Por dentro ou por fora, a velha questão

Ainda é muito cedo para avaliar como se darão os próximos movimentos no jogo eleitoral. O crescimento de Marina é absolutamente previsível, já que os 20 milhões de votos que alcançou em 2010, é bom lembrar, vinham em um crescente no final das eleições. Além disso, a candidata foi montando uma razoável – embora diversificada – base eleitoral ao longo destes últimos quatro anos. Vale lembrar também e em contraponto o que recentemente declarou uma voz ligada ao MPL: Marina não é a “salvadora” das ruas. Mas apesar disso consegue se sintonizar com uma parte considerável daqueles que estavam lá. Diante do crescimento, era óbvio que uma avalanche de críticas viria, variando de um nível puramente difamatório e em certos momentos até preconceituoso para a exposição de argumentos procedentes contra pontos ainda indefinidos ou equivocados do seu projeto. Vou me ater a apenas dois pontos dentre os numerosos possíveis.

O primeiro é que Marina seria a volta à política econômica do PSDB e portanto um retrocesso em relação ao Governo atual. Talvez isso seja verdadeiro. De fato, Marina começou a campanha assessorada por economistas de viés mais “ortodoxo”, como parecem chamar essa tendência, dos que os dilmistas atuais. Mas a pergunta é: será que a administração da economia será tão diferente daquela que vem sendo executada ao longo dos últimos 12 anos? Aceito contribuições dizendo que sim, mas até agora não estou muito convencido. A crítica ao fato de Marina receber contribuições de bancos ou grandes empresas, convenhamos, é uma gigantesca hipocrisia. O problema no caso é o sistema político e o financiamento de campanhas, e a candidata mais poderosa certamente também recebeu uma gorda quantia da mesma fonte para os cofres da sua campanha. Esse raciocínio quando vindo do PT é meio engraçado: quando se trata de avaliar seu próprio Governo, o PT e a militância governista alegam a exigência de acordos e governabilidade; quando se trata de julgar os outros, parecem estar falando do ponto de vista de uma extrema-esquerda que recusa alianças com o capital e enfrenta o conservadorismo social no Brasil. É óbvio que alguns militantes gostariam que o PT fosse isso, mas infelizmente não é. Por isso, acho que deveríamos nos reservar a análise dos fatos do ponto de vista real, e não conforme convém para a defesa do meu partido.

Além disso, é preciso ver que Marina pretende acrescentar outro componente à equação econômica: o componente ecológico. O grande desafio que Marina se propõe é como continuar o ciclo de emancipação sem embarcar no desenvolvimentismo trabalhista que praticamente ignora a dimensão do impacto ambiental. Ao inserir a ecologia na economia, fazendo dela um componente estruturante do projeto econômico, Marina estaria escapando em alguma escala da forma como as coisas vêm sendo trabalhadas por direita e esquerda no Brasil durante os últimos 20 anos. Não pode ser a mesma coisa, ou Marina está simplesmente enrolando (talvez esteja, só o tempo dirá). Não devemos descartar, ainda, que a origem humilde e lutadora de Marina indica que dificilmente irá diminuir as políticas sociais. Se fosse possível comparar biografia pessoal e política com Lula, Marina poderia ser mesmo a etapa seguinte com uma melhoria qualitativa nessas políticas, em especial no problema da educação que está longe de ter sido enfrentado consistentemente pelo PT (apesar de inegáveis avanços, porém pouco radicais para a dimensão do problema). Tudo isso é obviamente especulação pura: admito que talvez esteja completamente errado e a eleição poderá prová-lo. 

Mas a pergunta que fica é: se Marina faz todas essas concessões, por que não ir logo com Luciana Genro, que adota um discurso de confronto inclusive do ponto de vista econômico? Não tenho resposta certa para isso. A primeira tateada na questão me parece vir de um certo desconforto com o economicismo extremado de alguma militância do PSOL. Se a candidatura não é anti-capitalista, não vale a pena. Eu acho essa uma posição respeitável, mas aí voltam as razões do post anterior sobre viabilidade. Além disso, tendo a crer que com um sistema político mais permeável às demandas sociais é possível desfazer a blindagem que a economia ganhou nos últimos anos. Sempre se pode alegar que o visível hoje em dia são governos de centro-esquerda ajoelhados diante do sistema financeiro e cuspindo na cara dos seus próprios eleitores. O fato é mais que preocupante, considerando o que acontece na França, por exemplo, em termos de direita radical. No entanto, especulo que Marina tenha um perfil e um significado diferente dos políticos da esquerda europeia, ressalvados os novos partidos como o Podemos espanhol. Uma mudança na política pode repercutir eventualmente na economia, ou no mínimo ganhar uma relativa autonomia para promover mudanças, em especial mudanças que qualifiquem a própria democracia. 

