Filosofia analítica e filosofia… continental (?)… oi?

Uma das polêmicas mais estéreis do campo filosófico é a famosa polêmica entre filosofia analítica e a filosofia dita continental. Vou me poupar de defini-las, já que se você se interessou em ler o post provavelmente já sabe o que está em jogo.

Primeiro, nada estranho que estudantes se interessem por filosofia analítica. Os indivíduos podem estar fascinados pela lógica formal e em resolver seus problemas, pensando nas suas aplicações por exemplo na programação ou questões de inteligência artificial. Tampouco estranho que outros estudantes prefiram usar a linguagem cartesiana (tida como a “clara”) para se expressar e formular problemas, aproximando-se de filósofos e problemas filosóficos que se põem a partir desse referencial (por exemplo, o problema do dualismo mente-corpo). Absolutamente nada estranho aqui, é uma opção totalmente válida e nem vou entrar em qualquer tipo de análise do estilo “sociologia da ciência” para explicar. Digamos apenas que é a mesma opção de quem prefere se dedicar a Platão ou Spinoza.

No entanto, o problema de toda oposição não é o polo que a define, mas o outro. Quando pensamos em negro e branco, o polo que importa não é o branco, tido como transparente e universal, mas aquele que foi construído para ser marginalizado (nem peguei dicotomias mais polêmicas, apenas uma que se baseia claramente em um conceito socialmente construído: a raça). É para definir o negro que existe a oposição, e não apenas o definir: é para o subordinar que ela existe.

Dito isso, passamos ao seguinte ponto: o que importa na dicotomia entre filosofia analítica e filosofia continental não é o primeiro polo, mas o segundo. O que é, afinal, filosofia continental? A resposta é: tudo que não é analítico. Sendo assim, criou-se um rótulo para jogar no mesmo saco uma série de diferentes correntes e tradições da filosofia, tomando-as como um corpo mais ou menos único que se opõe à filosofia analítica. Esse rótulo unificador, portanto, espreme uma série de posições completamente diferentes em um único selo, como se fosse possível reduzir dois milênios de filosofia à ideia de “continental”. Se pensarmos, por exemplo, na diferença significativa entre as tradições francesa, alemã e italiana, fica risível reduzir tudo ao rótulo de “continental”. Elas são tão diferentes entre si quanto são diferentes da filosofia analítica. Por exemplo, a filosofia alemã é majoritariamente kantiana em alguma escala, enquanto a filosofia francesa em várias correntes pode simplesmente ignorar o pensamento de Kant (é o caso da tradição que vai de Bergson e Bachelard até hoje Serres e Latour). Vejam, até os filósofos da tradição analítica quando resolvem falar disso “adequadamente” se atrapalham. Em um ótimo livro, por exemplo, Lee Braver qualifica a polêmica entre analíticos e continentais a partir do duelo entre realismo e anti-realismo. Além da classificação ser problemática, já que bem olhado o anti-realismo é bem mais pop entre os analíticos que entre os ditos continentais (Derrida, por exemplo, que para Braver é a culminância do anti-realismo, está mais próximo do realismo que do anti), filósofos que os próprios analíticos têm como manifestação da continentalidade, como é o caso de Deleuze, ficam sem lugar. (Deleuze, para quem não sabe, era um metafísico realista.)

O que está em jogo então nessa dicotomia que – como gostam de dizer alguns analíticos – é “obviamente falsa”? A redução da filosofia a duas correntes, simplificando tudo que não é analítico como “continental”, na verdade é uma manobra que permite distinguir entre a filosofia e a não-filosofia. Ao reduzir estupidamente correntes completamente diferentes a um rótulo único, muitas vezes o analítico está tentando simplesmente dizer que existe uma forma legítima e uma ilegítima de filosofar. Muitas vezes essa forma vem definida pelo estilo: filosofar é “argumentar claramente”, o que significa utilizar linguagem cartesiana para expor problemas. Mas o cartesianismo não é apenas um paradigma filosófico que os ditos “continentais” muitas vezes põem em disputa? A relação com a linguagem, no caso de filósofos como Derrida, não é totalmente diferente que por exemplo um Brandom? Nem vou entrar nesse mérito que, em todo caso, seria possível. Mas só um estilo é válido na filosofia? 

