CONTRA OS PARTIDOS PELA POLÍTICA (SOBRE FHC E A CRÍTICA À GUERRA ÀS DROGAS)

A maior burrice que poderíamos fazer agora seria deixar de apoiar os movimentos crescentes que Fernando Henrique Cardoso faz em direção a uma revisão da política de drogas por razões partidárias. Parece evidente que FHC está realizando um movimento estritamente político-estratégico, e não por convicção plena. Seu espírito tucano não lhe permitiria ver além do horizonte tecnocrático que caracteriza seu partido orgulhoso pelos seus “gerentes”. No intuito de reposicionar o PSDB ao centro – após a forte guinada à direita nas Eleições 2010 que levaram, por exemplo, Bresser-Pereira a deixar o partido – FHC apela a uma bandeira “liberal” e capaz de provocar estardalhaço, deixando simultaneamente ruborizados os petistas que marcaram o início da gestão de política criminal pela demissão de Pedro Abramovay. Não esqueçamos que Serra volta e meia reivindicava estar “à esquerda” do PT pelas suas posições econômicas. Na política criminal, contudo, nada poderia ser mais bizarro, à medida que é característica do PSDB exatamente a identificação com a “Tolerância Zero”, a pouca fiscalização sobre a observância dos direitos humanos pela polícia e o hiperencarceramento.

Apesar de tudo isso, FHC assumiu uma posição necessária diante de um contexto em que os discursos críticos são veementemente bloqueados, quiçá pela violência física, tal como ocorreu com a Marcha da Maconha e de todos os boçais – juristas ou não – que querem a proibir. Esses covardes que atacam a juventude descontente com o proibicionismo e seus efeitos nefastos são incapazes de agir contra o ex-Presidente, apesar de o caso ser o mesmo. É um tabu infernal cuja impossibilidade de questionar é exatamente o sintoma da sua fragilidade (como sempre, aliás). Nesse caso, a jogada política de FHC é realmente de mestre: se conseguir mudar a tendência da opinião pública, terá se recapitalizado politicamente e arremessado a esquerda para o lado conservador, impossibilitando-a de uma resposta contrária sob pena de descontentar grande parte do seu eleitorado. FHC fala a um eleitorado de perfil conservador, tendo que por vezes abrandar o discurso e repetir abobrinhas do tipo “devemos não penalizar, mas tratar o usuário” (como se todo usuário fosse usuário problemático), além de não tocar na questão essencial do tráfico, que não se resolve satisfatoriamente pela mera descriminalização do porte e uso para fins pessoais. Contudo, provoca uma rachadura nessa estrutura maciça que hoje comanda o Ocidente – a “War on Drugs” dos puritanos norte-americanos exportada para o resto do mundo. Isso já é suficiente.

Estratégia política brilhante pois coloca, como já disse, o PT numa sinuca-de-bico: ou se volta para o lado conservador, desagradando parte do seu eleitorado, ou o acompanha, recapitalizando FHC. Por que o PT caiu nessa armadilha? É simples, meus amigos: porque se comporta como a direita. No lugar de ouvir as vozes mais críticas da sociedade, questionando a fragilidade dos discursos conservadores hegemônicos, o PT se entrega permanentemente ao desejo de poder, conciliando todos os pólos numa salada cujas contradições não tardarão a aparecer. O PT é escravo da Realpolitik, do pragmatismo cujo símbolo é o PMDB. É um retrato pálido dos partidos social-democratas europeus que hoje são vaiados pela juventude do Toma La Plaza, esgotados no seu discurso envergonhado e incapazes de enfrentar o fascismo – quer dizer, de fazer política. O petismo pensa com a cabeça do século XX: é preciso imitar os social-democratas e, depois que chegarmos lá, pensamos no que vamos fazer.  O PT governa para a “família brasileira” cujos preconceitos deveria democraticamente ajudar a desconstruir. É fácil, nesse caso, atacá-lo: basta usar a inteligência. E FHC não é burro. Nem nós.

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5 respostas em “CONTRA OS PARTIDOS PELA POLÍTICA (SOBRE FHC E A CRÍTICA À GUERRA ÀS DROGAS)

  1. O PT é semi-esquerda, no sentido em que Mendeleiev diz semi-metal: se é condutor, não faz liga; se faz liga, não conduz. Se comporta ora como metal, ora como ametal.

    Isso não quer dizer que o PT seja “de centro” – embora ele tenha se transformado hoje, nacionalmente no “PMDB do PMDB”. E não por falta de aviso interno: o Governador da Bahia, Jaques Wagner, disse ao limite da rouquidão que eleger Dilma “a qualquer custo” (inclusive passando por cima dele com a idéia oligofrênica de “dois palanques” na Bahia, um deles do derrotado em terceiro lugar Geddel Suíno Vieira Lima) seria uma Vitória de Pirro.

    E está sendo.

  2. Excelente análise, Moysés! Bem que tu podias ter uma coluna na Folha como analista político, né? (tô brincando, mas que ia melhorar anos luz o nível das análises, ia.). Beijos e daqui a pouco estamos ai para papear ao vivo!

  3. E o FHC faz um movimento que antecipa um possível Xeque. De fato, o PT perdeu grande chance de adiantar seu jogo. Mas não penso em partido, penso em democracia, por tanto faço minhas as suas palavras sobre o PT em:

    “Por que o PT caiu nessa armadilha? É simples, meus amigos: porque se comporta como a direita. No lugar de ouvir as vozes mais críticas da sociedade, questionando a fragilidade dos discursos conservadores hegemônicos, o PT se entrega permanentemente ao desejo de poder, conciliando todos os pólos numa salada cujas contradições não tardarão a aparecer”.

    Isto foi perfeito!

  4. Conversei nessa semana com o Ministro Chefe (interino) da Secretaria de Direitos Humanos, Sr. Ramaís de Castro Silveira (tu vê só) sobre esse assunto e aparentemente há uma análise idêntica à tua internamente no PT. Preocupam-se com essa inversão: perdendo campo, o FHC começa a pautar temas antigamente tidos como da esquerda. Quando eu militava todos os filiados (sem exceção) tinham a bandeira da descriminalização, sendo que até tinha um grupo temático de discussões a respeito de psicotrópicos e de indagações acerca de como reconhecer como movimento contracultural e legitimar a prática. O problema é que, em nome da governabilidade, setores absurdamente conservadores são aliados do governo (ex. igreja evangélica). O governo está moldando (em parte) a ideologia do PT, e não o contrário. Combater a fome e miséria, melhorar serviço público e ampliar acesso a saúde e educação são temas consensuais, pautas de qualquer um. Exemplo prático e alarmante disso é a ADPF da Marcha da Maconha, em que – a (nítido?) contragosto – a Presidência da República, ouvida no processo, opinou pela improcedência da ação. O PT tem de, urgentemente, tomar as rédeas da carroça. O Brizola dizia que não importava quem estava nos vagões se se tem o controle do trem. O PT não tem controle sobre esse trem: é refém dos bandidos conservadores que lhe apontam uma arma e lhe dizem para onde não ir.

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