Que raios afinal é a “nova política”?

De todos os significantes que Marina Silva escolheu usar, sem dúvida o mais controverso é o de “nova política”. Criticado ao mesmo tempo por ser pouco ou demais, é o alvo preferido dos que gostam de apontar contradições. É verdade que a postura desses acusadores oscila também contraditoriamente: ora a “nova política” é atacada de forma cínica (“Vocês também terão que se vender! Ninguém escapa das alianças fisiológicas com o Congresso que temos aí!”), ora de forma cética (“Olhem só com quem Marina está se aliando! Vai ser só mais da velha política isso aí”). A vantagem de estar nessa posição é que sempre se pode alternar o lugar conforme o barômetro aponta. Se é o caso de comparar alianças, vale o discurso cínico. Se é o caso de apontar problemas, vale o cético. Afinal, quase ninguém está muito preocupado com consistência durante as eleições. O que vale para muitos é simplesmente vencer, de preferência esmagando a adversária.

É verdade que Marina Silva poucas vezes definiu com clareza o que é a “nova política”. A expressão “governo com os melhores”, que até foi associada à aristocracia, é uma tentativa ainda muito rasa e sem capacidade de mobilizar. Não custa lembrar que a aristocracia é um regime que não é democrático e que toda seleção de um ministério, por exemplo, deve ter algum componente de escolha dos indivíduos mais qualificados para desempenhar os cargos, mas parte de uma representante eleita democraticamente. Essa simplificação, portanto, é equivocada (presume-se que alianças fisiológicas são “democráticas”). Mas também é perigoso deixar esse significante excessivamente vazio simplesmente porque isso daria um sentido messiânico para a candidatura de Marina. E o que não precisamos mesmo é de filosofia messiânica. Podemos e devemos suspeitar oswaldianamente dos messianismos e suas promessas indesconstruíveis. Por isso, articular estrategicamente dentro das ferramentas finitas que dispomos o que poderia ser a “nova política” parece necessário. Sabemos que as manifestações de 2013, longe de serem apenas um suspiro de alienados, como a blogosfera “progressista” desenhou, na realidade constituíram-se numa demanda de “outra política”, não certamente a mesma que Marina está sustentando, mas algo diferente do que está aí. Protestos que vieram de diversos setores, da direita à esquerda, sempre contra o sistema político institucionalizado. Os que acusaram esses manifestantes de “ignorar a política” já estão na realidade tão intoxicados pelas formas institucionais que deixaram de perceber a política exatamente onde ela está, que é fora dos gabinetes de Suas Excelências. Não estou afirmando, no entanto, que a “nova política” de Marina e a “outra política” dos manifestantes, que propositalmente já diferencio pelo nome, sejam as mesmas. Estou afirmando simplesmente que as acusações contra ambas vêm do mesmo lado: os cínico-céticos que alternam suas posições conforme a melodia.

O conceito-chave para entender o que poderia ser a “nova política” parece ser o de “peemedebismo” de Marcos Nobre. O filósofo defende a ideia em seu livro O Imobilismo em Movimento de que a política brasileira, apesar da transição para a Nova República que se consolidou com a Constituição de 1988, continua engessada no aprofundamento democrático devido à existência de uma cultura política específica que perpetua oligarquias e tranca a circulação de pautas e debates públicos no sistema político. Para Nobre, o “centrão” seria a expressão do nacional-desenvolvimentismo que vigorou na Ditadura Militar durante a Constituição e teria se consolidado mais tarde como uma força política que obriga todo governante a fazer acordos e firmar – sobretudo a partir dos casos do impeachment de Collor e do mensalão – uma supermaioria da governar. O que caracterizaria o peemedebismo seria a desidratação do debate público, bloqueado por vetos e tendo a fisiologia como modus operandi. O peemedebismo não seria o PMDB, mas o partido torna-se seu “tipo ideal”. A análise de Nobre deve sem dúvida alguma coisa à diferença entre “sistema” e “mundo da vida” de Jürgen Habermas e pode ser criticada por isso, já que ela abstrai questões materiais importantes em termos de diferenças de poder, trazendo o problema para o nível moral-comunicativo. Mas ela é valiosa de qualquer modo.

