OPEN SOURCE, POLÍTICA E ECONOMIA PARA O SÉCULO XXI

Os movimentos de 2011 têm indicado um esgotamento das duas formações fundamentais que a Modernidade nos legou: o Estado e o capitalismo. É verdade que essa frase pode parecer muito vaga e talvez arriscada, pois se está tocando em duas placas tectônicas do nosso mundo, mas parece que ambos processos estão chegando a um momento de esgotamento, ainda que ele não se faça visível a todos.

Mais do que nunca, o Estado está à beira da falência. Não apenas falência econômica, pois sabemos que a próxima grande crise está relacionada às dívidas públicas contraídas para salvar banqueiros e evitar o colapso geral do sistema, mas uma falência no sentido do reconhecimento de dar conta das próprias demandas que estão sendo ventiladas. Poder Executivo e Legislativo estão amarrados a uma estrutura corrupta (lícita e ilícita) que envolve financiamento de campanha e círculos viciosos em que não raro os agentes trabalham apenas para se conservarem e reproduzirem. Por outro lado, mesmo aqueles que desejam mudanças se sentem esmagados pela pressão colossal que emana de uma estrutura aparentemente invencível, seja pela estabilidade com que essas máfias se apropriaram do espaço público, seja pela ausência de alternativas por dentro capazes de reverter significamente o quadro geral. Isso sem mencionar a própria “globalização”, isto é, internacionalização dos mercados, que leva a uma pressão externa capaz de abalroar qualquer projeto alternativo à “ortodoxia” econômica que, na prática, é apenas uma doxa para manter bem ricos os poderosos. Por fim, o Poder Judiciário também vê mais do que nunca a insustentabilidade da sua expansão, o malefício mortífero da burocratização dos conflitos humanos e a tentativa frustrada de incorporar o papel de transformador social em instituições que são compostas majoritariamente por agentes conservadores.

A descrença na burocracia pública e no Estado central é generalizada.

De outro lado, o “capitalismo”, para ser mais específico esse sistema baseado na economia de mercado que hoje é sustentado por um aparato técnico-industrial movido pela demanda de consumo igualmente está em vias de colapso. Em primeiro lugar, porque já se fazem sentir os sintomas sociais de esgotamento psíquico dos sujeitos diante da demanda fetichista do consumo, no processo que Bernard Stiegler descreve como destruição da economia libidinal e Christoph Türcke como o enfraquecimento das conexões neurais que levaram o humano, historicamente, ao pensamento; para ambos autores (e tantos outros), os efeitos colaterais desse processo são gigantescos. Em segundo lugar, mais importante é evidentemente o impacto ecológico desse sistema baseado no consumo e na troca utilitária: mais do que nunca, é evidente a insustentabilidade do crescimento baseado no consumo e da produtividade baseada no domínio aterrador do humano sobre a natureza. O pensamento do século XXI é eminentemente um pensamento ecológico, pois se preocupar com a ecologia é hoje em dia pensar o fim do mundo que se avizinha a continuarmos nos mesmos trilhos.

Horizonte parece sinistro, não fosse o fato de que podemos igualmente ver transformações práticas no mundo. Não apenas pelos movimentos sociais 2.0, pela juventude que reivindica a construção de uma nova forma-de-vida não-burocrática e ecologicamente viável, mas pela própria dinâmica interna da produção das relações humanas. Nesse sentido, o capitalismo não foi invenção de Adam Smith, mas um fenômeno que foi se produzindo gradualmente até ganhar seu aparato teórico. Da mesma forma, a Open Source – baseada na economia contributiva, no renascimento da dádiva e na descentralização como princípio – pode ser um pharmakon terapêutico para um novo modelo político e econômico. Político, pensando-se na possibilidade anarquista do fim do Estado burocrático centralizado, péssima invenção recente e hoje totalmente naturalizada. Econômico, se pensarmos na possibilidade de circulação de valor sem que necessariamente isso corresponda a uma troca simétrica, isto é, a dinheiro. Tudo isso não está sendo produzido por intelectuais anticapitalistas de esquerda, mas pelo próprio fluxo de relações espontâneas que vão surgindo nesse século que apenas está começando.

