Por que Dilma virou o jogo?

Dois posts abaixo havia dito que a eleição não estava decidida ainda e que Dilma ainda tinha boas chances, talvez até as melhores enquanto favorita do pleito. A sensação se confirmou com uma pesquisa do Ibope que indica subida da candidata e leve queda de Marina. Onde o cenário mudou?

O PT soube mobilizar a velha “alma de Sion” nessas eleições, como em outras vezes. Incentivou o pensamento de que fora do PT todas as saídas são o risco de um retrocesso conservador. Com isso, mobilizou uma base de descontentes que estava estagnada para defender, apesar de tudo, o Governo Dilma. Conseguiu colar, ainda que usando estratégias de baixíssimo nível na maioria das situações, o selo de PSDB em Marina, fazendo-a um suposto fantoche dos interesses tucanos que estariam prestes a fazer do Brasil de novo o país pré-2002. Usou a retórica do medo para apontar aos pobres que correriam o risco de perder o prato à mesa enquanto banqueiros gananciosos comemorariam vitória com Marina, a candidata do mercado.

A situação é simples: quem dá os cartas na eleição é quem fixa a pauta. Quem fixa a pauta, vence. O PT já tinha feito isso com a questão das privatizações e agora fez novamente, mostrando que sabe jogar o jogo eleitoral. Mais: empurrou o debate – ao polemizar sobre a independência do Banco Central – exatamente para o canto do tabuleiro que Dilma quer jogar, colocando Marina, ao contrário, na defensiva. Marina, com sua retórica “paz e amor” e do “jogo limpo”, na realidade está se negando a jogar. Marina não quis, por exemplo, fazer o lance controverso de jogar o mercado contra Dilma. Bastaria inverter a pergunta para que toda propaganda petista sobre o Banco Central recuasse imediatamente. “Dilma, você quer acabar com a autonomia do Banco Central?”. Só essa perguntinha demoliria tudo, porque uma coisa é a militância petista – muitos de esquerda e com forte crítica ao capitalismo e ao mercado -, outra é a realidade do que os três governos do PT fizeram durante esse tempo, inclusive defendendo expressamente, tanto com Lula quanto com Dilma, a autonomia. Mesmo sendo uma proposta de Eduardo Campos (Marina é contra a independência do Bacen), a candidata morre abraçada a ela e não reage para evitar o golpe baixo, tudo em nome de uma ética que ignora a dimensão estratégica da política.

Por que Marina perdeu votos? Há uma incrível heterogeneidade nos 30 a 35% dos votantes em Marina. Grupos desde antipetistas conservadores até jovens que lutaram nas ruas contra as políticas do Governo Dilma contra os pobres. O descontentamento com Dilma não é só de direita, como meio que esquizofrenicamente vem a militância trabalhando, mas também de esquerda. A Marina que se apresentou até agora, no entanto, é uma Marina “descafeinada”, sem a mesma ousadia de 2010. Esse percentual que ela começa a perder é dos indecisos que não vão votar no PT nem em Aécio, e de início sentiram nela a chance de uma alternativa que construísse um novo caminho à esquerda para o Brasil, repetindo um pouco o Lula de 2002 sem cair no desenvolvimentismo – ou quase isso – de Dilma. Um projeto que revisasse os erros crassos desse governo – meio ambiente, direitos indígenas, cultura – e qualificasse áreas que o PT pode ter até melhorado, como educação (ProUni) e saúde (Mais Médicos), mas que ainda padecem de um salto qualitativo que demanda uma forte imaginação e ousadia política. A Marina “eduardizada”, no entanto, está sempre na defensiva, parecendo mais afastar as imagens rotuladas do que confrontar o que está aí. Herdou a falta de sal do candidato que sucede, com todo respeito que merece o luto a ele.

Se Marina não se posicionar fortemente em torno do que tem de bom, isto é, polemizar em torno das manifestações de 2013, direitos indígenas, desenvolvimento sustentável (eu sei, eu sei), novas ideias na segurança e cultura e outros pontos onde se possa sentir a diferença, aquela parcela que se mobilizou para sair do status de indeciso vai voltar para lá. O imperdoável recuo na questão LGBT é prova disso: o balde de água fria respingou em votos. Dilma vai continuar sua escalada porque dali ao menos se sabe o que vai sair. Esse ponto, aliás, mostra uma fragilidade que pode ser a imagem do que seria o “dar errado” de um futuro governo Marina: ela tornar-se um pálido reflexo da imagem inicial da mulher mestiça da floresta, ficando restrita ao isolamento político e refém de um discurso economicista tecnocrático, o verso mais “ortodoxo” (ou simplesmente neoliberal) do que hoje representa a política desenvolvimentista de Dilma. Se for para isso, não vale a pena mudar mesmo (só não contem comigo para votar em Dilma: nem sob fuzilamento).

A Marina que eu votaria é a Marina de 2010, aquela que dava esperança de construir um Brasil que pudesse ser a referência mundial para o século XXI. Um Brasil da era do Antropoceno, com a preocupação ecológica colocada como eixo a partir do qual se pensa as demais questões: cultura, educação, política e economia. Parecia ser um salto de qualidade, uma segunda geração do que significou o acontecimento Lula enquanto força irruptiva nordestina que chega a São Paulo e de baixo para cima melhora a qualidade de vida dos pobres fazendo os ricos engolirem a seco o sucesso do projeto. Marina parecia o Brasil profundo, escondido nas florestas, que não apenas qualifica a vida dos seus habitantes, mas inventa um novo habitar baseado em sabedorias ancestrais que foram e ainda são desprezadas (inclusive pela esquerda), um projeto de Brasil que a tornaria aquilo que recentemente foi “acusada” (o que diz mais do acusador que dela): ser a “verdade tropical”. O quanto Marina ainda pode ser essa verdade, não sei. O fato é que atualmente não está sendo, o que já se faz sentir pelos efeitos nas pesquisas e fortalece a manutenção de Dilma e seu governo tecnocrático no poder por mais 4 anos.

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