SOBRE A MINHA GERAÇÃO E A POLÍTICA

Minha geração tem medo de sonhar. Contardo Calligaris certa vez afirmou que cada vez mais constatava isso na sua clínica: uma geração com sonhos baixos – emprego, família, estabilidade, aposentadoria. Pouco para quem tem um horizonte de vida pela frente, pouco para quem tem a energia do desconforto com um mundo que ainda não aprendeu a se acostumar. No meio da nossa formação o Muro de Berlim caiu (eu tinha apenas 9 anos) e, com ele, todas as possibilidades de uma esperança radical em outro mundo.

Aprendemos, então, que era preciso sonhar baixo. O “Outro Mundo” não era possível. Tudo que não era a democracia liberal estaria coberto de sangue. Testemunhamos a sobrevivência dos radicais assim – como sobrevivência. Com um discurso aborrecido, nostálgico e que nos parecia fora do lugar, nos desindentificamos com os esquerdistas. Teríamos que sonhar baixo: melhorias pontuais, fazer o possível, pragmatismo político. Tivemos mestres respeitáveis – pensadores que, na defensiva, se recolheram diante da imposição onipresente do conservadorismo. Aprendemos a discursar para não desagradar ninguém – a meio-tom – sereno e sem problematizar. Perdemos o ímpeto desafiador, ganhamos o medo de errar. Passamos duas horas justificando o que não somos para, ao final, tentar – se algum tempo sobrar – dizer o que somos. Ganhamos pequeninos pontos entregando o jogo para o adversário.

Com o tempo, viramos cínicos. Passamos a rir da esperança. Abrimos mão de ideais abrangentes para ficarmos com nosso pequeno quinhão do todo, afinal, é inevitável. Vestimos gravatas. Aprendemos a falar de direitos humanos e um vocabulário neutro que nos garante uma isenção de “polêmicas ideológicas” tão forte que se tornou, no mesmo passo, anódino. Aprendemos a escrever textos sem cheiro. Não desagradamos ninguém; estamos no centro. Murchamos. Nos tornamos bons para todos. Aprendemos a falar sem ofender os fascistas. Falamos para fascistas, tentando convencer fascistas. E perdemos, com isso, tudo. Nos tornamos coniventes com os crápulas.

Para nossa sorte, existe o tempo. Tempo para perceber que a política ainda vive; um pouco adormecida, mas como que se recuperando de um luto necessário. Política que, na sua potência crítica, é a esfera das formas-de-vida, e não um apanhado de burocratas engravatados deliberando suas negociatas. Política que não se faz pela burocracia jurídica, por um parlamento corrompido, por um executivo comprometido. Política que se faz contra o poder, não para o poder. Política que, retomando o elo cortado pelo liberalismo, reata o nó originário com a ética que sempre manteve. Essa é a única política.

As multidões que são a rua querem política. Querem viver melhor, não entregar sua existência para plutocratas vulgares tomarem champagne nos seus iates enquanto criticam a gentalha. A multidão sabe que o que nos separa da felicidade é, antes de tudo, o medo. Multidão que assume a responsabilidade pela transformação, desafiando a violência do poder. Há quem torça contra tudo isso para confirmar suas hipóteses cínicas. Não será isso, no entanto, que apagará a chance que se apresenta, chance cujo tempo não para de renovar.

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41 respostas em “SOBRE A MINHA GERAÇÃO E A POLÍTICA

  1. “Eles não querem mais aventuras: só futricar na velha estufa, aquecer a velha cama, críquete no inverno, sonolência de folha morta em jardim seco na casa geminada aos domingos. Se vier o admirável mundo novo de lambuja, bem, certamente haverá tempo para se adaptar a ele… Mas esta semana querem o luxo de quase pós-guerra de comprar um trem elétrico para o filho, tentando desse modo obter para uso próprio um conjunto de rostinhos sorridentes, calibrando sua estranheza, fotografias tão conhecidas agora ganhando vida, ahs e ohs mas não ainda, não aqui na estação, nenhum dos movimentos mais necessários: a Guerra os desviou, os enterrou, esses imprudentes, esses destruidores sinais de amor”. (Pynchon, O Arco-Íris da Gravidade, p. 141).

  2. um dos teus melhores textos, velho! apesar da escrita leve, contém um conteúdo pesado e extremamente contundente. parabéns!!
    abraço!

  3. Parabéns,

    belo texto, ainda mais quando descreve os sentimentos de descrença da nossa geração para com a realidade!

    Um abraço!

  4. Tão bom que me parece o contrário, Achutti, pra mim o texto do Moshe não contém, mas LIBERTA o conteúdo… deixa-o livre e vivo pro pensamento e ação política!!

  5. Lindo, lindo. Além de falar da nossa geração e da política, pensei muito nos atuais jornalistas nos primeiros parágrafos. Essa profissão que outrora foi tão menos conformada…
    um beijo!

  6. Sensacional mesmo! É necessário ter isso sempre em mente…

    O texto ainda me fez lembrar de um senhor norueguês de 83 anos, que, em um encontro de não mais de 3 horas, mostrou-me com a naturalidade de um ancião o quanto ele é ativo quando se trata de defender ideais anti-autoritários. E como o autoritarismo é propagado quase diariamente sob os mais diversos disfarces democráticos, “todos os dias”, segundo ele, “há muito o que fazer”…

  7. Pingback: Também falando sobre a minha geração « Efêmeras Partidas

  8. Muito foda mesmo Moysés. Um dos melhores textos que já li. Sério mesmo.

    Tinha que mandar pra todo mundo na faculdade. Mas, por eles serem exatamente como tu descreveu, sequer entenderiam. Triste.