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17 respostas em “OPEN SOURCE, POLÍTICA E ECONOMIA PARA O SÉCULO XXI

  1. Tenho uma pequena cisma com a ideia de economia contributiva [ou colaborativa].
    Se a definição mais simples, tosca e superficial de economia é a “administração de bens escassos” e a colaboração é baseada na criação intelectual que não é um bem escasso, penso que a mudança é mais radical, não é outra economia. É uma não-economia. Assim como o não-Estado de que você fala na questão política.
    Uma chance enorme essa. Tomara que não se desperdice, por exemplo, com a burocratização que parece estar vindo no novo projeto de lei do direito autoral.

  2. criação intelectual na verdade é escacíssimo, mas isso não vem ao caso.

    Mais do que uma não-economia, seria uma Anti-Economia (que não é Des-Economia), fourrieriana, e no mesmo sentido em que se diz Anti-Psiquiatria.

  3. Entendo, concordo e ADIRO a uma ideia de que pode haver uma belissima comparacao. Excelente insight, o teu, nesta agradavel manha senegalesca.

    Alias, eu SEMPRE defendi a Microsoft (leia o paragrafo ate o fim antes de julgar o que vou dizer!) por eles serem uma empresa e QUEREREM LUCRAR com seus produtos de codigo ‘fechado’, eis que eu sempre soube que, embora jamais tenha existido um “direito” a termos acesso a codigos personalizaveis, essa logica seria SUPLANTADA pelo zeitgeiist. A hora chegou.

    Foi mais ou menos isso que eu disse esses dias no twitter, quando hackeei sozinho meu smartphone: nao temos “direito” a open source, mas NAO EXISTE MAIS CLIMA para algo que nao seja isso. Grande texto.

  4. A criação intelectual limitada por algum tipo de padrão de qualidade, se é que alguém poderia estabelecer um padrão desses, até pode ser considerada um bem escasso. Mas a produção intelectual em si, preciso discordar.

  5. Etimologicamente economia é administração doméstica, oikonomia, então tem algo a ver com a sobrevivência. Penso a economia de modo freudiano, isto é, como uma constituição de reserva para a vida. Nesse sentido, ela não pressupõe escassez necessariamente. Anti-economia seria o que vivemos atualmente, isto é, o imediatismo da sociedade de consumo impede a constituição de reserva para a vida, inclusive para gerações futuras.

    Mas penso que essa é uma discussão importante.

  6. Aliás, tudo isso está ligado ao fato de que a economia é o ramo das ciências humanas de base teórica mais fraca e atrasada, engessado por uma doxa utilitarista e metodologias engessadas evidentemente falsas, evidentemente pelo seu vínculo com a política concreta e submissão a interesses.

  7. Não concordo com sua nomenclatura, mas acho que essa na real é uma questão menor, já que no final das contas estamos concordando no fundo.

  8. E se o socialismo nada mais fosse do que um processo, lento e gradativo, iniciado no próprio arcabouço monopolizador do capitalismo? Moysés, teu post nos coloca uma inquietação fundada e uma possível solução que já estaria se desenhando em nossos dias.
    Seria preciso desenvolver e explicitar concretamente as condições de possibilidade de uma “open source” (o que imagino já estejas fazendo em tuas pesquisas). A alternativa é estimulante. Mas já estamos preparados para ela?
    No diagnóstico, remete-me, inevitavelmente, à André Gorz, um dois pais da ecologia na Europa. Repensando a ideia mesma de trabalho, ele nos propõe um “temps libéré”, para o qual a racionalidade econômica é incapaz de dar sentido. Segundo o mesmo pensador, essa tese é atestada pela dualidade vivida em nosso sistema econômico, onde a marginalização e miserabilidade aumentam com a intensificação da racionalidade econômica.
    Grande abraço.

