Onde o PT se perdeu

A eleição está ainda muito longe de ter sido decidida. Dilma Rousseff segue como uma candidata muito forte, ainda líder nas pesquisas e com toda máquina do governo a seu favor. Mas há uma sensação difusa de que a tendência é que Marina vença no segundo turno, uma vez que receberá boa parte da cota de votos de Aécio e já está bem próxima da mandatária atual. Se o PT perder, existirão dois caminhos para a militância: choramingar todos os tipos de teorias da conspiração e empinar as metralhadoras acusatórias, como provavelmente a blogosfera “progressista” fará, ou pensar sobre os erros cometidos e partir para autocrítica e renovação. Inegavelmente o Brasil sairá, se for o caso, melhor do que entrou com os Governos do PT. Lula e Dilma moveram placas tectônicas da sociedade brasileira ao empurrar indivíduos da extrema miséria para uma vida razoavelmente digna (do ponto de vista dos direitos) e ainda ajudaram uma boa parcela dos que viviam em forte aperto econômico a dar um pequeno salto, usufruindo não apenas a possibilidade de ter comida à mesa, mas também variar o cardápio, frequentar restaurantes e entrar nos espaços que antes eram exclusividade da “Casa Grande”. Esse processo foi maravilhoso para o Brasil, hoje um país mais democrático e cidadão, embora ainda esteja longe – devido a inúmeros “gargalos” culturais, sociais e institucionais – de ter se concluído a efetivação do Estado de direito e mais longe ainda de ter um projeto de longo prazo que problematize as questões do século XXI, em especial as próprias transformações do capitalismo e o ambiente de catástrofe ecológica que caracteriza o Antropoceno.

Se o PT perder, a primeira das causas será a mais natural de todas: desgaste. Ninguém governa doze anos sem pagar o preço de ver contra si a alegação de que já teve tempo para promover mudanças. E isso é verdade. Mas por outro lado pesa a favor do governante o conservadorismo natural de quem já se acostumou a um estilo e tem receio de transformações. Como a maioria é razoavelmente conservadora, o desgaste por si só não pode ter empurrado o PT para a berlinda. Tampouco subscrevo o discurso fácil de que a corrupção provocou essas mudanças. Houve muita corrupção, mas vivemos desde sempre acostumados a ela. Infelizmente. Por isso, a corrupção não parece ser o motivo determinante para a mudança.

Minha hipótese é que o PT começou a perder a mão no Governo Federal com duas apostas erradas de Lula que acabaram desencadeando um processo que – esse sim – foi o real determinante do processo de afastamento entre PT, movimentos sociais e intelectuais que costumavam lhe dar base política. (Que fique claro que Lula teve incontáveis acertos, mas às vezes a análise precisa focar nos problemas.) A primeira aposta foi a Copa. Lula embarcou em um clima de ufanismo que trouxe ao Brasil a Copa e as Olimpíadas. Tomado como importante player no cenário internacional, o então presidente buscava alimentar o clima de autoestima do brasileiro e favorecer o investimento, sobretudo o tipo de investimento que diz respeito àquele que embarca em um projeto para seu próprio futuro. Não necessariamente pensado por empresas estrangeiras a se instalar no Brasil, mas com pequenos e microempresários que se deixariam levar por um espírito de otimismo que alimentaria, em um círculo virtuoso de confiança, o crescimento econômico e social. Ou seja, faço a leitura de que havia a melhor das intenções no projeto, mas ele naufragou vertiginosamente em razão de vários fatores, entre os quais o mais decisivo de todos (que direi qual foi no próximo parágrafo). A segunda aposta de Lula foi Dilma. Não sei se Lula imaginou que voltaria em 2014 e não teve coragem de embarcar no projeto, e tampouco não dá para esquecer que os favoritos (Dirceu, Palocci) caíram durante o governo. Lula ainda tinha nomes consistentes como Tarso Genro ou Gilberto Carvalho, ou mesmo a aposta Fernando Haddad, mas escolheu para o suceder alguém que não tinha capacidade política alguma e justamente escolheu para si o rótulo de gestora, de gerente do Brasil.

Se tudo tivesse andado em fogo baixo, talvez o projeto lulista com Dilma até teria ido bem. O problema é que a conjuntura mundial virou totalmente durante o período. Depois da crise de 2008, movimentos sociais explodem pelo mundo todo fazendo uso da tecnologia para se reunir em multidão e se opor ao establishment institucional, lotando as ruas do Oriente Médio, Europa e das Américas do Norte e do Sul. Eles protestam contra tudo que está aí, em uma grande recusa irrestrita que rejeita inclusive lideranças e postula o novo ainda invisível. E foi justamente a Copa, a primeira das apostas de Lula, que provocou o maremoto de 2013. Sim, as manifestações começaram com o MPL e outros movimentos lutando contra a forma como o transporte público vem sendo administrado, mas essas manifestações já estavam marcadas por uma revolta mais ou menos organizada contra o impacto da falta de um projeto urbanístico que o crescimento econômico petista vinha provocando. As desapropriações e remoções de pessoas em situação de pobreza e diversas obras viárias financiadas com recursos públicos para engordar contas bancárias de oligarquias econômicas, somadas à especulação imobiliária, mostraram um modelo de desenvolvimento em que o “progresso” soa como a coisa menos desejável. Pior: na área rural, a idêntica falta de uma visão qualitativa vinha fazendo o PT cada vez mais próximo do agronegócio ruralista, até o ponto em que Katia Abreu se torna aliada de Dilma, atuando na contramão dos direitos indígenas e de uma visão que afrontasse o latifúndio. A quantidade de concessões que Dilma vinha cedendo pelo seu perfil indiferente à política, tal como o consentimento com Feliciano como presidente da comissão de direitos humanos da Câmara, a retirada de material didático anti-homofobia das escolas, entre outras, sinalizava que a segunda aposta de Lula também não andava bem.

