HIPERSSOCIALIZADOS

Uma das coisas que mais me causa estranheza é a passividade com que se aceitam discursos batidos, velhos, surrados e visivelmente sem grande efeito. Não duvido que a campanha do CNJ sobre ressocialização tenha sido feita com a melhor das intenções (dessas que o Inferno está cheio), mas é evidente que ela pressupõe pelo menos três coisas difíceis de acreditar: 1) que uma pessoa possa sair do sistema carcerário – uma verdadeira rede de instituições que mais reforça do que desconstitui o status criminal, como a Criminologia não cansa de mostrar – “ressocializada”; 2) que indivíduos envolvidos, por exemplo, no tráfico de drogas, tenham interesse em ocupar papel “subalterno” que já recusaram de antemão quando entraram para a carreira criminal (diga-se de passagem que isso tem íntima conexão com a forma como o Brasil lida com certas profissões por sua estrutura Casa Grande/Senzala); e 3) que esses indivíduos sejam “pouco socializados”, ou seja, a sociedade é maravilhosamente “ordeira” e pacífica, contrastando com indivíduos em déficit que perturbam essa ordem.

Gostaria de me concentrar apenas no terceiro aspecto, e bem rapidinho. Recentemente, uma pesquisa psicológica (com todas as minhas reservas aos cognitivistas e seus métodos) verificou que o indivíduo utilitarista é praticamente ausente na sociedade, correspondendo apenas à parte dos psicopatas. Sem embarcar em todos esses rótulos, podemos perceber que o indivíduo-padrão na ciência econômica – e por isso mesmo o indivíduo-padrão imaginário da nossa sociedade (o bem sucedido!) – corresponde a um agente com baixo nível de “sentimentos morais”, frio, objetivo e calculista – o que por sua vez bate com o suposto perfil do criminoso.

Isso me leva a perguntar: será o problema do criminoso um déficit de socialização? Ou será ele apenas mais um numa sociedade em que os vínculos éticos estão destruídos? Nesse caso, que modelos propor a ele a fim de “transformá-lo”, como desejam os ressocializadores? O do “bom trabalhador”? Mas esse “bom trabalhador” é mesmo alguém valorizado e desejado nessa sociedade? Tenho minhas dúvidas se falta socialização ao criminoso ou, ao contrário, sobra.

Por essas e outras razões que sou sempre cético a esses projetos que relembram os modelos positivistas da criminologia sempre presumindo a sociedade como o bem, de um lado, e criminoso como o mal, de outro. Talvez o criminoso seja menos uma doença e mais o sintoma, menos o oposto do que a expressão de uma sociedade que prefere a hipocrisia a encarar a dureza da sua miséria.

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9 respostas em “HIPERSSOCIALIZADOS

  1. Pingback: Sul 21 » Hiperssocializados

  2. “Talvez o criminoso seja menos uma doença e mais o sintoma, menos o oposto do que a expressão de uma sociedade que prefere a hipocrisia a encarar a dureza da sua miséria.”

    Texto ótimo, trecho ótimo!

  3. Não entendi bem o ponto. Fiquei com a impressão que este artigo iguala a sociedade como um tado ao ex-detento, critica o que está sendo feito mas não propõe uma outra alternativa. Ou não captei algo? Pergunta sincera.

  4. Depois de muito tempo, vemos agora um orgao ligado ao Judiciario se envolvendo midiaticamente (e BASTANTE midiaticamente) numa campanha que de dobra sobre o cotidiano prisional/criminal e apregoa propostas “bem-intencionadas” (voces entenderam).

    Nao JULGO (haaaa!) o CNJ em uma esfera mais rasa de opinar, eis que, em um mundo em que pessoas criam ENTIDADES supostamente humanitarias (com midia e pesado capital em cima) para promover as ideias de endurecimento e violencia (estatal) contra presos e adolescentes infratores, um orgao oficial se posiciona em (aparente, mas ok) contrafluxo.

    Em um nivel mais apurado de analise – como aqui e como nos textos citados, obvio, temos MUITOS problemas nisso tudo.

  5. Essa figura é tão socializada a ponto de, em muitas partes do Brasil, ser legítima (em todos os sentidos, inclusive na ironia) representante do povo.