Existe ainda uma área mais “benevolente”, digamos assim, que considera que a filosofia continental é simplesmente um exercício de “história da filosofia”. Assim, a filosofia é dividida entre aquela que trata de história e aquela que trata dos problemas. Uma forma sutil de dizer que existem os filósofos atuais e os antiquários. Não nego que muitas vezes existem estudantes embriagados com um filósofo que não ultrapassam a dimensão simples da história da filosofia, tornando todo debate oco, mas essa corrente sabe que a filosofia “continental” tem outra forma de lidar com a história e, de modo mais geral, com o tempo? Ela conhece as problematizações que foram se acumulando em Hegel, Marx, Heidegger e Foucault acerca das relações entre pensamento e temporalidade? A resposta é: geralmente não, não sabe.

Qual é o ponto, então? O ponto é que não existe filosofia analítica e filosofia continental, mas simplesmente filosofia. Essa dicotomia é inválida para todos os efeitos porque foi mal construida. Ela é um péssimo instrumento – surpresa! – analítico para classificar o campo. Uma ferramenta conceitual equivocada que joga o “resto” não-analítico em um saco só. Mas, se você observar o campo filosófico, vai ver que analíticos, hegelianos, kantianos, deleuzianos, derridianos etc ocupam posições bem distribuídas. Em outros termos, o que existe é o campo da filosofia e a filosofia analítica é um entre muitos, não um dos polos que divide esse campo em dois. O que surpreende quando dizemos – como certa vez disse meu amigo Charles Borges – do sucesso da filosofia analítica não é tanto pelo fato de que os problemas que ela lança são inválidos ou desprezíveis, mas que os estudantes estão importando essa dicotomia ftotalmente errada. E pior: estudantes que, ao contrário dos colegas anglo-saxônicos, tiveram geralmente acesso à “filosofia continental”. Eles sabem que o professor que estuda Levinas é completamente diferente do que estuda Spinoza, mas fingem que não existe diferença. Por isso, agora vou para a parte mais dura do texto.

Por que uma dicotomia tão forçada e obviamente falsa vingou no mundo anglo-saxônico e foi exportada para outros países? A resposta é complicada. De modo geral, no entanto, dá para dizer que a atitude dos filósofos que procuram policiar a filosofia, dividindo entre a legítima e a ilegítima (mas sem entender quase nada da última), é uma atitude de censura. Assim, de certo modo o que eles querem é fazer o que todo censor sempre pensa estar fazendo em nome do Bem: “proteger a juventude das más influências”. Não por acaso o fundador da filosofia enquanto disciplina foi um adepto da censura, como Alexandre Nodari mostrou, entre muitas outras coisas, na sua tese sobre o assunto. Um paradoxo, já que Platão funda a filosofia com a censura à sofística e à poesia em nome da proteção da juventude, e seu exemplo de filósofo é justamente o Sócrates que foi acusado de corruptor da juventude. Em outros termos, ser acusado de corruptor da juventude, como várias vezes os filósofos analíticos “durões” acusam Derrida e Foucault, é um tremendo elogio, de Sócrates a Camila Jourdan.

Assim, na imagem bisonha da cabeça dos “durões”, os inúmeros congressos, seminários, debates, artigos e teses escritos em torno de Foucault, Deleuze e Latour são pura besteira. São adolescentes enfeitiçados por “má poesia” que ficam discutindo coisas sem sentido. Falsos doutores, impostores que seduzem a inocente juventude para essas teorias que não dizem nada sobre nada, pura enrolação sem nenhum sentido que a desvia da verdadeira filosofia. Pobres adolescentes acéfalos e mestres mal-intencionados. Cruel lavagem cerebral. Convenhamos que essa descrição é, para dizer o mínimo, very unreasonable, como gostam de afirmar os anglo-saxônicos. O mínimo que se poderia conceder – considerando o “razoável” – é que tantas pessoas mobilizadas em torno desses pensadores deve significar que eles dizem coisas com sentido. Apenas com razoabilidade chega-se nisso. 

O que está em jogo então é simplesmente a hegemonia de um paradigma filosófico imposto porque está atrelado ao núcleos de saber que correspondem às posições de poder na sociedade. É o momento que o analítico me pega no contrapé e diz: “te peguei no flagra, foucaultiano, você está dizendo que a verdade é apenas um efeito do poder!”. Não, não estou dizendo isso (e nem Foucault afirmou). Estou dizendo que algo tão obviamente falso quanto a existência de algo chamado “filosofia continental” somente pode ser aceito e chancelado se é enunciado por alguém bastante poderoso. Não estou dizendo que a filosofia analítica seja imposta pelo poder, mas que a descrição da filosofia analítica em torno do seu polo rival sim. Algo tão porcamente descrito só pode “colar” se vem do polo dominante. 