Isso me leva ao último ponto: será que Marina irá ceder ou não ao peemedebismo? É curioso, mas observado o que se escreve acerca dela percebe-se que é realmente impossível agradar a todos: alguns a criticam por aderir a X ou Y, outros por ser demasiado “ingênua” ou “individualista” e abandonar os partidos quando eles não estão de acordo com suas ideias. Até agora, na minha análise pessoal, as ações de Marina sempre tiveram coerência: ela tenta negociar e, quando as portas fecham definitivamente, parte para outra. Aconteceu com o PT, quando tentou negociar até ser definitivamente derrotada por Dilma na questão econômico-ambiental durante o Governo Lula, e depois no PV, quando concorreu por um partido nanico fazendo 20 milhões de votos, mas saiu também perdedora quando se tratou de renová-lo. Pode ser insuficiência na negociação? Pode, até pode. Mas confesso que prefiro ver rupturas claras e com motivos seguros que acordos esquisitos e concessões mutiladoras. É assim que tenho observado Marina. Suas brigas com o PSB parecem sempre vir do fato de rejeitar esse tipo de barganha, como por exemplo a de dividir palanque com Alckmin em São Paulo ou Beto Richa no Paraná. Se o PSB não gosta, melhor, é sinal que ela já está lutando internamente ao seu próprio grupo contra a fisiologia. E mais: o próprio PSB não pode reclamar quando aceitou servir de sigla provisória até a Rede ser criada. O que está difícil de enxergar é que são dois partidos, não um.

Finalmente, a última e ainda pertinente acusação: se é assim, visão de ruptura, por que aceitar o Beto Albuquerque, que defendeu politicamente coisas inadmissíveis durante sua atuação parlamentar, e não, por exemplo, ir com Luciana? Já respondo. Antes mais outra, suscitada em um texto do João Telésforo: não estaria Marina, ao invocar o discurso da “união”, repetindo uma chavão da política que vai ser digerido pelo peemedebismo? Minha resposta a essa última questão é que a premissa é equivocada. Com isso, respondo às duas ao mesmo tempo. O que Marina está propondo, salvo equívoco, não é uma “união maior”, mas um reposicionamento das peças. Ela não propõe unir os opostos, diluindo a política, mas formar um bloco que borre as diferenças partidárias para enfrentar outro bloco político. Não há – e vejam como isso parece combinar com a biografia de confronto descrita no parágrafo anterior – a busca de uma “acomodação” dos opostos em uma conciliação maior, mas sim um confronto político em que os polos não serão definidos pelos partidos. É talvez nesse sentido que uma parte dos movimentos de 2013 sente-se identificada com Marina. Ela rejeita a definição de gerenciar o consenso. Ela não quer ser gerente. Seu propósito é político e de dissenso, mas um dissenso que se estabelece fora dos esquadros demarcados pelos partidos. E por que Luciana não pode fazer isso? Basicamente porque Luciana é uma figura transcendente ao jogo. Sua força vem do fato de estar fora. Marina, ao contrário, está dentro. Luciana recusa o jogo, quer quebrar o tabuleiro. Perguntada sobre como criaria o imposto sobre fortunas, ela respondeu que só com apoio popular. Marina também quer contar com apoio popular, mas jogando com as peças que estão aí. Algum problema com a estratégia de Luciana? Não, mas aqui vai meu ceticismo com uma mudança transcendente dentro do sistema atual. Se for para ocorrer uma mudança radical desse porte, é difícil que saia pelos canais restritos da democracia atual. Marina, ao contrário, tem a imanência a seu favor: é por dentro, mas com apoio da “sociedade” (odeio esse termo), que ela pretende alavancar o processo político. 

A questão, no entanto, sobrevive: é possível transformar radicalmente por dentro ou só uma ruptura por fora é apta para atingir o alvo? A estratégia por dentro pode desaguar em mais do mesmo, pode ser mais uma nota na mesma sinfonia; a ruptura por fora, por outro lado, pode se acomodar nas próprias ideias, deixando escapar oportunidades pontuais (mas importantes) de transformação. Seguir uma ou outra ou as duas ao mesmo tempo? Uma velha aporia da política que não cansa de nos interpelar.       

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Uma resposta em “Por dentro ou por fora, a velha questão

  1. Excelente análise. Vê-se aqui um pensamento na medida do possível livre, tentando apreender a política como fenomenológica. Essencial nestes tempos de hoje.

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