  6. Tudo bom, professor?
    Fui tua aluna na turma UFRGS manhã/2008…

    As aulas de Criminologia e Política Criminal foram, na minha opinião (mesmo já quase terminando o 4º ano) as melhores em termos de sociologia da faculdade. Aprendi bem mais nelas do que nas duas cadeiras de sociologia que tivemos/estamos tendo. Posso não ter concordado com tudo (até porque duvido que tivesse sido a tua intenção convencer todos a respeito de tudo), mas certamente mudou a minha visão de mundo.

    Soube do teu blog por colegas, e gostaria de transcrever aqui uma mensagem que eu mandei para a turma. Citei agumas coisas que foram ditas em aula (em criminologia II, se não me engano).

    a respeito dessa imagem: http://gloom82.deviantart.com/art/SOCIETY-192728669

    “Eu vejo que o artista tem aquela visão criticada pelo Moysés de organismo social, a sociedade como ser vivo. Tanto na imagem quanto nessa teoria somos ligados por elos que remetem a um ser vivo, como se cada pessoa fosse responsável por uma função que empurrasse o todo adiante. Somos ligados e dependentes, mesmo contra a nossa vontade.
    Nessa visão organicista, há lugar para aqueles que compõem os órgãos (como quem pratica o comércio, ou quem exerce funções públicas, como o judiciário, também ensino, saúde, por aí vai). Só que não deixa de ter lugar para aqueles responsáveis por ameaçar a harmonia (como os vírus) – aí entra a criminalidade. Não esqueçam (ainda lá no começo da faculdade, com o Odone) a teoria de que o crime é saudável para esse organismo social. Com ele o povo se une contra um inimigo comum. “Solidariedade”, mesmo entre quem não tem nenhum laço, só o de viver na mesma sociedade. (obs: não estou fazendo juízo de valor! Só interpretando…)
    Percebam as mãos daqueles braços na figura – os de ‘dentro’, por assim dizer, são mais coesos, enquanto que os de fora não… um está de punho fechado, em desafio, luta. Tem um heil hitler também. Não à toa esses estão nas margens, são os que vão contra a conservação, querem derrubar a ordem vigente, mas não deixam de fazer parte daquele enorme grupo…
    Por fim: a expressão daquele rosto. Isso é talvez o principal. Seria já uma boa imagem se a figura fosse outra (como, talvez, uma palavra SOCIETY escrita com aqueles braços…)
    Mas não, é um rosto, e a expressão é de fúria/agonia. Um rosto em conflito, formado por uma união extremamente coesa de braços… Os braços seriam a força de trabalho/função desempenhada por cada pessoa nesse grande ente vivo, uma união tácita. Ocorre que essa união não é harmônica, como se vê na expressão daquele rosto. Mesmo com todo o conflito, ainda tudo se torna para dentro, aquele todo não se separa.

    E tem um viés marxista nessa história toda… não é uma união de cabeças (representando idéias, pensamento, ideologias, subjetividade). É uma união de braços. De força de trabalho. Objetivamente. O papel de cada um na sociedade não é o que se é… é o que se faz.”

    Gostaria de saber a tua opinião a respeito.

    Tudo de bom!
    Abraços
    Amanda

  7. Oi Amanda. Lembro de ti perfeitamente. Obrigado pelas generosas palavras.
    Gostei bastante do texto. Não acho que precisamos pensar a sociedade em termos organicistas. Na realidade, se te lembrares bem procurei justamente criticar organicismo E individualismo, mostrando como isso é falsa questão, a partir do Norbert Elias, autor de um livro que considero decisivo sobre o tema.
    Abaixo está o link do livro, se tiveres interesse:
    http://livrosdehumanas.org/2010/04/04/livro-a-sociedade-dos-individuos/
    Abraços!

  8. Sempre me perguntam qual a alternativa, e eu respondo com absoluta seriedade: fechar todos os presídios e colocar todo mundo em liberdade, — só pra começar a conversa. Mas é utópico! Idealista é achar que manter essas pessoas presas é um “mal menor” à “sociedade”, e isso é utópico em tantos níveis quanto o romance 1984, de Orwell.

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