Vamos partir do seguinte exemplo: como brasileiro, penso que a “verdadeira filosofia” é a filosofia antropofágica. A metafísica ocidental, na qual se baseiam as tradições alemã, francesa e anglo-saxônica, por exemplo, é uma simplesmente cristianização do platonismo. Assim, divido o campo entre filosofia antropofágica, de raiz brasileira, e filosofia cristã, de raiz europeia e também importada pelos EUA. A pergunta é: quem vai dar bola para isso? Quase ninguém. Por quê? Basicamente porque a minha enunciação vinda de um polo geopolítico marginal é fraca para dividir o campo. Quando um analítico norte-americano, ao contrário, faz uma distinção absurda em que qualifica como “continental” tudo que não pertence ao seu campo e cola um monte de rótulos abusivos (“subjetivismo”, “relativismo”, “nonsense” etc.), todo mundo baixa a cabeça e acha que ele está dizendo coisas profundas, mesmo que demonstre um completo desconhecimento do que está falando. Em outros termos, como disse o Idelber Avelar no seu “The letter of violence”, dizer que você está falando inglês, mas poderia estar falando qualquer língua é uma piada de mau gosto. Não é “por acaso” que nos vemos falando inglês em eventos no Brasil, na Alemanha, na China ou na Tailândia, e o “nativo” do inglês, quando enuncia a coisa no seu idioma, não está em posição neutra diante de uma miríade de diferentes línguas que poderiam ser usadas. Aliás, a própria ignorância provinciana dos norte-americanos em torno de outras línguas, citando apenas livros em inglês, é sintoma disso. Se você faz isso no Brasil, é criticado por não ser na língua original. Nos EUA, tudo bem. 

Um último exemplo e concluo: Simon Blackburn, que é um importante filósofo do campo analítico, certa vez deu entrevista sobre a contribuição de Derrida para a filosofia. No meio da entrevista, Blackburn diz “meus amigos derridianos dizem que Derrida escreve isso e não escreve aquilo”. Pera aí: é impressão minha ou você está dando uma entrevista sobre um filósofo que NÃO leu? Não seria o mínimo de “honestidade intelectual” você simplesmente se abster de opinar sobre o que desconhece totalmente? Blackburn chega a julgar a obra de Derrida sem ao menos tê-la lido. Você vai me dizer que isso não tem nada a ver com poder? 

Em síntese, estou propondo que simplesmente acabemos com a divisão dessa forma dual. Para começar, vamos rachar os analíticos não apenas, como eles próprios se descrevem, entre os da lógica formal e os da linguagem ordinária, mas entre os analíticos totalitários e os pluralistas. Os totalitários são aqueles com vocação censória que, na linha de Ayer e cia., julgam as coisas sem entender, falam sobre o que nunca leram e acham que seu paradigma filosófico é único legítimo. Os analíticos pluralistas, ao contrário, são aqueles que reconhecem a multiplicidade de abordagens filosóficas, ainda que prefiram o tipo de indagação analítica. Caso hoje, por exemplo, de Brandom, Brassier, Harman e outros. O que não dá para aguentar mais são longas digressões sobre o que não existe. Para começar, honestidade intelectual no mínimo.           

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21 respostas em “Filosofia analítica e filosofia… continental (?)… oi?

  1. (aproveito que já tava discutindo com vc em outro post)

    “De modo geral, no entanto, dá para dizer que a atitude dos filósofos que procuram policiar a filosofia, dividindo entre a legítima e a ilegítima (mas sem entender quase nada da última), é uma atitude de censura.”

