia de “terceira via” superando a polaridade entre direita e esquerda.

Apesar desse argumento ser importante, ele não é exato. É verdade que muitas narrativas apelam a uma falsa unidade (que pode ser até uma expressão fascista ou no mínimo conivente com a dominação), mas a ênfase ao antagonismo não pode prescindir da contribuição que as filosofias da diferença legaram inclusive ao marxismo. Dito de outra forma, o (eterno) retorno a Marx que deseja essa esquerda não pode se dar sem que tenha passado pelo luto (tese desenvolvida à exaustão e de modo próprio por Jacques Derrida em Espectros de Marx quando o marxismo sofria seu pior momento e, apesar disso, a afirmação serena e decidida do filósofo não veio sem uma série de críticas ao dogmatismo e aos potenciais equívocos dessa obra). Aliás, melhor ainda: é importante que essa passagem não se dê sem que se tenha efetivamente compreendido o que pensadores como Deleuze, Foucault, Derrida e Lyotard, para ficar nos mais clássicos, propuseram sem que isso seja confundido com a apropriação “pós-moderna”, sobretudo em solo norte-americano, da French Theory.

O papel eminente que Nietzsche desempenha nesse cenário é o que nos permite visualizar o quanto essa leitura da “diluição” é enganosa. O que aparece constantemente na recepção do pensamento do filósofo alemão em contexto francês é exatamente o destaque para a força na construção do real. Isso significa, contra qualquer tentativa de diluição, que eles reconhecem ser o universo analisado nas suas obras (variando conforme o autor) não apenas composto por discurso e consenso, mas exatamente como um campo de batalha em permanente disputa por diversas forças. Para alguns deles, essa é uma afirmação de nível ontológico, inclusive, para além das disputas hermenêuticas e das construções discursivas. Citando o exemplo daquele que conheço um pouco melhor entre os quatro, Jacques Derrida, quando este falava em desconstrução como dissolução dos binarismos o processo era precedido por uma inversão momentânea dos polos, para evitar exatamente a pura e simples diluição que manteria o jogo intacto (pois convém ao polo dominante). Interpretações que salientaram o aspecto da mestiçagem, como a de Homi Bhabha, correm o risco de diluir a polarização e trabalhar para o poder, mas disso Derrida não pode ser acusado.

O que estava em jogo, no entanto, era derrubar a hegemonia da dialética e sua insuportável cumplicidade com o Um. Fazendo a diferença acidente da identidade, o múltiplo acidente do Um, a variação uma espécie de negativo, os dialéticos reproduziam uma lógica que esses filósofos desejavam fraturar. A afirmação do múltiplo que brota do turbilhão diferencial, considerando a identidade apenas como um caso da diferença e abdicando de qualquer esqueleto pré-engendrado que divida o real em disputas binárias, esses filósofos não estavam ignorando os antagonismos nem eliminando as disputas de forças, mas as multiplicando. A redução do múltiplo ao binário é tão violenta quanto a redução ao Um. A dialética nos mostra um pensamento dinâmico e relacional, algo do que o pensamento do múltiplo não abdica. Mas, ao reduzir a diferença ao papel de contradição ou de negativo, impede variações das variações e elimina a disseminação da qual ela própria, enquanto economia em forma de dois polos, precisou para nascer. Ao fazer isso, sufoca a multiplicidade e dilui outros modos de conflitos (quando se pretendia a própria matriz de todos eles). Entender a realidade desse modo é certamente mais complexo do que de modo binário, mas isso não significa, em hipótese alguma, que os antagonismos desapareçam.

Na política, não é diferente. Hoje temos mais que apenas um campo de esquerda e os antagonismos estão multiplicados. Sem abdicar da diferença entre direita e esquerda, é preciso entender não se trata mais de dois polos, mas multiplicidades que podem eventualmente e estrategicamente trabalhar em aliança, ainda que sem não coincidir com o movimento binário e com radicais rupturas entre si. O múltiplo multiplica também os antagonismos, e nenhuma domesticação dialética pode dar conta desse processo com suas simplificações binárias sem ser ela própria reprodução daquilo que acusava.

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