Os quatro erros de Marina

Venho apoiando Marina Silva nas suas decisões políticas desde meados de 2008, quando o Governo Lula, com a descoberta do Pré-Sal, começa a afundar o viés ambiental e retroceder em direção ao estímulo dos combustíveis fósseis e a produção de mais energia com obras gigantescas como a usina de Belo Monte. Naquela época, ainda em um blog antigo, me posicionei várias vezes contra o destaque que vinham ganhando Dilma Rousseff e Roberto Mangabeira Unger como idealizadores do “progresso” nacional, sobretudo porque o projeto cheio de potenciais que Lula significava – com todo pluralismo que caracteriza o Brasil — vinha sendo gradualmente substituído por uma visão nacional-desenvolvimentista mais estrita, dogmática e completamente alheia aos problemas sócio-ambientais do século XXI. Nos dois últimos anos do segundo mandato de Lula, foi a Ministra Marina Silva, liderança ambiental e militante dos direitos humanos pelo PT, a mais sacrificada. Marina não resistiu aos rumos do governo (quem acompanhou a mídia na época lembra das notícias do constante embate com Dilma) e acabou desistindo do projeto quando Lula sinalizou que Dilma seria sua sucessora, apontando para o nacional-desenvolvimentismo sem preocupação ecológica como continuação do seu governo plural e conciliador das diversas forças políticas.

A opção seguinte pelo PV foi lógica, já que é o partido que carrega a luta ecológica no nome. Mas sabemos que o PV também é um partido com práticas políticas discutíveis, que se alia em demasia com setores conservadores e não raro adere à fisiologia mais rasteira do peemedebismo. Dizia-se à época que Marina tinha se filiado ao PV com o compromisso que, depois das eleições, o partido passasse por uma revisão dos seus fundamentos e da sua visão programática. Com 20 milhões de votos, Marina achou que poderia bancar essa mudança, mas foi barrada por velhos caciques que resistiram à proposta e preferiram manter o perfil. Mais uma vez inconformada e já uma liderança de peso nacional, Marina resolve fundar um novo partido – a REDE – que seria uma tentativa de instaurar o que ela passa a chamar a “nova política”, ideia de retorno da discussão em torno dos programas (em vez do fisiologismo) e de uma política mais horizontal, próxima da sociedade com o uso da tecnologia e dos movimentos sociais. Ela faz uma grande “turnê” pelo país e reage meio blasé diante das perguntas midiáticas sobre as eleições de 2014, afirmando que não tinha pressa porque pretendia fundar um partido com consistência programática, mesmo que a custo das eleições.

Em 2013, estouram as manifestações e Marina se fortalece muito, chegando quase aos 30% das intenções de voto. Ela representa uma liderança convicta, fora dos esquadros do peemedebismo, voltada para as questões ambientais (portanto, urbanísticas, pontos que eram discutidos nas manifestações) e disposta a fazer a reforma política. Marina resolve se colocar no pleito e envia 900.000 assinaturas para fundação da Rede, mas, segundo relato dela própria, vê o registro negado devido à inexplicável conduta de cartórios, em especial do interior de São Paulo, que evitam reconhecer as assinaturas. Enquanto isso vê dois partidos peemedebistas serem fundados sem qualquer base política. Marina, que dizia não ter “plano B” em relação à fundação da REDE, começa um processo de indignação cumulativa contra o sistema político que está aí – leia-se, o PT – que vai desembocar em uma série de decisões que considero terem a enfraquecido muito politicamente (não vou dizer “enterrado” porque isso é muita grosseria e toleramos “voltas” de políticos muito piores). Ia falar de três erros quando pensei no post, mas então me dei conta que esses três erros são estratégicos, enquanto o quarto é um erro de fundamento.