    Discordo. Só seria censura se eles realmente tentassem impedir que outros divulgassem suas idéias. Existe uma diferença entre discordar de outra pessoa (ainda que seja de maneira muito veemente) e procurar realmente impedir que outra pessoa manifeste suas idéias (no sentido de banir certos pensamentos). Faço a mesma crítica a este outro comentário: “O que está em jogo então é simplesmente a hegemonia de um paradigma filosófico imposto porque está atrelado ao núcleos de saber que correspondem às posições de poder na sociedade.” Em que medida a filosofia analítica estaria sendo imposta contra as pessoas? A filosofia “continental” (concordo com vc, esse termo não tá legal) foi proibida por lei?

    abraço!
    Portugal

  2. Hmm, tudo bem, discordo do seu conceito de censura (que me parece que relativizou o que efetivamente seja censura).

    Quanto à segunda parte do meu comentário, basicamente repeti o que havia dito antes. Como eu acho que a sua idéia de “censura” está inadequada (pq aí parece que as pessoas não podem discordar umas das outras nunca do contrário é censura e, portanto, atitude reprovável), acho que vc está errado em dizer que houve a imposição de um paradigma filosófico.

  3. Vc concordaria comigo pelo menos que vc relativizou os conceitos de censura e de imposição?

  4. Não falei de imposição, falei de hegemonia. Acho que vc é capaz de perceber a diferença.

    Tampouco relativizei o conceito de censura, já que o retirar do âmbito jurídico não significa relativizar. A psicanálise, por exemplo, usa o termo em outra situação e de forma correta.

    De resto, você viu chifre em cabeça de cavalo no texto.

  5. Vc concordaria comigo então que vc utilizou a palavra censura de maneira incorreta e que deveria ter utilizado outra palavra para deixar o seu texto claro (p. ex., colocar “de gente chata que adora dizer que eu estou errado” ali)?

    Ficaria assim:

    De modo geral, no entanto, dá para dizer que a atitude dos filósofos que procuram policiar a filosofia, dividindo entre a legítima e a ilegítima (mas sem entender quase nada da última), é uma atitude de gente chata que adora dizer que eu estou errado.

  6. Não confunda tua sagacidade (isto é, capacidade de dar uma resposta “espertinha”) com efetivamente rebater um argumento. Para que a última hipótese ocorra, é preciso ter escutado o que o opositor está dizendo. O que não é o caso aqui, já que conseguiste a façanha não apenas de picotar e descontextualizar o texto, mas até mesmo fazer isso com um comentário de 4 linhas. A discussão vai sendo encurtada para que caiba nos eixos em desejas colocar. Nesse caso, não conta comigo para te fazer se sentir esperto. Não posso continuar uma discussão em que o opositor coloca todo tempo palavras na minha boca que não foram ditas e projeta suas fantasias do que eu estaria dizendo sobre o que eu efetivamente estou dizendo.

  7. Ué, se vc se sentiu ofendido, eu peço desculpas. Minha intenção não era ofender vc, queria apenas discutir com vc o texto que vc escreveu. Não to controlado o tempo das suas respostas. Por favor, responda à vontade. Se vc não vier a responder, pior para mim que queria entender as suas opiniões (e aprender um pouco sobre filosofia). Outra coisa importante: não pretendi colocar palavras na sua boca ou “projetar minhas fantasias” a propósito do que vc estaria falando. Se eu não entendi o que vc quis dizer, eu não ficaria ofendido caso vc explicasse pra mim como se eu tivesse oito anos de idade. Em todo caso, explico meu método:

    Eu disse que discordava de vc e vc me disse que a censura jurídica não é a única forma de censura que existe e que eu tinha alterado o sentido das suas palavras na minha abordagem do segundo excerto que havia citado. Aí eu perguntei se vc não achava que tinha relativizado os conceitos de censura e de imposição. Vc discordou de mim e disse que tinha usado censura em outro sentido. Além disso, vc explicou que o ponto importante ali na parte da imposição seria a hegemonia do paradigma e não o emprego da palavra “imposto”. Pois bem, já deve ter ficado claro a essa altura do campeonato que eu discordo do seu uso da palavra “censura” e do seu uso da palavra “imposto”. Se vc não relativizou estas palavras, então vc as empregou de maneira inadequada. Eu abandonei a idéia de questionar vc quanto ao emprego da palavra “imposto” simplesmente porque não consegui obter bons resultados (num primeiro momento, vc me disse que eu tinha alterado o sentido do texto, num segundo momento, vc me disse que eu não tinha prestado atenção ao resto da frase). Tá, e aí? Bom, no fim, eu perguntei a vc pelo que significaria “censura” no seu texto. Novamente, vc não é obrigado a responder (obviamente). Igualmente, se vc não gostou da maneira como eu perguntei, pior para mim que queria entender as suas opiniões e aprender um pouco sobre filosofia.

