“CRITICAR É FÁCIL” – A APOLOGIA DA ESTUPIDEZ

Qualquer chavão que possa servir como instrumento retórico para qualquer coisa prova por esse exato motivo sua completa inutilidade. Um dos mais comuns no cotidiano é: “criticar é fácil!”. Com essa frase estúpida, os críticos são silenciados mediante um golpe de violência bruta, aquela que sequer reivindica para si a possibilidade de ter razão, mas simplesmente estanca o debate, paralisa afirmando o status quo. Nada pode ser mais tosco que essa manobra.

É óbvio que tecer comentários negativos sobre alguma coisa é algo de fácil acesso. Difícil é realmente acertar a crítica, ou seja, atingir o ponto em que realmente está situado o problema. Essa precisão não é tarefa simples e geralmente os boçais que gostariam de encerrar o debate estão ansiosos por neutralizá-la. Mas, para se chegar a um ponto crítico relevante, é necessário que não se esteja oprimido por qualquer positividade ou compromisso. A crítica não observa limites, pois toda tentativa de a limitar acaba obscurecendo o fundamental que se quer agarrar com a crítica. Não existe positividade que valha a pena sem que ela possa, em si mesma, carregar o fermento da sua desconstrução. Posturas sem autocrítica constituem a atrocidade do dogmatismo e engessamentos críticos pela assunção de compromissos pragmáticos acabam levando ao mesmo lugar. Esse lugar é a mesmice da naturalização do mundo, o maior veneno que pode existir para o pensamento.

Sem a crítica indócil, rasgante, seminal, onde estaríamos, senão estagnados no mesmo lugar e na mesma opacidade naturalizada? A crítica é o que possibilita o positivo, é o que previne da afirmatividade ingênua ou naturalizante. O problema não é dizer: “nesse ponto se encerra a crítica!”, atitude estúpida, mas distinguir entre as críticas corretas e as erradas, que são as que mais proliferam. O Bolsa-Família teve milhares de “críticos” que o concebiam como aval para a vagabundagem (antes fosse…); devemos opôr a eles um: “criticar é fácil!”? Claro que não, é preciso mostrar que sua crítica é completamente equivocada, que o caminho está completamente invertido. O sistema penal tem críticos à esquerda e à direita, é preciso paralisar as críticas em nome de um pragmatismo consensual? Não, é preciso mostrar que os expansionistas estão errados, que o problema da violência nem é tocado pelo sistema penal, antes reproduzido, é preciso perceber o que é realmente ser crítico em relação ao sistema penal.

De agora em diante, “criticar é fácil”, para efeitos desse blog, vira uma certidão de burrice cifrada, pois nada é mais fácil do que não criticar.

Anúncios

4 respostas em ““CRITICAR É FÁCIL” – A APOLOGIA DA ESTUPIDEZ

  1. É isso mesmo Moysés. Os chavões e os jargões são as frases moribundas a serviço do status quo… Elas se tornaram isso perdendo sua força, sua dimensão critica, seu relevo e ajudam assim a aplainar a realidade.

    Um abraço!

  2. O intelectual não deve se dissociar da prática política, sob pena de perder a perspectiva de classe e cair no vício acadêmico do pensamento abstrato. (Florestan Fernandes)

  3. “Perder a perspectiva de classe”? Hum, acho que essa frase já denuncia, por si só, o equívoco da posição. Em todo caso, o post jamais defende pensamento abstrato, nosso compromisso é sempre com o real, com o vital, o prático. Pragmatismo mais pragmático.

  4. A recusa (Maurice Blanchot)
    A dado momento, face aos acontecimentos públicos, sabemos que devemos recusar. A recusa é absoluta, categórica. Não discute nem faz ouvir as suas razões. Ainda que permaneça silenciosa e solitária, mesmo quando se afirma, como deve ser, à luz do dia. Os homens que recusam e que estão ligados pela força da recusa sabem que não estão ainda juntos. O tempo da afirmação comum, precisamente, foi-lhes retirado. O que lhes resta é a irredutível recusa, a amizade desse Não certo, inabalável, rigoroso, que os torna unidos e solidários.
    O movimento de recusar é raro e difícil, ainda que igual e o mesmo em cada um de nós, assim que o apreendemos. Difícil porquê? É que nos faz recusar, não apenas o pior, mas um razoável aparente, uma solução que se diria feliz e mesmo inesperada. Em 1940, a recusa não teve de exercer-se contra a força invasora (não a aceitar era evidente). Mas contra essa sorte que o marechal Pétain, cheio de boa-fé certamente, afirmava ser e contra todas as justificações de que se podia reclamar. Hoje, a exigência da recusa não interveio por ocasião dos acontecimentos de 13 de maio (que se recusam por si mesmos), mas face a esse poder que pretendia reconciliar-nos honradamente com eles pela autoridade única do nome.

    Aquilo que recusamos não é desprovido de valor ou de importância. É mesmo por isso que a recusa é necessária. Há uma razão que já não aceitaremos, há uma aparência de sabedoria que nos horroriza, há uma oferta de acordo e de conciliação que não escutaremos. Uma ruptura produziu-se. Fomos levados a essa franqueza que já não tolera a cumplicidade.
    Quando recusamos, recusamos num movimento sem desprezo, sem exaltação, e anónimo, tanto quanto se pode, pois o poder de recusar não se cumpre em nós mesmos, nem apenas em nosso nome, mas a partir de um começo bastante pobre que pertence antes de mais àqueles que não podem falar. Hoje dir-se-á que é fácil recusar, que o exercício desse poder comporta poucos riscos. É sem dúvida verdade para a maior parte de entre nós. Creio, no entanto, que recusar nunca é fácil, que devemos aprender a recusar e a manter intacto esse poder de recusa que daqui em diante cada uma das nossas afirmações deveria verificar.

    Maurice Blanchot, «Le refus» (1958),
    Écrits politiques, éd. Éric Hoppenot, Gallimard, Paris, 2008, pp. 11-12.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s