O primeiro erro foi ter apoiado Eduardo Campos, do PSB. Diante da negativa do registro da REDE, Marina usa o recurso de pedir “hospedagem” em outro partido, fazendo um acordo de independência material e aliança formal. Ela considerava a REDE um partido perseguido politicamente e que por isso precisaria de amparo em outro. A explicação para o apoio a Eduardo Campos era: um político jovem, de perfil empreendedor, vinculado a Miguel Arraes e de um partido tradicionalmente de esquerda. Parecia a melhor opção, mas boa parte dos seus apoiadores já não entendeu essa primeira medida. Os intelectuais que viam em Marina Silva a chance de algo totalmente novo, uma ruptura com o status quo da política e a real construção de uma alternativa confiável, deixaram-na em banho-maria a partir de então. Não romperam totalmente o apoio, mas perderam a empolgação. Marina passou a se confundir com o sistema político, já que abriu mão da interlocução direta com a sociedade para apoiar um candidato que, apesar da sua leitura em torno da juventude e da renovação, não significava a mudança qualitativa da política. Muita gente que fez falta durante as eleições para atacar o linchamento virtual promovido pelos petistas, sobretudo em termos de produção de textos pela blogosfera governista e manifestações de alguns intelectuais que já perderam totalmente sua independência, deixou de apoiar Marina desde a decisão de entrar no PSB. Eles prefeririam que Marina tivesse aberto mão da candidatura e se firmado como uma figura diferente no cenário político, voltando, quem sabe, em 2018 se fosse o caso. A campanha perdeu parceiros de muito peso que espantariam as inúmeras alegações de que Marina era linha auxiliar do PSDB, fundamentalista e todo resto de coisas que circularam durante esse período. Claro que Marina teve muitos apoiadores de peso mesmo assim, mas já esse primeiro desfalque pesou.

Mas o candidato era Eduardo, não Marina. Então a rigor temos que pensar que a candidatura foi construída para ele, não para ela. Marina foi candidata por acidente, sem planejamento, sem apoio sequer do próprio PSB na integralidade, sem a preparação da aliança e sem ter tempo de conquistar apoios estratégicos. Quando entrou na campanha, já estava sob fogo cerrado da estratégia mais baixa que já testemunhei até hoje. Para dar um exemplo: antes mesmo de ser declarada candidata, a blogosfera governista já ironizava uma foto no funeral de Eduardo Campos na qual Marina estaria sorrindo. O nível da campanha não subiu muito em relação a isso. Esse comportamento atroz, asqueroso, canalha, permaneceu durante toda campanha. E Marina não estava preparada para enfrentá-lo. Mas aí surge o segundo erro estratégico: ao lançar o programa de governo, que ela própria outorgou total centralidade, Marina não tinha suficientemente claros alguns pontos e não fez uma revisão final. A independência do Banco Central, questão que a martelou até o debate final com Dilma, era uma pauta de Eduardo que ela inicialmente não simpatizou, mas tampouco retirou do programa. Poderia ter revisado esse ponto (no final da campanha, ela já usava a expressão “autonomia”, claramente sua preferida), mas estava amarrada não só pelo compromisso político com Eduardo, como também com o luto. Preferiu seguir com a pauta, respaldada também por economistas liberais que a acompanham e consideram que o Brasil passa por uma grave crise de confiança pelo mercado financeiro e precisaria enviar um sinal inequívoco no sentido inverso. Mas esse não foi o ponto principal.

O erro central foi não ter feito uma revisão a contento do programa e com isso ter permitido passar uma pauta maravilhosa, mas além do que ela própria banca, em termos do direitos LGBT. Naquela época, a suspeição de que Marina Silva seria fundamentalista era grande (aos poucos foi arrefecendo durante as eleições, quanto mais ela se tornava conhecida) e esse foi o primeiro ponto a que qualquer pessoa se dirigiu quando abriu o programa. O capítulo continha todas as reivindicações do movimento e era surpreendente porque avançava para muito além de tudo que a candidata assumira até então. Existem milhares de vídeos no Youtube em que Marina Silva deixa clara sua posição: é a favor de todos os direitos civis para a população LGBT (adoção, união civil, luta contra homofobia etc.), mas considera o casamento um sacramento religioso e por isso é contrária à extensão. É uma posição totalmente errada, mas sempre foi essa. Quando sai o programa, diversas pessoas têm que dar o braço a torcer e ao mesmo tempo os fundamentalistas reais – como Malafaia – expressam sua revolta. Digo como quem teve mínimo acesso a relatos sobre os bastidores da campanha: nunca houve o momento em que Marina olhou o Twitter e viu os tuites do Malafaia. A retificação do programa para sua posição original sequer passou pela consulta da candidata (o mesmo aconteceu com o caso da energia nuclear, que evidentemente nunca foi comentado). Mas criou-se essa versão fabulosa de que Marina teria “mudado de posição” (quando o que houve foi a afirmação da sua posição – errada – original) em virtude de Malafaia. Isso foi um balde de água fria gigantesco que inviabilizou inúmeros apoios que vinham se construindo e impediu o crescimento da candidatura entre a esquerda. Provavelmente o maior erro técnico-gerencial (ironia…) que já presenciei, em termos de dimensões e repercussão, numa campanha presidencial.