E aqui talvez esteja a principal razão das dificuldades do PT nessas eleições que defino da seguinte forma: a eterna denegação de que surgiram novos atores políticos. Considero que, se o PT perder as eleições, a principal razão da derrota terá sido o forte erro estratégico de ter rejeitado as ruas, que eram seu habitat tradicional. O fato de Dilma estar na presidência acabou pesando diante do maremoto de 2013. Naquela época, o partido estava em um estado narcísico que o tornava imbatível em todas as pesquisas e por isso preferiu dar ouvido aos puxa-sacos, como já disse em outro post, fazendo o bizarro alinhamento com os governos estaduais contra as manifestações e assumindo a conta da repressão truculenta. Quando o PT se deu conta de que o processo era real e incontrolável, tentou ir às ruas, mas a atitude arrogante de acreditar que poderia reassumir a liderança depois de vários dias de violência policial, escárnio dos “coxinhas” e defesa da repressão dos “vândalos” acabou forjando a forte rejeição (que em certos momentos foi até fascista) contra a presença dos partidos (especialmente o próprio PT).

Para piorar, uma parte da militância petista resolveu comprar o confronto com os novos movimentos sociais usando, para contrastar com o #naovaitercopa, o lema #vaitercopa, além de recorrer a todo tipo de sofisma para justificar o evento, inclusive a defesa do indefensável. Não que os militantes do #naovaitercopa realmente não quisessem que a Copa se realizasse, mas eles escolheram esse evento para marcar o protesto contra uma forma de crescimento predatório no meio urbano. No lugar de compreender os movimentos, mais uma vez o PT preferiu comprar a briga, inclusive chancelando operações policiais que violaram as mais elementares regras do direito. O spray de pimenta e os cassetetes militares vieram com carimbo petista. O pior nesse caso foi a insistência em denegar os novos atores políticos. Não reconhecendo que os manifestantes estavam lutando por causas justas, o PT preferiu etiquetá-los de “coxinhas” a fim de reenquadrar novamente tudo na polaridade política PT/PSDB, aquela que é facilmente controlável e foi desmanchada em 2013. Os manifestantes que não cabiam exatamente no rótulo foram simplesmente criminalizados, excluídos da política. O PT se embebedou de análises políticas tortas e tendenciosas, preferindo a autoglorificação a uma crítica racional do que vinha ocorrendo.

A saída para o PT não era ter confrontado os manifestantes, mas justamente ter aproveitado o clima político favorável para situar-se mais à esquerda. Até do ponto de vista da estratégia eleitoral, considerando que boa parte dos votos que hoje não estão com o PT são de direita, ele no mínimo precisaria capitalizar a esquerda (sempre minoritária), coisa que hoje em dia não consegue mais. Como o PT se vê como a única alternativa de esquerda, sem reconhecer esses novos atores, precisa ignorar uma parcela significativa de pessoas que seriam inclusive potenciais eleitoras. Precisa ignorar meio mundo, simplesmente fingir que não existe.

E o que o PT faz hoje nas eleições diante do surgimento de Marina? Cola mais uma vez o selo PSDB para reenquadrar a política nos seus eixos. Não importam os fatos, é tudo conspiração tucana. O fato de Marina conseguir capitalizar vários setores das manifestações não importa, pois é tudo PSDB. Infelizmente, o partido ficou preso na dicotomia e não consegue mais sair dela. Vive em um falso problema, porque Marina até pode ter muitos defeitos, mas o que ela representa não se resume ao PSDB. O pior é ver a militância menos engajada, aqueles que só se posicionam politicamente durante as eleições, afirmar sem problematizações o que André Singer chama de a “alma de Sion”, como se o PT ainda fosse um partido de oposição que seria a esperança lutando contra o medo (Singer contrasta na análise a “alma de Sion” com a “alma de Amhembi”, depois da Carta ao Povo Brasileiro e dos governos Lula). A denegação da realidade do que o PT se tornou – embora isso não queira dizer para sempre – é caricata. Fala-se do PT como se estivéssemos nos anos do primeiro Fórum Social Mundial lutando contra o capitalismo mundial. Infeliz ou felizmente, o tempo passou. A “alma de Sion” pode mesmo ser a única esperança para que o partido não se burocratize totalmente. É alentador ver que ela ainda vive em muitos corações da militância que até ensaiam a recuperação de Dilma. Mas a denegação esquizofrênica do conflito entre as duas almas é nociva. Se o PT vencer a eleição, certamente será uma disputa apertadíssima, provavelmente a mais difícil, como Lula recentemente reconheceu. Caso assim seja, que saiba rever os erros, descer do salto alto e encontrar as melhores alianças.

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2 respostas em “Onde o PT se perdeu

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