MELANCHOLIA

 

“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.” 

Essa poderíssima ironia de Nietzsche, geralmente neutralizada em todo seu potencial pela associação com a humildade epistemológica (leia-se, limitação do poder de conhecer, caráter inventado do conhecimento etc.) na realidade traduz um golpe fulminante na pretensão mais perversa, delirante e característica do Ocidente: o antropocentrismo.  A ironia de Nietzsche não deve ser lida como um aviso acerca da falibilidade do conhecimento, mas acerca da total e completa irrelevância da humanidade no universo.

Lars von Trier toca nessa ferida narcísica de forma tão precisa e catártica que se torna extremamente difícil dizer algo sobre o filme. Com Melancholia atingindo a Terra, toda a supremacia que o narciso humano acredita ter conquistado pelo seu brilhante intelecto simplesmente desaparece como se nunca tivesse existido, e diante disso o silêncio completo e indiferente de um universo frio e vazio nada tem a dizer. Com o intelecto, todas as leis que supostamente “comandariam” a natureza – antropomorfismo de um nómos que se projeta sobre a physis – como se o cosmos fosse organizado a partir de formas pré-dadas, desaparece em um único golpe, junto com toda matéria que um dia se presumiu apta a encabeçar projetivamente a natureza.

Em um intrigante ensaio, Lyotard tenta pensar se seria viável transportar o pensamento para as máquinas após o fim do mundo, isto é, após a data em que o sol explodir. Seria interessante sempre testar todos os sistemas filosóficos e científicos com essa prova: eles sobrevivem ao teste do fim do sol? Após o astro queimar-se por completo, nem os anjos conseguirão sobreviver.

Arrasador é o único adjetivo que encontro para descrever esse filme, robusto na exposição do vazio humano do qual a melancolia é sempre a fiadora – dona da triste verdade que se esconde por trás do nada que é a interioridade. Jogar-se no abismo interior é saber que de lá nada sai, profunda consciência de que a superfície é a única profundidade, e por trás de todo sonho de mergulhar no poço de si mesmo a única coisa que obtemos no retorno são, no máximo, os sapos de Machado de Assis que o meu amigo Alexandre Pandolfo gosta de mencionar nas suas palestras.  O fora é o único dentro com o qual podemos nos conformar, sabedoria última da qual a melancolia é testemunho na sua nostalgia romântica contra a verdade da casca sobre o miolo. Matéria, afinal, que se destrói fisicamente de forma tão nítida e brutal que, como von Trier mostra com perfeição, todos os nossos sentimentos de doçura – por exemplo, pela vida de uma criança – tornam-se completamente indiferentes do ponto de vista da pujança que se sobrepõe à nossa própria possibilidade de pensá-la. Melancholia, o planeta que destrói a Terra, e com ela suas desgraças, sonhos, utopias e maldades, suas crianças e adultos, humanos, animais e plantas, rastros de algo que se deixa levar num único golpe para dar lugar ao silêncio do universo.

“Estamos totalmente sós”, diz Justine (que, como notou Pondé, é uma menção à metafísica “mineral” do Marquês de Sade). “A vida na Terra é um mal, ninguém sentirá nossa falta”.

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16 respostas em “MELANCHOLIA

  1. Pingback: Sul 21 » Melancholia

  2. Nossa, MAS QUE COISA LAMENTÁVEL ESSE TEXTO. Obrigado por linkar, mas infelizmente poucas vezes saí com a sensação de ler algo tão ruim sobre um filme.

  3. Que GRANDE texto!

    Foi a melhor analise do filme que ate agora vi.

    De largada ja arrebata por MAIS UM desvelar de uma tentativa de REDUZIR Nietzsche a conceitos e contextos chinfrins (atire a primeira pedra quem nunca, mas, ok).

    Arrebatadora a consciencia da personagem quanto a miseria (que nao mereceria ser ‘salva’) humana e sua condicao ridicula.

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  6. Não vi o filme, mas, lendo o texto me vem duas premissas: a morte individual sem a morte do planeta e a morte coletiva com a morte do planeta. Entre a primeira e a segunda está a esperança, presente na primeira e ausente na segunda. Ou seja, a vida na terra seria mal se perdêssemos a esperança e seria um bem com sua existência. Então devo considerar que o planeta vivo em minha memória, conforme minha experiência dá sustentação à esperança de não me desvincular das sensações que ele me proporciona, portanto, sua destruição é o aniquilamento de minha própria memória, que dará lugar ao silêncio do universo.

  7. Baita post.
    Fiquei especialmente tocado com a crítica do ideal de felicidade enlatado nas programações das festas perfeitamente organizadas – e que por isso tornam-se anti-festas. A obsessão pela programação e pela ritualização ridícula é genialmente desmascarada no final do filme, quando na iminência do apocalipse Claire – como uma dondoca bastante comum por aqui – planeja estar tomando um vinho no terraço, e Justine a ridiculariza, sugerindo, “e quem sabe não colocamos a nona de Bethoven pra tocar…” Justine “depressiva” é também sábia, a única que consegue encontrar uma metáfora que oferece sentido ao fim do mundo da criança.
    Como não ser feliz, tendo tudo? Lars Von Trier sabe bem que o furo é mais embaixo e por isso explode o mundo.
    Filme genial.

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  10. Olá!

    Só li sua crítica agora. Vi o filme com um pouco de atraso por conta da exibição aqui na minha cidade.

    Também costumo comparar Lars von Trier a Nietzsche, mas, neste caso, vi menos uma crítica dirigida à faceta narcisista do homem que propriamente um elogio às diversas formas de sentir. Quero dizer com isso que está presente no filme mais que uma crítica aos limites da razão – tema explorado pelo diretor em Ondas do Destino – , está presente um elogio aos afetos.

    Vou deixar o link para o meu texto, que foi publicado no Amálgama. http://www.amalgama.blog.br/10/2011/afetos-melancolia-lars-von-trier/

    Não sei se você vai concordar ou não, em todo caso, não me parece forçada a analogia que aproxima o cinema de Trier ao pensamento de Nietzsche. Inclusive, eu já tinha notado a semelhança entre ambos no filme Anticristo.

    abs.

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