  9. Em primeiro lugar, deixa eu elogiar o texto [o que acabei não fazendo no primeiro comentário]. Como falei no twitter, genial a associação entre os conceitos de colaboração da internet 2.0 e política.
    Nas definições que você trouxe no comentário, economia tem a ver com sobrevivência e com reserva para a vida. É bem aí que vejo a questão da escassez. Se não há escassez, não há porque fazer reserva para a sobrevivência.
    Mas, como você disse mais abaixo, esse não é o ponto principal do texto. Só puxei porque nos debates de direito autoral esse é um dos pontos que me incomodam, mas só por uma questão de nomenclatura, não conceitual. Entendo o que quer dizer, onde quer chegar.
    O importante é a aproximação que a comunicação 2.0 proporciona e que pode acabar com intermediários incômodos, sejam eles econômicos ou políticos.

  10. Há muitas pessoas descontentes com o capitalismo, talvez por não terem experimentado o comunismo, mas os protestos dessa gente não indicam que o sistema está à beira do colapso. Não vamos repetir no século XXI os erros de Marx sobre o capitalismo. Há países capitalistas em crise, mas já superaram crises piores no passado. Os países mais desenvolvidos são capitalistas e não há sinal algum de que deixarão de sê-lo no futuro próximo. Os problemas ecológicos são problemas da sociedade industrial (leiam Raymond Aron), não do capitalismo. Há motivo para preocupação com o meio ambiente, mas é bom lembrar que em países comunistas houve muitos desastres ecológicos resultantes da própria natureza do sistema, como é o caso da destruição do Mar de Aral: http://www.youtube.com/watch?v=sSEdGusF3qA .

  11. Um Estado fraco pode gerar um caos na segurança, como na Somália. Já o Estado forte pode sufocar as liberdades individuais. Não me parece que o Estado está à beira da falência. No Brasil, por exemplo, o Estado tem participação significativa no PIB e consegue arrecadações recordes de impostos. Além disso, cria leis que desrespeitam as liberdades individuais. Na China, por exemplo, qual é o sinal de fraqueza do Estado? Pelo contrário, lá o Estado é forte demais, a ponto de esmagar qualquer oposição. Também não entendo qual é a tal “pressão colossal” sofrida por aqueles que querem mudar o capitalismo. No Brasil, por exemplo, a esquerda tem um domínio completo, algo anormal num país democrático. Pressão colossal sofrem aquelas pessoas que vivem em campos de trabalho forçado na Coreia do Norte: http://hrnk.org/ . O tal “sofrimento” dos revoltados com o capitalismo não é nada em comparação com o daqueles infelizes que vivem sob o comando de ditaduras comunistas.

  12. Você está tão preocupado em seguir a cartilha macartista que nem sequer percebeu que o comunismo sequer foi mencionado como hipótese. Da mesma forma, apontei fenômenos concretos que vc nem parece ter lido para analisar o texto. Parece que vc está tão fixado em refutar o comunismo que nem o trabalho de relacionar com o que lê realiza antes de disparar a metralhadora giratória de absurdos.

  13. ótimo texto! Mas para ser pessimista (ou talvez ingênuo), acredito que dissociar técnica de manufaturação (e a própria linha de produção) e capitalismo será um dos maiores desafios a serem vencidos, isso porque me parece, por exemplo, que entre “programar” e “fabricar” um celular existe um abismo imenso (sem querer soar óbvio).

  14. pô, -M-O-X-….muito massa o texto, concordo plenamente com o “toque” sobre a derrocada do Estado e do Capitalismo.
    não vejo nisso tantas revoluções positivas quanto (imagino que) tu (veja).
    todavia, vejo algumas.
    porém, uma questão de suma importância se mostra superveniente:



    (suspense barato)…


    (lá vai…)

    doxa?

    D-
    O-
    X-
    A?
    orto ou hetero?
    de que ETHOS falamos, mano véio??
    apesar de chato e pernóstico, o conteúdo do blog é riquíssimo, e as minhas arriadas num velho companheiro de batalhas não deverá ser utilizada para diminuí-lo.
    pelo contrário.
    guardem as armas, nazistinhas.

    abraços

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