    Eis o que penso:
    Existe uma polêmica nos EUA (e no resto do mundo tb, mas particularmente nos EUA) entre criacionismo e evolução. Os criacionistas afirmam que os cientistas não podem usurpar a exploração do conhecimento apenas para si e que o debate em torno de questões polêmicas deve ser permitido. Os cientistas, por outro lado, afirmam que cada qual pode acreditar no que quiser, mas que criacionismo não pode ser ensinado nas escolas pela falta de embasamento empírico que apresenta; eles afirmam, ademais, que evolução é algo verdadeiro e que isso deve ser, portanto, ensinado nas escolas e nas Universidades (os cientistas estão com a razão obviamente). Parece-me que vc tá aludindo a um problema semelhante. Vc tá brabo pq mtas pessoas na academia dizem que vc tá errado. Além disso, vc afirma que o debate deve ser permitido. Pois bem, eu afirmo que a sua liberdade de expressão não está sendo tolhida da mesma forma que a liberdade de expressão dos criacionistas não está sendo tolhida nos EUA. Se vc fica academicamente frustrado com os rumos que o estudo de filosofia têm tomado nas Universidades, isso é outra história completamente diferente. O fato é que vc não está sendo censurado. É normal que nossas idéias sejam desafiadas na academia. Existe ainda um outro problema a que vc aludiu no texto que é o problema das pessoas que não sabem nada de filosofia “continental” e que mesmo assim se põem a opinar a propósito desta matéria (novamente, eu concordo com vc no sentido de que filosofia “continental” é um termo ruim, eu o utilizo apenas para facilitar a argumentação). Nisso, evidentemente, eu concordo com vc completamente. Passa por tolo o sujeito que decide opinar sobre problemas complexos sem ter a menor noção acerca do objeto do problema.

    Enfim, abraços Moyses. As suas aulas foram provavelmente a única coisa que me fizeram continuar lá na faculdade (o primeiro semestre da FD era horroroso: Alcebíades, Saldanha, discípulos do Saldanha, Alfredo Flores e etc).

  8. Moysés, umas coisinhas:

    1) Você outro dia postou no Facebook um texto muito instigante sobre Espectros de Marx. Deixe de ser preguiçoso e poste isso no blog.

    2) Foi intencional o uso de um estilo aparentado ao dos analíticos em vários pontos da argumentação? Se foi, achei bacana como estratégia.

    3) Ultimamente, só de birra, tenho me referido aos auto-intitulados analíticos como “tradição anglo-saxã”. É birra mesmo, e o motivo dela é fazer o negativo exatamente do que você argumentou na primeira parte.

    4) Acho importante ressaltar alguns aspectos práticos da questão, isto é, como se manifesta esse conceito de poder, que pode ficar nebuloso. Um deles é o recorte de um campo bem delimitado e limitado (ou, como fariam muitos derridianos: (de)limitado) para o exercício universitário da filosofia. Isso facilita a departamentalização, a designação dos periódicos (falando neles, ver abaixo), as referências cruzadas. Isso faz parte de uma monetização (e grande parte do que tenho trabalhado nos últimos anos é uma tentativa de demonstrar como a monetização é uma instância da lógica de inscrição, que se desdobra em milhões de formas na era digital-microeconômica) da produção acadêmica e intelectual que condiz perfeitamente com o desenvolvimento da universidade no modelo americano do século XX, e agora mundial (Bologna está aí que não me deixa mentir).

    5) O quinto ponto, na verdade, é só o quarto separado: isso me parece uma espécie de “nova escolástica”. Não me entenda mal, “escolástica” aqui está sendo usado como paradigma de um pensamento autossuficiente e avesso à multiplicidade. Ou seja, sempre há alguma escolástica no mundo universitário e não é à toa que tantos grandes transformadores do pensamento se mantiveram, por querer ou não, fora da universidade.

    6) Prometi falar de revistas, mas já estou querendo terminar. Só lembrando que o sistema de peer-review + ranking de citações etc. é o ápice disso que chamei de “monetização”, que está no cerne dessa “escolástica” do ponto anterior. É um sistema brilhantemente talhado (sério, é uma inteligência digna de Moriarty) pra determinar automaticamente, ou melhor dizendo, logaritmicamente, o dentro e o fora, o superior e o inferior etc. É um instrumento imprescindível na censura (ou chamem como quiser, rsrsrsrs) que você mencionou.

