Marina ainda é um enigma

O texto de Luciana Genro atacando Marina Silva como “segunda via do PSDB” é tão verdadeiro que chega a ser óbvio. Não que o título seja verdadeiro (e até aponta um certo petismo bem escondido em Luciana), mas o conteúdo efetivamente corresponde aos fatos: Marina, acolhida como o nome mais representativo para as ruas de 2013, não representa uma alternativa anti-capitalista e, modo geral, mantém o discurso ecológico dentro do esquadro econômico atual. Além disso, escolheu uma equipe de economistas com viés bem próximo ao PSDB. Tudo verdade, e muito interessante Luciana ter trazido essa questão em vez do batido “fundamentalismo” de Marina (que simplesmente não existe: Marina não é fundamentalista, pois fundamentalista é quem quer que suas crenças pautem a esfera pública; Marina é, ao contrário, uma secularista que separa suas crenças privadas das posições públicas. Sua posição está muito mais próxima do ecumenismo que do fundamentalismo. Assim, mesmo sendo de uma tendência religiosa que vai contra diversas questões importantes no campo político-moral atualmente, ela se priva de opinar porque sabe estar contaminada pela sua visão religiosa. Isso é nada menos que a visão liberal sobre o tema: separação entre discurso público e discurso privado.)

O fato de o texto ser verdadeiro, no entanto, não significa que ele esgota os fatos. O que Luciana não mencionou, por exemplo, é que nem toda juventude que foi as ruas em 2013 era de esquerda radical. Havia várias pessoas de centro-esquerda e centro-direita que estavam protestando contra o que Marcos Nobre chamou do “peemedebismo”, isto é, um modo de fazer política com base na conquista da super-maioria parlamentar por meio da fisiologia, tornando a política institucional impermeável às demandas da sociedade civil. Esse protesto é legítimo e, como procurei salientar em um post recente, não é exclusivo da esquerda. Usei uma ideia antiga de Renato Janine Ribeiro, que dividia o PT e PSDB em “democráticos” e “republicanos”, para expressar essa polaridade. Essa juventude corresponde na sua diferença ideológica à imagem de Ribeiro, só que não aceita mais a mediação dos dois partidos que capitaneavam a cena.

Sustentei logo após as eleições de 2010 que Marina capitalizou os votos dessa juventude descontente, à direita ou à esquerda. 2010 antecipou as ruas de 2013. Alguns chamaram isso de anti-política, algo muito engraçado se esse pessoal acha que política é negociar com Renan Calheiros ou José Sarney e o resto é “sonho”. Para esses, o nome certo não é “pragmático”, mas sim “conformista”. A política não se reduz ao Estado (na realidade, o Estado é geralmente a polícia da política) e essa “anti-política” pode ser justamente o que resta da política quando ela se viu reduzida a negociatas, hipocrisia, cinismo e burocracia por parte das instâncias mediadoras oficiais. O nome Marina – em face da sua história muito parecida com Lula e de sua convicção que a coloca sempre batendo de frente com interesses peemedebistas (caso do PV após as eleições, por exemplo) – sintetiza um sentido de integridade na política que poderia desobstruir os canais de comunicação entre sociedade e Estado, contrapondo-se ao modo que PT e PSDB consolidaram de governar. Para isso, as armas são fracas: a própria Marina admite que terá que chamar os “melhores” do PT e PSDB e tentar aglutinar um bloco heterogêneo de alianças que enfrente o “peemedebismo”. É um projeto quase impossível, mas a pauta é essa. Ao contrário do que se diz, mesmo Eduardo Campos, bem mais próximo do peemedebismo que Marina, já avisava que os grandes coronéis do Congresso Nacional iriam para a oposição caso governasse.

A questão que Luciana coloca é importante e merece ser levada a sério. Mas o problema é o seguinte: o que o eleitor de Luciana quer? Vamos ser pragmáticos (não conformistas): Luciana não tem chance de se eleger. Logo, o voto em Luciana (que não só não descarto, como inclusive cogito fortemente e assinei o manifesto) é um voto tático dentro da estratégia mais geral de empurrar o PT para a esquerda caso vença as eleições. Se Aécio vencer, ele vai estar se lixando para o eleitorado de Luciana. É para que o PT deixe de ser um balcão de negócios dos piores interesses nacionais, como atualmente é, que o eleitor de Luciana tenta marcar uma posição à esquerda. Com muitos votos, a pressão sobre o próximo governo poderia ser tão significativa que o empurraria contra seus aliados atuais, forjando não uma aliança à esquerda (duvido, e nem sei se desejo, que PT e PSOL se entendam tão cedo), mas um jogo de forças que se contraponha aos interesses hegemônicos que hoje o PT representa. Claro, também há o voto “ideológico” no PSOL, daqueles que só votam em socialistas (ou ecossocialistas) e não estão nem aí para o resultado das eleições, pautando-se nos seus próprios termos e usando o ativismo como mecanismo de fazer política. Totalmente legítima essa posição (assim como a do voto nulo), nem preciso dizer. Nada de “purismo” nisso. Sem essa posição, a política pode ficar travada nos seus próprios termos, tornando-se (como é o caso) mero aparato de fisiologia e conservação do status quo

