Tarso ou a Barbárie

Tenho muitas críticas a Tarso Genro há muito tempo em todos os níveis. Ele cometeu alguns erros políticos que valeria a pena retomar para entender o destino do PT no Rio Grande do Sul e mais especialmente Porto Alegre, mas isso fica para outra oportunidade. Fiquei decepcionado – a ponto de quase me considerar oposição – à postura fraca de Tarso diante da repressão das manifestações, em especial de indígenas agredidos pela Brigada Militar e intervenções em organizações anarquistas baseadas em fundamentos de regime autoritário. Apesar de querer “dialogar”, o Governador parece mais preocupado em “ensinar” aos movimentos como devem agir do que efetivamente ouvir as ruas e proteger o direito fundamental à manifestação política da repressão policial. O caso da Federação Anarquista, cujas provas da prisão são, em sua maioria, livros, é o sinal mais ridículo disso. Finalmente, Tarso deve explicações ainda sobre o piso para os professores. Ao não cumprir uma lei que ele próprio criou e disse ser possível pagar, por mais sofismas que levante (por exemplo, o de que o Parlamento alterou a lei, como se isso não fizesse parte do processo), Tarso mais uma vez mostrou oportunismo e falta de credibilidade para a prioridade das prioridades de um governo estadual.

Dito isso, e afastando qualquer pecha de anti-petista, afirmo sem pestanejar: Tarso ou barbárie. Se existe um risco real de Ana Amélia Lemos levar, não apenas todo mundo que se considera minimamente “não conservador” deveria se reunir em relação ao seu nome, mas inclusive os partidos de extrema esquerda: PSOL, PSTU, PCO etc. Sim, deveriam, porque o que vem aí é uma nova Dama de Ferro, essa com risco de dar certo. Se o gênio de Yeda prejudicou que seus planos dessem certo, esbarrando no peemedebismo à gaúcha de um modo parecido com Fernando Collor, Ana Amélia corre o risco de dar certo. E por isso devemos nos preocupar.

Candidata forjada na RBS – rede de comunicação com um poder maior de influência no RS que, por exemplo, a Globo no Brasil – Ana Amélia representa a metamorfose da ARENA em vestes mais modernas. É a encarnação do autoritarismo militar sem as roupas verdes, combinando um senso de conservadorismo gaúcho com a modernização pela desregulamentação do mercado. Para quem não sabe, o PP é o retrato fiel da ARENA no RS, Estado que não aceita novos partidos e por isso tende a votar sempre nos antigos, sendo o PMDB, por exemplo, o que o PSDB é em nível nacional. A maioria dos municípios é dividida entre PP, PMDB, PDT (o velho trabalhismo brizolista), PTB (onde colou a imagem de Getúlio que deveria ser do PDT) e um pequeno PT, sendo quase sempre uma polaridade entre duas dessas forças políticas (à imagem da ditadura). Apesar do desgaste dos inúmeros “gestores” que sempre prometem renovar tudo com “técnica” e sem “ideologia”, considerando a quantidade que já passou sem mudar nada, o discurso ainda cola minimamente pela insistência da RBS em mantê-la. Ana Amélia é representante do grupo midiático que não é apenas midiático: é um complexo econômico que esconde seus braços predatórios sob o manto da neutralidade, sem explicitar seus negócios ao público enquanto defende hipocritamente a transparência do público. Um exemplo apenas é a compra da CRT, companhia estatal telefônica do Estado, pelo mesmo grupo que defendia em editoriais sua privatização. No mínimo seria necessária a informação, não? Ana Amélia condensa a imagem contraditória da RBS: arcaica e moderna, conservadora e agressiva, o velho mercado das oligarquias rurais com roupas yuppies.

Para além dos economicismos que costumam vingar como leitura predominante das eleições, basta ver a concepção de segurança pública do Governo Yeda, que voltou à defesa do autoritarismo e da truculência policial em oposição aos direitos humanos, reforçando a mentalidade violenta da polícia e permitindo a manutenção das ideias da Ditadura. Yeda incorporou um continente significativo de policiais – acredito que quase 5 mil – com essas ideias. Imaginam o trabalho de desconstruir isso hoje em dia? Não são velhos policiais da Ditadura Militar que entram encarando seu trabalho como repressão dos subversivos e os direitos humanos como entrave da atividade, são novíssimos policiais ingressando agora com essa mentalidade retrógrada, violenta, estúpida. Esse tipo de dano é incomensurável e Ana Amélia pode ser responsável por uma centena de atitudes desse gênero. Por pior que possa ser uma reeleição, nunca chegará a esse nível. Se o Governo do Estado está estrangulado pela dívida com a União, que ao menos em decisões que não envolvem o aporte de recursos econômicos (por exemplo, de não espancar ou torturar pessoas) ele possa se posicionar de uma maneira constitucional. É pouco, mas pode ser muito.

Por isso, apesar dos problemas, é Tarso ou barbárie. O PSOL deveria apoiar Tarso no segundo turno, quem sabe até pressionando pelo piso como moeda para aliança. Mas deveria. Todas as forças não-autoritárias deveriam se reunir para eleger Tarso, porque Ana Amélia não é propriamente um retrocesso: é a perpetuação das ideias que tornam o RS hoje vergonha nacional, com casos de homofobia e racismo que lembram o KKK e fazem com que a gente se sinta no Mississipi do Brasil, que envergonham seus habitantes não pela “intolerância”, como dizem alguns, mas pela violência mesmo, pelo fascismo que boa parte da população subscreve como mentalidade “gauchista” que é a doença perpetuada no tempo. Há várias coisas que deveríamos discutir para entender porque o RS é um estado estagnado e mesmo alternando governadores de todas as correntes ideológicas desde o fim da Ditadura não sai do lugar. Tenho lá meu diagnóstico. Mas o fundamental é: precisamos eleger Tarso. Agora, no entanto, a prioridade é Tarso porque a eleição está com o risco de bizarramente terminar no primeiro turno.

Tarso ou barbárie: esse é o meu lema.

PS1: (Olívio nem comento: é um exemplo do que é um político digno, alguém que merece nosso voto. E contra Lasier Martins, outra força da RBS.)

PS2: Post foi editado.

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