#NAOVAITERCOPA

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Que os adeptos do governismo mais febril questionem o #NAOVAITERCOPA hoje em dia, expondo o sucesso futebolístico do torneio e a relativa ausência de grandes incidentes com turistas, era previsível. Afinal, o governismo confunde e “grenaliza” (para ficar nas expressões do futebol) tudo, transformando as questões em guerra entre PT e o resto. Tudo vira um jogo de “eles contra nós” e defender um lado não é mais questão de bom argumento ou posição ética, mas defender um forte contra ataques do inimigo que o ameaça e cuja queda significaria nada menos que o fim do mundo. É preciso resistir a qualquer custo, com qualquer estratégia, usando todo tipo de teoria da conspiração ou incentivo ao medo e à paranoia. Mas, como eu dizia, tudo isso era previsível. Imprevisível era que o candidato ao Governo de São Paulo do PSOL, partido nascido justamente no ventre da revolta contra as concessões do PT ao neoliberalismo e com os rumos do “pacto conservador” do lulismo, declarasse o erro da hashtag. Ele argumenta que o tom decisivo do lema se assemelha a outros derrotados, como o “no pasarán” e “seja realista, peça o impossível”, e deveria ser substituído por algo mais aberto e concreto como “liberdade, igualdade e fraternidade” ou “diretas já!”. Afora a impressão de que o argumento é estranho e incongruente (“diretas já” é tão assertivo quanto “não passarão”), fica patente a incompreensão em torno do sucesso do #NAOVAITERCOPA.

Lembremos que os movimentos nasceram em diversos focos, mas se aglutinaram em São Paulo, contestando o aumento da tarifa, e foram se deslocando ao longo da Copa das Confederações para o Rio de Janeiro. Gradualmente, a indignação em torno da política urbanística encontrou na Copa outro foco de luta. Os processos de remoção e as opções urbanísticas relacionadas, além da falta de transparência nas negociações e das parcerias no próprio setor privado (por exemplo, na imposição de certas mega-construtoras pela própria FIFA) que repercutiam no público acabaram gerando outro ponto de referência para ser atacado pelos protestos como emblema da plutocracia que coloniza a democracia. No caso, a partir de uma organização internacional cujos negócios são amplamente suspeitos, sem qualquer tipo de controle, e cujas decisões se impõem por uma via extremamente autoritária (afora as muitas declarações do representante da FIFA, Jérôme Valcke, consideradas gafes, a mais perfeita síntese disso esteve na atitude do então Presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que lembrava seus poderes para cometer “maldades” quando criticado pela primeira vez; mais tarde, Teixeira, confirmando o comportamento mafioso, acaba saindo do Brasil devido a acusações de corrupção). Como em relação aos movimentos relacionados com o transporte público, os movimentos contra a Copa também foram e ainda estão sendo violentamente reprimidos. Entre outras coisas, o Governo Federal convocou as Forças Armadas para a segurança e o Ministério da Defesa expediu um dos maiores monstros jurídicos dos últimos tempos, a Portaria n. 3461, que usava conceitos autoritários como o de “força oponente e inimigo interno” (cujas lembranças deveriam causar tremores à própria mandatária não fosse sua atitude bizarra em relação à Ditadura que a capturou e torturou). A militância criou o #VAITERCOPA como resposta e passou a atacar os movimentos como coxinhas, burgueses, vira-latas, vândalos etc. Só essa contra-mobilização já sinalizaria que o lema não foi inofensivo.

Mas será que o movimento #NAOVAITERCOPA acreditava mesmo que não iria haver Copa? Sinceramente, isso é tão provável quanto que os jovens da periferia que incendeiam ônibus quando a polícia assassina alguém na região queiram mesmo prejudicar os usuários e acabar com o transporte coletivo. Não dá para entender que esses movimentos têm um sentido estético-político que quer significar mais do que o que o ato literalmente diz? Parece óbvio, não? O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro já havia resumido há algum tempo esse problema. Viveiros de Castro declarou a um jornal português:

Desejaria que essa revolta impedisse mesmo a Copa?

Impedir a Copa é impossível, não adianta nem desejar. Não sei também se seria bom, poderia produzir alguma complicação diplomática, ou uma repressão muito violenta dentro do país. Existe uma campanha: Não Vai Ter Copa. O nome completo é: Sem Respeito aos Direitos Não Vai Ter Copa. No sentido desiderativo: não deveria haver, desejamos que não haja.

O que se está dizendo é que os direitos de várias camadas da população estão sendo brutalmente desrespeitados, com remoções forçadas de comunidades, desapropriando sem indemnização, modificando aspectos fundamentais da paisagem carioca sem nenhuma consulta. Isso tudo está irritando a população.

Mas não é só isso: a insatisfação com a Copa foi catalisada por várias outras que vieram surgindo nos últimos anos, que envolvem categorias sociais diversas, e não estão sendo organizadas nem controladas pelos partidos. Essas manifestações têm de tudo, uma quantidade imensa de pautas [reivindicações]. Tem gente que quer só fazer bagunça, tem gente de direita, infiltrados da polícia, neonazistas, anarquistas. Um conjunto complexo de fenômenos com uma combinação de causas. Uma coisa importante é que são transversais: tem gente pobre e de classe média misturada na rua. É a primeira vez que isso acontece. O que talvez tenha em comum é que são todos jovens. Da classe média alta à [favela da] Rocinha.