O problema é que o potencial eleitor de Marina quer vencer a eleição. E ele vê em Marina essa força. Tendo feito 20% dos votos na eleição passada e estando bem situada nas pesquisas, Marina tem chance real de vencer as eleições. Boa parte dos que protestaram no ano passado, apesar das dúvidas sobre a importância da política institucional, ainda a veem como parte importante do processo político. Algo que, apesar da putrefação do sistema, ainda faz diferença. Nesse caso, a questão tática muda de foco em relação ao foco de Luciana. A alternativa não é mais votar taticamente para pressionar estrategicamente, mas assumir a cabeça do projeto. Marina tem isso; Luciana, não. Boa parte do eleitorado de Marina identifica-se com as demandas das ruas de 2013 e a vê como alternativa não porque ela represente todas as demandas dos movimentos (seria impossível, aliás, já que são contraditórias entre si), mas porque ela é uma força real capaz de vencer as eleições. Ela aglutina essa parcela significativa de juventude descontente com o sistema político à direita ou à esquerda. Meus amigos da esquerda gostariam de desprezar a primeira parcela, chamando de “coxinha” ou coisa do gênero. Acho, no entanto, que os tipicamente coxinhas vão com Aécio mesmo. Marina vai abocanhar uma fatia que é moderada politicamente, mas quer mudanças radicais nas instituições. A questão da corrupção, tão desprezada pela nossa esquerda, é um catalisador desse processo. Como o PT nega-se a debater o assunto, já que prefere morrer afogado com os companheiros do mensalão, não consegue visualizar que boa parte dos indignados com a corrupção não são hipócritas tucanos, mas gente que efetivamente está revoltada com a deterioração da democracia em plutocracia, da política em fisiologia. Isso vale inclusive para uma parte do eleitor de centro-direita.

Só isso? Não, claro. Tudo vai depender de como Marina vai se posicionar no cenário. Se suas propostas forem excessivamente conservadoras no campo econômico, vai perder os eleitores de esquerda que estiveram nas ruas e querem mudanças radicais. Se ela enveredar pelo proselitismo religioso, muda todo cenário. Se, por outro lado, ela conseguir se consolidar como candidata que nega o status quo e enfrenta o peemedebismo, vem forte. O discurso da sustentabilidade é fraco e eu preferiria falar, por exemplo, de decrescimento, mas digamos que o fato de Marina colocar a questão ambiental como estrutural, não setorial, muda bastante as coisas. Todas essas posições que só ficarão claras ao longo da eleição acabarão sendo decisivas para que alguns decidam o voto, por exemplo, entre a posição radical de Luciana Genro ou a posição moderada, mas com chance de vitória na Realpolitik, de Marina. Nisso, Dilma e Aécio estão emparedados. Dilma continuará tentando agradar gregos e troianos e, com isso, obviamente trabalhando para os gregos, ou tornará o discurso mais agudo? Em todo caso, boa parte do eleitorado de esquerda não vai votar nela de jeito nenhum. Já Aécio, salvo melhor juízo, acho que foi para o brejo. É nesse duelo entre Marina e Luciana que me parece estar um dos pontos interessantes da eleição, bem mais que o entre Dilma e Aécio (esse festival de baixarias). Nisso, mais uma vez a figura de Luciana será excelente para a eleição: ao emparedar Marina em torno das questões cruciais que diferem direita e esquerda, Luciana obrigará Marina a tomar posição. E isso poderá fazer a última perder ou ganhar votos. Aguardemos os próximos capítulos.

