O preço das manifestações

Há muita coisa que gostaria de dizer sobre o resultado das eleições, especialmente sobre a campanha sórdida que resultou na queda de Marina Silva e subida vertiginosa de Aécio que farei questão de retomar em todos os seus pontos (do “sorriso no funeral” e a “queda suspeita” do avião, passando pelo “fundamentalismo religioso” até a “nova cara da direita”), mas vou deixar para daqui a pouco. Hoje um “blogueiro progressista” já anunciou que talvez a primeira pesquisa coloque Aécio na frente no segundo turno. Esse blog avisou que isso era um risco real.

As notícias sobre os resultados eleitorais, salvo algumas exceções como Dino no Maranhão, foram péssimas para a esquerda. Os maiores ícones do fascismo no parlamento, Luiz Carlos Heinze (que declarou serem índios, quilombolas e LGBT “tudo que não presta”) e Jair Bolsonaro (que dispensa comentários) foram os deputados federais mais votados nos seus estados. No RS, Tarso Genro dificilmente baterá Sartori, do PMDB. Lasier Martins, comunicador conservador da RBS que declarou recentemente que muitos índios viraram bons trabalhadores e que o problema é “os tirar da pobreza”, foi eleito derrotando Olívio Dutra. Ronaldo Caiado e Marcelo Miranda, políticos ruralistas, eleitos senador e governador, respectivamente, dos seus estados. Beto Richa e Geraldo Alckmin, políticos ultraconservadores, idem. Serra bateu Suplicy para o senado paulista e repito que Aécio vem fortíssimo no segundo turno, pois toda artilharia petista durante o primeiro turno foi dirigida à Marina Silva, “a nova cara da direita”.

O declínio eleitoral do PT, apesar da arrogância dos seus militantes que achavam por exemplo que poderiam levar no primeiro turno, é um nítido efeito das manifestações de 2013 e de todo processo que as desencadeou. O único consenso sobre as manifestações é que elas são um enigma, mas tenho tentando esboçar algumas leituras sobre elas por aqui.

Muito antes das eleições já estava dito que as manifestações não eram movimentos puramente de esquerda, mas uma mescla de várias tendências com uma pauta mais ou menos comum: a revolta contra o sistema político. Defendi por aqui que a juventude que foi às ruas abrangia uma esquerda de novos movimentos sociais lutando contra a plutocracia e o avanço dos projetos de gentrificação nas cidades especialmente impulsionados pela Copa do Mundo. O MPL propunha uma revisão da política aceleracionista de investimento na indústria automobilística, um dos principais pactos trabalhistas do PT que, contudo, corrói a experiência nas cidades transformando-a num inferno de stress e agressividade, além de detonar a multiplicidade da paisagem para transformar tudo em asfalto cinza e, a longo prazo, fortalecer o aquecimento global. O MTST propunha uma crítica dos investimentos dos bancos públicos em empréstimos dados a mega-empreiteiras que, a pretexto de “promover o desenvolvimento” e “dar empregos”, comandavam projetos sociais como o “Minha Casa Minha Vida” e promoviam remoções e exclusão da população pobre. Os povos indígenas inauguraram esse ciclo e fizeram parte das manifestações — lembro por exemplo do caso da Aldeia Maracanã, no RJ –, uma vez que o Brasil vive a maior ofensiva anti-indígena desde a Ditadura Militar por causa das políticas de crescimento atuais. Esses movimentos, entre outros, revoltavam-se não contra as concessões do Governo Federal, mas contra seu projeto. A crítica de um programa social tido como vitrine é prova disso.

Mas as manifestações não tiveram apenas essa face de esquerda. Também a direita saiu às ruas. Usando seu próprio jargão, a juventude de direita criticou a corrupção e a fisiologia do sistema político. Lembrei da divisão de Renato Janine Ribeiro entre o PT, mais “democrático”, e o PSDB, mais “republicano”, para explicar essas tensões nas ruas que já não se sentiam mais representadas por ambos. A fisiologia do peemedebismo irritava também os manifestantes da direita. E lembro que, apesar da existência de células fascistas, havia também ali muito da juventude da “nova classe trabalhadora” lulista que, embora reconheça a contribuição dos programas sociais, acredita no discurso da meritocracia e tem uma visão de centro-direita acerca do processo político. De perfil mais “empreendedor”, essa parcela beneficiada menos pelo Bolsa-Família (não raro é até contrária a ele) que pela elevação do mínimo e a abertura de crédito se nega a perceber a influência do Estado na sua ascensão e prefere acreditar no mérito próprio, que é verdadeiro, mas nunca explica tudo. Esses manifestantes procuravam mais “qualidade” na política, evitando a drenagem de recursos públicos nos pactos fisiológicos e a permanência das velhas oligarquias mantidas pelo PT (Sarney, Collor, Renan etc.).

Ao invés de dialogar com ambos os setores, o PT preferiu subir no salto alto e se achar na condição de julgador. Etiquetou a pecha de “coxinhas” nos manifestantes e preferiu se afirmar como o suprassumo infalível da esquerda, agarrando-se para tanto em diagnósticos toscos e conspiratórios. Na Copa do Mundo, lançou o lema #vaitercopa e se desconectou totalmente dos movimentos sociais, preferindo reforçar a segurança e a vigilância sobre eles. Até hoje quando o assunto vem à tona sobram julgamentos sobre as manifestações, tidas como “alienadas”, e petistas se vangloriam da proposta de plebiscito constitucional da Presidenta Dilma que não durou um mísero dia. A culpa, no final, é das próprias ruas por enfraquecer o PT. O símbolo dessa visão risível é o sociólogo Emir Sader ter chamado de “vira-latas” movimentos de sem-teto que iriam protestar em frente ao Itaquerão e foram afastados pelas torcidas organizadas do Corinthians. Qualquer semelhança com paixão futebolística não é mera coincidência.

Mas a conta veio. O PT perdeu apoio de boa parte da esquerda e não soube dialogar com esse centro-direita jovem. Os puristas da esquerda arrebentaram Marina quando ela disse que a “nova política” não podia ser só de esquerda, ignorando que em uma democracia temos que conviver com conceitos mais abrangentes que a nossa própria visão ideológica. Confundiram programa de governo com o ambiente democrático. Hoje o PT corre o risco de sofrer uma grande queda se perder o governo federal. A verdadeira direita, em compensação, está mais forte que nunca. Ela sabe que esses manifestantes foram procurar integridade no fascismo, como tantas vezes já fomos obrigados a testemunhar. A direita aproveitou-se do que Benjamin chamava do “pessimismo desorganizado” da juventude para capitalizar votos. Conseguiu. Em contraponto a isso, o PT propõe um otimismo de Poliana que ninguém mais que não seja adepto quer subscrever. O mundo não está para otimismo e o PT não percebeu isso. Pode pagar caro, muito caro, por esse erro.

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