Aécio não está morto

A recente subida de Aécio Neves nas pesquisas indica que, ao contrário do que eu mesmo pensava, ele não está morto. Aécio mostrou que ainda tem fôlego para atingir Marina e disputar o segundo turno com Dilma que seria bastante acirrado, considerando que, apesar dos 80% de aprovação do segundo mandato de Lula em 2010, ainda assim derrotar Serra foi uma tarefa que entre outras coisas exigiu do PT fabricar factoides (a privatização da Petrobrás) e assumir compromissos que mais tarde acabariam se mostrando péssimos no segundo mandato (o debate em torno do aborto transforma-se no compromisso político – ainda de pé – com a bancada evangélica).

A trajetória ascendente de Aécio contou com a cooperação de onde menos se esperava: do PT e do PSOL. A operação conjunta assumida pelos dois partidos de destruição da figura pública de Marina Silva, etiquetando-a como “tucana disfarçada” ou “a representante do capital ou da burguesia”, dependendo do grupo partidário, colaborou para que a candidata perdesse força e passasse a adotar, até bem pouco tempo atrás, uma estratégia quase totalmente reativa. Nesse sentido, o conhecido fatality dado por Luciana Genro em Aécio no fim do debate da CNBB mostra o quanto a militância ainda é apaixonada nas análises: sim, é verdade que foi uma paulada merecida no tucano e que foi divertido assistir (essas intervenções são típicas de Luciana), mas o que chama atenção é ninguém ter percebido que ela simplesmente não respondeu à pergunta. Quando Aécio a acusa de ser linha auxiliar do PT, ela diz: “uma ova”, e em seguida mostra que o PT seguiu o modus operandi dos tucanos em MG apenas. Mas ela não consegue negar consistentemente, porque simplesmente desvia do assunto, estar realmente ocupando esse lugar. A campanha do PSOL tem sido uma constante onda de ataques à Marina como a representante da direita. Só que, por exclusão, isso quer dizer que Dilma é a esquerda. Ao empurrar Marina para a direita “tucana”, PT e PSOL reforçam a velha polaridade política e ignoram o terceiro campo que surgiu desde 2010 (e mais forte ainda nas manifestações). Só que no selo de tucano Aécio vai melhor (simplesmente porque ele é o tucano das eleições e porque Marina não é uma tucana disfarçada). Assim, o fortalecimento da velha polaridade favorece o deslocamento dos votos de Marina para Dilma e Aécio e restabelece as velhas forças e a disputa já meio velha de 94, 98, 2002, 2006 e 2010 sem reconhecer a entrada de novos atores no cenário. Vejam: o reforço da polaridade não fortalece apenas o petismo, fortalece também o anti-petismo.

Odeiem-me por dizer isso, mas Aécio fez uma leitura sagaz do contexto político. Ele percebeu que as candidaturas de esquerda estão se destruindo entre si e quer se fortalecer entre os indecisos de centro-direita que foram para Marina. Para isso, cola o selo de “petista disfarçada” em Marina, justamente a posição oposta à Dilma, mas com a mesma estratégia de reforçar a polaridade. Como Marina não quer comprar o discurso anti-petista, está perdendo os votos – uma quantidade pequena, ainda – do eleitor que tem mais aversão ao PT. O que esse eleitor percebeu é nada menos que a verdade: Marina não representa uma força política inversa ao PT, seu discurso não comporta o léxico “petralha” e nem compactua com a visão desse segmento do eleitorado. Assim, reencaixou-se no seu lugar devido parcela dos eleitores que haviam visto em Marina apenas uma candidatura anti-petista mais competitiva.

O que pode acontecer, no entanto, é com o reforço da polarização o segmento dos descontentes nem Dilma nem Aécio que foram às ruas em 2013, da esquerda ao centro-direita, deixe de votar em Marina. Lembro que nas primeiras pesquisas pós-morte de Eduardo Campos Marina cresceu vertiginosamente, mas no início sem tirar votos de Dilma e Aécio. Apenas os indecisos migraram. Hoje há vários indicativos circulando que esses descontentes são exatamente os jovens “batalhadores” que ascenderam socialmente no Governo Lula. Esse público não é de extrema esquerda, mas sim razoavelmente conservador oscilando do centro-direita para o centro-esquerda, conforme sua conveniência individual se encontra mais ou menos contemplada. Não raro tem sentimentos contraditórios em relação ao PT, porque se beneficiou das políticas sociais, mas formou sua posição política mais afinado à grande mídia e ao anti-petismo. (Sinceramente, o melhor para o PT nesse segmento me parece ser enfraquecer o anti-petismo e isso só vai acontecer com o enfraquecimento da polarização, e não com o esmagamento total e completo do outro campo. O dual não se resolve no Um, mas no múltiplo.)

Para o PT, então, há duas opções: a) continuar minando até a destruição total a figura pública de Marina, colocando esses indecisos de volta à posição anterior e com isso enfraquecendo a votação da candidata do PSB a ponto de inviabilizar sua ida ao segundo turno; ou b) parar com esses ataques difamatórios e partir para o debate político, deixando inclusive que as pautas da base reprimidas pela própria burocracia partidária venham à tona. A opção c), Dilma levar no primeiro turno, deixo para os delirantes. O risco de a) para o PT é que terá enfrentar Aécio Neves no segundo turno e se o resultado não for o previsto terá queimado uma candidatura que qualquer um de mínimo bom senso (espécie rara hoje em dia…) reconheceria como melhor. O risco de b) é perder a eleição.

As militâncias do PSOL e do PT, assim, sabem que agora atacar Marina não é mais apenas uma questão moral: trata-se de estratégia para o segundo turno. A destruição de Marina pode significar um novo governo dos tucanos reais. O PT pode levar em ambos, mas tem que escolher se vai preferir um embate com Marina Silva ou com Aécio Neves.

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