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7 respostas em “Marina ainda é um enigma

  1. Li o texto de Luciana e achei bem fraco. Resquícios de filhinha da buguersia revoltada contra o papai… Talvez se tivesse passado por metade das “coisas” pelas quais Marina Silva passou seria mais respeitosa com a história de vida, trajetória política e fé de Marina (da qual não compartilho, mas respeito, por ser gay, ateia e filha de uma mulher evangélica linda e que me enche de amor). Parece que “esse povo de esquerda” só sabe dialogar com negro pobre quando o negro pobre está em situação de inferioridade, o que não é o caso de Marina, pois só pelos textos dela que li na internet ( citando Edgar Morin, Hanna Arendt, entre outros) parece ter uma capacidade intelectual bemmm superior a de Luciana.

  2. Ótima análise, uma voz lúcida no mar de esquizofrênicos que insistem em infestar a minha TL com a proximidade cada vez maior das eleições

  3. Ainda meio em dúvida da utilidade da informação, e já contrariando meu firme propósito de não fazer comentários contra a eleição de Marina Silva (já que, dentre as (o) candidatas (o) que tem chance de se eleger ela é a “menos ruim”) vou colocar aqui um par de links que, a meu ver, ilustram o umwelt político de Marina Silva. Aproveito-me assim da inteligência e da honestidade desse espaço do Moysés para que isso aqui não soe mero denuncismo ou provocação.

    O primeiro link (http://www.ac24horas.com/2013/08/22/governo-do-acre-autoriza-transferencia-de-creditos-de-carbono-para-companhia-de-servicos-ambientais/) veicula a notícia da aprovação de uma medida legislativa que conferia ao governador Tião Viana o poder de transferir os “créditos de carbono” à Companhia Agência de Desenvolvimento de Serviços Ambientais do Estado do Acre S/A (cf. tb.: http://al-ac.jusbrasil.com.br/noticias/100656958/aleac-aprova-mudancas-no-sisa-e-transferencia-de-creditos-de-carbono-para-agencia-de-servicos-ambientais). Esta empresa havia sido também criada através de medidas legislativas, pela promulgação da lei do SISA (http://www.ac.gov.br/wps/wcm/connect/fc02fb0047d011498a7bdb9c939a56dd/publica%C3%A7%C3%A3o_lei_2308_ling_PT.pdf?MOD=AJPERES). Inicialmente pensada sob o modelo da parceria “público-privada” (nós sabemos bem o que isso geralmente significa), a agência, que nunca primou pela transparência ou qualquer forma de “accountability”, foi se tornando em um curto espaço de tempo uma empresa exclusivamente privada. Esta empresa, atualmente, é presidida pelo marido, companheiro, interlocutor e etc. da Marina, Fábio Vaz (cf., pex. http://www.jusbrasil.com.br/diarios/44482965/doeac-caderno-unico-19-12-2012-pg-70).

    Na minha opinião, isto ilustra bem os limites e os perigos aos quais devem estar atentos aqueles que optam por apoiar a candidatura de Marina pelo seu ambientalismo. Que fique claro que, mais do que provavelmente, se trata de um ambientalismo liberal, que sob a bandeira da preservação conservacionista (vide os problemas na concepção do ICMBio, e os conflitos deste com os moradores, que são os verdadeiros “gestores” das RESEX), cuida muito bem da conta bancária e da permanência do projeto de lobby político de certos grupos (ao menos no Acre)…

  4. PSDB é infinitamente melhor que PT e PSB. Queria que me dessem um exemplo de onde o liberalismo fracassou, e onde o estatismo teve sucesso. Não existe exemplo. Simples assim.

  5. Na minha opinião Luciana nem sabe direito o que diz, um exemplo é qndo falou q crack era droga lucrativa para traficantes. As gafes que cometeu no debate ficou claro que ela não tem condição nem de se apresentar novamente a eles. Sinceramente, PSOL não precisava passar por isso!
    Quanto a Blablarina, me poupe! Ela tem que ser acompanhada por Mr. M para mostrar como ela vai garantir efetividade nas proposta que vem apresentando.
    PT com a CONTINUAÇÃO da corrupção que acompanha o Brasil desde desde o começo da história, ainda é a melhor opção. Levando em consideração a quantidade de países que existe no mundo, e a classificação do Brasil desde que a esquerda petista entrou no poder, o eleitorado é extremamente limitado para acreditar no que mídia apresenta e desprezar o que está explícito!
    Educação nem preciso falar…O governo federal falta pouco pegar a população pelo braço e levar até as universidades, escolas, enfim…
    Aécio, parece bolinha e amigos. Tão idiota qnto. Quando vai “discursar” , sem a menor desenvoltura, se enche e acha que o que disse foi o máximo. Um babaca nato!

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