    7) Escrever em tópicos numerados é típico de quem se acha um filósofo analítico…

  9. “É um instrumento imprescindível na censura (ou chamem como quiser, rsrsrsrs) que você mencionou.”

    Pois é cara, esse é o meu ponto. Não é um sistema de censura. A gente pode discordar do sistema, dizer que está errado e etc, mas não é um sistema que tá efetivamente impedindo vc de dizer que ele é uma merda.
    Aí não foi frescura o meu ponto. Eu não disse que o Moyses usou as palavras de maneira errada por preciosismo. Obviamente, ele deve poder pensar e expressar o que quiser. No caso específico, entretanto, vai parecer que ele acha que as pessoas que discordam dele são ditadores só porque essas pessoas discordam dele (do método que ele utiliza, das conclusões a que ele alcançou e etc) uma vez que ele inventou este outro significado para “censura” e para “imposição” sem antes avisar às pessoas que ele desejava utilizar estas palavras em sentido completamente diverso de seu sentido original.

  10. Não existe sentido original para as palavras, Daniel. Foi o que tentei te dizer, mas tu continuas com essa crença ingênua. As palavras só têm sentido dentro de um contexto. Por isso que quando tirastes o palavra do contexto em que coloquei e jogaste no contexto que desejavas, eu desisti do debate. É uma estratégia de má-fé essa.

  11. Eu de modo algum exijo que vc responda às minhas críticas (como disse anteriormente) e, se vc realmente acha que eu sou desonesto, suponho que não vá conseguir convencer vc do contrário. Pra mim é uma pena pq eu costumo aprender bastante a partir de debates com pessoas com as quais não concordo.

  12. Acredito que suas críticas não conseguem tocar o fundamento do texto porque estão aquém do que ele propõe. Em outros termos, elas não entenderam o ponto e por isso não tenho como responder. Por exemplo, em relação à censura, nem você entendeu que o termo “censura” pode ser usado em vários contextos segundo vários usos, tampouco que não se trata de uma censura no sentido de alguém se sentir ofendido por ter que responder a contra-argumentos.

    A propósito, tudo isso só confirma minha hipótese de que de fato você não entendeu Foucault e muito menos Heidegger. Se ainda acha que as palavras tem um sentido natural e que existe um discurso transparente, provavelmente não entendeu picas do que está nos textos que está “criticando”.

  13. Não acho que as palavras tenham um sentido natural, mas acho que existem discursos mais ou menos transparentes (isto é, quem escreve um texto pode estar mentindo, pode ter escrito mal ou, por outro lado, pode estar tentando honestamente expressar idéia através de palavras claras).

  14. Oi Daniel. Cito você, acima: “Eu não disse que o Moyses usou as palavras de maneira errada por preciosismo.”; “…uma vez que ele inventou este outro significado para “censura” e para “imposição” sem antes avisar às pessoas que ele desejava utilizar estas palavras em sentido completamente diverso de seu sentido original.” Aqui você diz textualmente que há um significado “certo” e “original” para usar as palavras “censura” ou “imposição”. Como você pensa que há um significado “certo” e “original” para usar cada palavra, uma das três: ou você não leu o que os filósofos não-analíticos disseram no século XX, ou você leu mas não entendeu o que eles disseram, ou você leu e entendeu o que eles disseram mas não é capaz de argumentar filosoficamente contra eles. Estou com o Moysés nesta conversa. Abraço.

  15. Eu penso que exista um significado usual e corrente para as expressões “censura” e “imposição”. Pressupus, naturalmente, que o Moyses tivesse empregado estas palavras de acordo com seu significado usual e corrente. É claro que linguagem não é algo fixo e estático. É possível que, no futuro, “censura” e “imposição” passem a ter outro significado usual e corrente. Tb é possível que o Moyses decida utilizar estas palavras de acordo com outro significado (agora ou no futuro). O Moyses não chegou, entretanto, a alertar aos leitores que pretendia utilizar as expressões “censura” e “imposição” com outro significado. Repito algo que já disse antes nesta conversa: não me incomodaria que vc, o Maurício, o César, o Diego ou o Moyses me explicassem o que o Moyses quis dizer por “censura” ou “imposição”. De qualquer sorte, ainda acho que o texto ficaria melhor com o emprego de outras palavras ou expressões no lugar de “censura” ou de “imposição” (a não ser que o Moyses realmente quisesse dizer que a galera da filosofia analítica anda efetivamente intimidando a galera da “filosofia continental”).

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