O NANICO OBAMA

Desde a emergência do conservadorismo no final dos anos 70, os EUA vivem um processo de degradação que agora culmina no arruinamento das instituições democráticas por corporações e lobistas capazes de minar qualquer iniciativa política que os atinja. A sintomatologia social desse processo de corrupção generalizada que se ampliou mundialmente sob o nome “globalização” (na realidade, processo restrito à expansão dos mercados financeiros) fez-se sentir a partir de eventos ultraviolentos que vão desde massacres em escolas, intoxicação crônica, solidão e depressão como formas-de-vida majoritárias, vulgarização extrema da indústria cultural até os próprios atentados terroristas. Antes que acusem esse texto de cair de algum lugar desconhecido do marxismo embolorado dos anos 80, não custa ressaltar que todos esses processos são permeados de tensões, contradições, ambivalências e resistências cuja delimitação não é possível fazer sem escrever muitos textos.

De alguma forma é possível dizer que há algum tempo se fazia sentir um esgotamento geral desse modelo. A hipocrisia e o cinismo como formas discursivas dominantes iam se tornando problemáticas até um nível insuportável. O mundo cada vez mais se transformava em um lugar inóspito e absurdo, e talvez nada representasse isso melhor do que a figura incontroversamente ridícula de George W. Bush. Atacar Bush virou um esporte de tanta facilidade que as críticas perderam um pouco seu sentido. Além de completamente estúpido, o ex-presidente dos EUA representava a mentira no seu estado mais explícito, quase um escárnio em relação ao resto do mundo e aos próprios norte-americanos. Admissão de tortura, guerras imperialistas, rejeição de novos rumos nas políticas ambientais, políticas comportamentais puritanas e defesa de um modelo econômico indiferente à pobreza eram apenas alguns dos pontos que Bush não cansou de repetir à custa de uma repulsa generalizada de gerações que conquistaram o direito de viver em um mundo menos sombrio. E, no entanto, Bush estava aí. Apoiado por grande parte do sistema midiático e pelos setores fascistas ou ultraconservadores da população, emparedava o restante com a chantagem: conservadorismo ou terrorismo, esquerdismo, comunismo, todas essas “ideologias” subversivas e contestatórias ao sagrado american way of life.

O “Yes, we can”, slogan genial de Obama era resposta a tudo isso. Barack Hussein Obama, candidato negro, não-integrante do mainstream político e com nome de difícil deglutição para um imaginário que se acostumou a ver como principais inimigos Saddam Hussein e Osama Bin Laden, apesar de todas as difamações e superando todas as barreiras imagináveis e concretamente executadas, conseguiu eleger-se presidente dos EUA. E o fez mobilizando setores adormecidos diante da hegemonia conservadora, em especial a juventude, usando a internet para doações e disseminando virais com seus discursos efervescentes prometendo mudança. Naquele momento, a partir da bolha dos subprimes que estourou a economia em 2008, via-se uma espécie de possibilidade de ruptura com o ethos conservador instaurado. E esse tipo de ruptura é o que verdadeiramente constitui a política.

Obama, no entanto, não esteve à altura do desafio. Emparedado pelas mesmas forças que ele derrotou nas eleições, gastou todo mandato buscando conciliação com elas, quando foi eleito exatamente para desafiá-las. Hoje mais do que nunca fica claro isso. Os protestos em Wall Street são uma re-efervescência daquelas energias de desejo do novo que elegeram Obama e foram gradualmente jogadas para escanteio pelo mandatário em nome da conciliação. Reabastecidas com a Primavera Árabe e os protestos na Europa e na América Latina, os mesmos jovens que representam contestação à aliança entre conservadores e yuppies nos EUA agora saem às ruas, reivindicando pura e simplesmente, como os indignados espanhóis, uma democracia real, isto é, não governada por corporações (a plutocracia norte-americana).

Recebem, em resposta, repressão policial do Estado. Ontem 700 pessoas foram presas durante os protestos. Nisso, não se ouve nenhuma resposta convincente de que algo novo possa vir do Estado para esse movimento que diz: “somos os 99%”. Até agora, apenas repressão. Estado que é governado por quem? Um nanico chamado Barack Obama.

Anúncios

4 respostas em “O NANICO OBAMA

  1. Pingback: Sul 21 » O nanico Obama

  2. Pingback: O NANICO OBAMA « Cirandeiras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s