Ou seja, o #NAOVAITERCOPA não é o movimento que literalmente diz que não vai haver Copa. Nem que não gosta de futebol. Aliás, boa parte da militância envolvida adora futebol. O que não significa que goste das negociatas, dos cartolas e dos bastidores do futebol. Tampouco que deseja, como boa parte da militância governista afirmou, que a Copa seja um “fracasso”. “Não vai ter Copa” significa “não vamos mais tolerar passivamente que pessoas tenham seus direitos violados” ou “não aceitamos mais corrupção, desperdício de dinheiro público, falta de transparência nos acordos público/privado, exploração de trabalhadores, remoção de população pobre, violência policial“, tudo espelhado na relação com as entidades diretamente encarregadas do futebol, FIFA e CBF (cujo mandatário nada deixa a desejar na ruindade em relação ao anterior). É contra isso que o #NAOVAITERCOPA se volta. E nesse sentido a hashtag foi um sucesso por ter conseguido sustentar a mobilização (que reuniu grupos sociais distintos desde a juventude da classe média, índios, professores, garis, sem-teto, intelectuais etc.) durante mais um ano depois dos acontecimentos de junho de 2013. Não é coincidência que o lema carregue um grande NÃO no seu lema, sinalizando espécie de “Grande Recusa” da juventude em aceitar o estado atual de coisas, negando suportar o insuportável.

Sim, existem grupos de direita que procuram usar o vocabulário “vira-lata” em relação ao Brasil, profetizando o caos completo e a incapacidade de o país organizar adequadamente o evento, mas, não, esse pensamento não tem nada a ver com o que se passa nas ruas. Duvido que, perguntados sobre isso, os manifestantes se posicionassem afirmando a inferioridade do Brasil. Curiosamente, são os “usuários” da Copa, como tentei mostrar humoristicamente em um post recente, que nutrem essa ideia (poderíamos até brincar com o contraste entre o #NAOVAITERCOPA e o #IMAGINANACOPA para expressar essa diferença). Buscando neutralizar a crítica e sempre afirmar que só existem dois polos, o governismo utiliza o nacionalismo para confundir as coisas. “Brasil – ame-o ou deixo-o”, lema da Ditadura Militar que, como tantas outras coisas da Ditadura, resolveu retornar nos últimos quatro anos. Revoltar-se contra a Copa não significa aderir ao “vira-latismo” do complexo de inferioridade, já que não é se revoltar contra o Brasil, e sim contra a injustiça no Brasil. Não por acaso o nacionalismo é o último recurso dos canalhas, como se diz tantas vezes e a coisa é assim mesmo, já que recorrer a uma aceitação em bloco de qualquer coisa em nome de um ideal unitarista contra um inimigo externo é exatamente a mais óbvia e repetida das estratégias autoritárias. Nem o futebol nem o Brasil pertencem a um grupo ou partido político para que possa jogar os outros na condição de inimigos quando têm críticas à forma como ambos vem sendo pensados e construídos. Tratar as críticas e revoltas como conspiração inimiga é tática vergonhosamente estalinista, e infelizmente parece que muita gente ainda não aprendeu a conviver com a multiplicidade que excede binarismos, impondo um consenso autoritário. A política brasileira não está mais dividida em apenas dois polos.

A Copa contra a qual os manifestantes se revoltam é a que deixa a população pobre sob os escombros, como a infinitamente citada e sempre necessária definição de Walter Benjamin expressa: “todo monumento de cultura é também um monumento de barbárie”. Que a Copa deixará história, não há dúvida. Partidas belíssimas, contato entre os povos, Brasil nos holofotes. Mas e os restos dessa história? E aqueles que não cabem na narrativa monumental do progresso, da consagração mundial? Se a justiça histórica é o dar voz a eles, mesmo que não caibam no “belo” que enfeita os heróis, é por essa voz que luta o #NAOVAITERCOPA, mesmo que isso signifique colocar água no chope da consagração dos campeões.

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4 respostas em “#NAOVAITERCOPA

  1. Opor o fato de que #TÁTENDO Copa para diluir o mote do #Nãovaiter é tão absurdo quanto praguejar que o “lema” deveria “ser outro”.

    Sigo farejando MAIS odor daquela velha incompreensão da nova sintaxe internética por alguns ‘intelectuais’ e membros da classe política – que vem de brinde com a incompreensão de governistas e anti-governistas em relação à nova classe de demandas que não querem simplesmente aderir a um ou outro lado em venda casada.

    Nesse viés, o #Nãovaiter só pode ser ‘contraposto’ pela ‘zuera’, uma vez que enquanto demanda, deu certo, sim.

    Ademais: a Copa (sobretudo futebolisticamente) nunca teve como não ser um sucesso e é falacioso ‘usar’ isso no debate.

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