A “nova política” que Marina está propondo seria uma ruptura com o peemedebismo, com os acordos fisiológicos que preponderam até hoje como fonte do arranjo político. Por isso, é preciso entender – e insisto nisso que já escrevi aqui – que a “nova política” não é um super-consenso que uniria todos os opostos. Ela é, ao contrário, uma estratégia de antagonismo político contra oligarquias consolidadas que Marina dá expressamente o nome: Sarney, Collor, Renan e companhia. Quem não está levando isso em consideração está perdendo parte da pauta. Mas segue a pergunta: como?

A proposta de Marina então aqui atinge o nível mais utópico (que para mim não quer dizer ruim): ela seria capaz, com o prestígio político acumulado, de reunir lideranças de diversos partidos e fazer uma aliança transpartidária a fim de isolar as velhas oligarquias e consolidar a transição de “velha República” para a “nova República” que a Constituição de 1988 inaugurou. Mas a pergunta é: só prestígio é suficiente? Evidentemente a resposta é “não”. E aqui ela joga a segunda carta: um mandato de 4 anos. Ao garantir aos seus adversários políticos que somente irá ficar 4 anos no poder, está propondo uma quarentena na polarização atual para que as forças se reorganizem e desintoxiquem a esfera pública das lideranças fisiológicas, permitindo que o debate público se repolitize. Em outros termos, Marina está se lançando como uma espécie de líder de transição no Brasil.

Aqui propriamente cabem duas críticas a esse discurso: 1) o conceito de “nova política” é excessivamente dispersivo e messiânico. Marina deveria ter falado em “transição política”  ou “nova aliança”, não de “nova política”. “Nova política” é o que as manifestações de 2013 estavam pedindo e dentro da institucionalidade ainda há pouco espaço para que ela aconteça; 2) a “transição política” deveria vir acompanhada de outros temas correlatos que envolvem lidar com o legado da Ditadura Militar de modo mais incisivo, já que as oligarquias políticas estão na ativa também por causa do silêncio acerca da nossa memória. Essa transição, dito de outro modo, deveria vir mais substanciosa, mais clara, a fim de demarcar qualitativamente ao que se refere a ideia e estratégia. Pensada desse modo, no entanto, a proposta de “nova política” nada tem de messiânica: é uma tática bem demarcada de uma aliança de 4 anos com as lideranças positivas de cada partido a fim de que seja possível oxigenar o Parlamento das forças fisiológicas e abrir canais de comunicação com os movimentos da sociedade organizados ou não. A “nova política” é muito menos ambiciosa que as ruas, por isso seu nome está um pouco desalinhado. Mas, como tática política no quadros institucionais, é uma proposta interessante.

Resta a “acusação” de que tudo isso é utópico ou impossível. Nada mais verdadeiro. Tudo é utópico e impossível. Mas utopia e impossível são termos que apontam para as condições de possibilidade que o próprio discurso e práticas apontam como tais. Em outros termos, são limites que podem se tornar limiares, que podem ser cruzados. As batalhas eleitorais que hoje querem empurrar Marina para a direita sabem da força performativa de cada argumento. O campo simbólico em que atua a política não funciona nos escaninhos estritos da razão, mas a partir dos espectros que se configuram como profecias-que-cumprem-a-si-mesmas. A possibilidade da abertura de um campo de transição depende da força performativa daqueles que o enunciam. Marina acredita que ela é capaz de bancar. Os petistas, ao contrário, preferem o discurso da suspeição. Normal: a eleição é a disputa entre fantasias de futuro e para o desespero dos racionalistas não há nada “por trás” dessas imagens. Teremos que colocar os fantasmas na berlinda e decidir.

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