REFÉM DAS OLIGARQUIAS

Tenho acompanhado sem interesse algum as notícias sobre corrupção e o enfrentamento da Presidenta Dilma no tema. As notícias trafegam no noticiário e os mesmos clichês são repetidos a todos instantes. A imprensa mantém o tom ambíguo costumeiro, isto é, censura o governo simultaneamente por romper e não romper com aliados. Se rompe, é tratado como derrotado por “perder a base”. Se não rompe, compactua com a corrupção. Nos dois casos a imprensa nunca perde e o governo nunca ganha. Estratégia poderosa que subsiste como último reduto da oposição brasileira, o udenismo. Infelizmente, como não temos oposição capaz de se assumir conservadora ou liberal, preferindo se esconder sob os rótulos de “social-democrata” (!) e “democrata”, resta aos opositores do governo o moralismo rasteiro e casuísta, morada habitual da hipocrisia política fortemente enraizada na história brasileira. Apesar de tudo, Dilma continua com altíssimos índices de aprovação, pois a estratégia só funciona ocasionalmente e não é suficiente para enfrentar as importantes reformas sociais que vêm sendo efetivadas, além da auto-estima do brasileiro alimentada desde Lula.

O que, no entanto, está em jogo? Tenho insistido há muito tempo que a moralização da política é um escamoteamento casuísta que omite por meio do sacrifício de bodes expiatórios a principal fonte de corrupção: o domínio de oligarquias sobre a esfera pública. É um debate bem vivo na blogosfera, citando entre tantos ótimos blogueiros que postaram sobre o tema o Idelber Avelar e o Alexandre Nodari. Na minha visão há um deslocamento para o nível individual e de caráter de uma patologia que extravaza para o nível político, consubstanciado nessa violência que impera mediante chantagens, artimanhas, ameaças e violência cujos limites nem sequer podemos imaginar, chegando a um nível de estado de exceção.

Dilma nesse momento é vítima de uma máfia que se apoderou do poder, como em geral acontece nas democracias contemporâneas espalhadas pelo mundo. A pureza de um Parlamento capaz de representar os cidadãos dá lugar a poderosos grupos de interesses que, no caso do Brasil, oscilam entre oligarquias arcaicas e yuppies e se mantêm com base na mais frontal indiferença a tudo aquilo que não significa sua manutenção no poder. A mídia não representa esperança aqui, pois muitas vezes compactua com tais grupos, não deseja os enfrentar ou inclusive pertence a eles. Além disso, prefere individualizar e sacrificar, não tocando na estrutura de fundo que viabiliza no Brasil a manutenção sincrética de uma ideia liberal-democrática e uma realidade arcaico-feudal-oligárquica. Ninguém melhor que o PMDB sintetiza esse espaço.

Que fazer? As soluções parecem quase todas ruins, pois na realidade o que se observa é o declínio da representação parlamentar como um todo. Como diz Thom Yorke numa canção, “they don’t speak for us”. A defesa da democracia representativa contra a democracia direta – e tudo que dela se aproxima – revela um elitismo que no fundo nada mais faz do que consolidar a situação real em que vivemos no mundo: uma plutocracia generalizada, variando suas colorações de acordo com país e cultura. Pensar a política, aparentemente, parece exigir capaz vez mais pensar em alternativas à democracia representativa e parlamentar, sem cair em autoritarismos e demagogia, pois o mal parece estar na raiz. Isso significa talvez a necessidade de se repensar a própria questão do Estado.

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4 respostas em “REFÉM DAS OLIGARQUIAS

  1. As democracias de massa “modernas”, tais como Brasil e Índia, aliadas ao grande capital, estão sendo corroídas a partir de suas próprias bases de sustentação: 1 – os partidos não refletem mais as tensões reais de classe, viraram burocracias voltadas única e exclusivamente num amontoado de interesses individuais de acesso ao poder; 2 – os cidadãos, após anos de regimes autoritários ou mesmo republicanos perdidos de si mesmos, sobretudo, os intelectuais, concentraram suas energias na busca pela liberdade política, sem contudo, refletir profundamente sobre a importância do rumos a seguir uma vez conquistada; 3 – A economia de mercado cujo ambiente político encontra muita abertura tende acentuar as desigualdades sociais e a corrupção é a ponte que liga a fragilidade política com a tendência mais perversa do capital, obter lucros fáceis. Atrás deste cenário, capitanias partidárias, indiferença cidadã e liberdade sem limites para economia de mercado, estão sendo postos na mesa do Estado os interesses da minoria de poderosos que acabam por prevalecer sobre os da maioria da população. O que faz que a corrupção seja uma espécie de bilhete aos “excluídos” do banquete deste modelo de “estado moderno”.

  2. Pingback: Sul 21 » Refém das oligarquias

  3. Quando a legislação não serve ao conjunto da sociedade e nem expressa seus concensos, é preciso modificá-las. Neste caso, a lei magna do país, já não expressa mais o sentimento da cidadania, que por hora ignora, mas que logo se manifestará contra o que se constrói nos salões acarpetados que se escondem por detrás das paredes do congresso. Por isto, no âmbito da democracia, o instrumento eficaz para fazer mudanças é uma Constituinte Exclusiva e soberana, eleita a partir de amplo debate junto à sociedade e cujo mandato se encerra assim que concluir a sua tarefa de Reformas na Constituição. Seria a forma de evitar que o governo e a própria sociedade se mantenham reféns das oligarquias a muito instaladas no poder e que manietam qualquer tentativa de avançar em direção a uma sociedade mais justa.

  4. Pingback: Democratas e Republianos: primeiras notas sobre as manifestações de Julho | O Ingovernável

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