Mesmo assim, Marina terminou a campanha relativamente “por cima”. Ao terem que enfrentar Aécio Neves no segundo turno, muitos petistas perceberam o erro de ter destruído a candidatura de Marina com seus 10 minutos de televisão e criar um problema ainda maior para si quanto ao enfrentamento de um candidato até então ileso. Vários intelectuais que hesitaram durante a campanha acabaram aderindo nos últimos dias, mostrando sua preocupação ambiental e desejando que o segundo turno se desse à esquerda. Houve inclusive quem fizesse “voto útil” em Marina para a levar ao segundo turno. Não era mais a Marina Silva de 2010, com sua aura de novidade e identificação com pautas novas para o sistema político, nem a Marina que ingressou nas eleições, meio inclinada demais para políticas de mercado, porém ainda identificada com parte da força de 2013, mas era ainda uma força política que o tempo mostraria ter sido alvo de uma campanha mesquinha, estúpida, mentirosa.

É quando então Marina comete o terceiro e definitivo erro apoiando Aécio Neves. Ressentida pelo tratamento que o PT lhe deu durante o primeiro turno, Marina prefere subscrever a candidatura de um candidato identificado com o conservadorismo no Brasil. Na visão dela, o PT – considerado o tratamento que deu à REDE e depois a ela como candidata – é uma ameaça real à democracia brasileira, tendo aparelhado boa parte das instituições e se mostrado capaz de fazer de tudo para se manter no poder. O neoliberalismo de Aécio não incomoda tanto, já que ela comprou o diagnóstico de que o Brasil sofre crise de confiança e precisa reafirmar compromissos, desde que mantidas as políticas sociais. Então ela arranca um documento de Aécio de que se comprometeria a manter políticas sociais e melhorar a visão ambiental e acerca dos direitos indígenas que Dilma estraçalhou nos últimos 4 anos. Ingenuidade ou cinismo? Tanto faz, porque o que importa aqui não é psicologismo. Politicamente, Marina retrocedeu. Perdeu uma infinidade de apoios que não a perdoarão porque poderia simplesmente ter ficado neutra, ou seja, na oposição dos dois projetos.

O “ingovernável” que dá nome ao blog é a posição de não-submissão ao poder, ao governo, a profanação dos ídolos, o lugar em que é possível que o pensamento, por exemplo, se desenvolva sem reverenciar ninguém. Meu critério pessoal que me faz separar bons e maus intelectuais é a independência. Uma inteligência sem independência para mim é uma contradição em si mesma. Por isso, não posso aceitar que Marina tenha cometido um quarto e último erro que é a expressão de todos os que foram até aqui arrolados: não confiar no seu próprio conceito de “nova política”. Se efetivamente existe algo que mereça esse nome, não pode se deixar decidir apenas pelas eleições. A política não se faz só na urna. Na era da Internet e de todas as novas tecnologias que se infiltram na nossa vida, estamos a todo momento vivendo a política. As eleições viraram uma forma caricata de participação quando online estamos em contato direto com as decisões, podendo influir inclusive argumentativamente se efetivamente fosse aberto esse espaço. A nova política é a desconstrução das diversas categorias da velha democracia representativa, de baixa intensidade e participação, burocratizada e cada vez mais convertida em plutocracia. Marina se sentiu obrigada a optar por um dos polos que ela mesma insistiu estarem desgastados. Errou. Mais que um erro estratégico, isso foi um erro de fundamento. Uma descrença no que ela mesmo sustentava acreditar, que é possível uma nova interlocução entre sociedade e estado no século XXI. E que vai ocorrer independentemente de Marina (ela própria sempre se negou esse status de líder). Já está ocorrendo, basta passar os olhos pelo resto do mundo.

Se alguém deve ser responsabilizado por todos esses erros, com a cota de humanidade que sempre convém lembrar, é a própria Marina, não a nova política. Se ela não foi capaz de bancar sua própria visão, não muda nada a necessidade de que precisamos renovar as instituições, oxigenar a esfera pública, enfrentar as oligarquias. A nova política já está aí, gostem ou não, e por mais que a “velha política” tente a sufocar, não será capaz de impedir seu florescimento. Agora, quando o sistema político só consegue sinalizar a antiga e mesma e monótona polaridade, resta aos que desejam o novo, enquanto corpos insubmissos, encarnar a sociedade contra o Estado.

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