  9. comentário que será igual aos outros comentários, portanto não faria se não achasse mesmo que é de um igual que vale a pena ser repetido porque não posso fazer nada se concordei previamente com a opinião dos outros no momento em que lia o texto:

    uma das tuas melhores expressões; acho que com esse texto aqui tu mostras um pouco daquilo que proclamou tantas vezes sobre o conteúdo político da arte. essa é uma arte política tua.

    esse texto me fez sentir algo quando o li, e isso é suficiente para demonstrar sua intensidade poético-política, a força de quando uma coisa atinge a capacidade artística da comoção que é um passo contundente para a transformação do que quer que seja.

    gostei muito dele, parabéns!

  10. Lindamente escrito, Clarissa… capta a essência da idéia fundadora, ou refundadora, da idéia que forma uma civilidade, que alerta e elucida os que dormem e vêem com obscuridade (todos nós).
    É o Post dum camarada que, a cada vez que escreve, e tenho o prazer de lê-lo, me faz ABRIR os olhos um pouco mais, ESTICAR o pescoço um pouco mais, ERGUER o nariz um pouco mais, BATER os pés e as mãos um pouco mais, pra que eu consiga um pouco mais, a cada vez que os leio, sair do abismo, cheio de lodo, da insana e tonta OBSCURIDADE cega, estúpida e árida. Abre los ojos!!!

  11. Um texto inspirador, mais que isso – um fôlego ao coração que anseia mudanças.
    Estamos nos replicando, estamos nos rebelando, estamos nos acreditando, estamos evoluindo nossa esquerda.

    Muito obrigado e parabéns! 😉

  12. Muito bem, futuro doutor.. Mas, o que você propõe?

    Deixando de lado o tom panfletário e quase teatral, diga-nos: o quê, de fato, prega?

    A julgar pela frase “(…)o Muro de Berlim caiu (eu tinha apenas 9 anos) e, com ele, todas as possibilidades de uma esperança radical em outro mundo”, temo que não seja nada muito palatável.

    Bem, mas o que esperar de quem não sabe identificar o lugar desde onde prega? Perdoe-me. Tenho de me corrigir. É impossível que um professor universitário, mestre e futuro doutor não saiba que o seu discurso é esquerdista a não mais poder.

    Diante disso, como justificar tamanha deslealdade intelectual ao colocar-se numa posição que provavelmente nunca ocupou? Refiro-me não somente a este trecho, mas também a ele: “(…) Aprendemos a falar de direitos humanos e um vocabulário neutro que nos garante uma isenção de ‘polêmicas ideológicas’ tão forte que se tornou, no mesmo passo, anódino. Aprendemos a escrever textos sem cheiro. Não desagradamos ninguém; estamos no centro. Murchamos. Nos tornamos bons para todos. Aprendemos a falar sem ofender os fascistas. Falamos para fascistas, tentando convencer fascistas”.

    Não é preciso muita perspicácia para perceber que o seu texto pode ser tudo, menos imparcial, neutro, livre de ideologias.

    Não tivesse a certeza de que encontraria ouvidos moucos, poderia tentar identificar alguns dos incontáveis absurdos do seu texto, que parte de visões distorcidas da realidade histórica, tenta conspurcar valores tradicionais e ainda se nega a chamar as coisas pelo nome, tentando inutilmente esconder as cores do estandarte que traz, fulgurante, por sobre a fronte.

    A propósito, impossível não lembrar daquela famosa passagem de Romeu e Julieta: “What’s in a name? That which we call a rose / By any other name would smell as sweet”.

    Nesse caso, porém, a mudança de nomes esconde odores bem pouco agradáveis..

    Com a certeza de que serei enxovalhado, deixo ao tempo a tarefa de demonstrar que o seu texto não é senão.. como é mesmo, doutor?… ah, sim, anódino.

  13. O comentário super reaça aí do João é bem engraçado, mas realmente deflagrou uma coisa interessante no teu texto, professor. Estás te queixando da falta de articulação, mas deixar de chamar as coisas pelos nomes não é algo igualmente desarticulado? Se realmente o João está certo e o professor está chorando as pitangas vermelhas que não brotam mais, porque não trotskiar deliberadamente?

    Eu, particularmente, prefiro acreditar que o professor não esteja nessa onda. Prefiro acreditar que o professor não queira mais discutir nesses termos, porque afinal das contas, depois de URSS, China, Cuba e o escambau darem os doces, podemos perceber que essa lenga-lenga bolchevique não nos levou a merda nenhuma. A herança marxista não salvou o mundo, só explicou de uma certa maneira como ele funciona, assim como tentam os físicos, os antropólogos, Marie Curie, o Dalai Lama e os filósofos New Age.

    No fim, quem tem razão mesmo é o Barthes: tudo é discurso. Acredita quem quer, duvida quem pode. Continuamos os hebreus que sempre fomos, carregando as pedras para erguerem-se os templos (pirâmides, coliseus, castelos, igrejas, palácios, shopping centers). E por quê?

    Medo.

    Medo do futuro incerto. Que sempre foi incerto, sempre será incerto. E depois, quando virou passado, o futuro, temido pelos então jovens velhinhos, não passa de um tempo enfadonho que sabe-se lá se valeu a pena ter vivido. Viva a chatice!

  14. João, aquele que coloca qualquer nome porque tem medo de se identificar (se tens ideias tão boas, por que não as assina?): certamente se esperavas um escrito “neutro e imparcial”, ou se entendeste isso lendo o post, recomendo retornar ao básico: interpretação de texto.

  15. É divertido mencionar Marx, Muro de Berlim e assim por diante porque imediatamente as viúvas macartistas aparecem.

  16. Nunca alguém que eu gosto e confio teria a desonestidade de postar sem assinar por aqui.

  17. Sintomático… o cético/cínico vidente senhor do tempo e da história, ao invés de buscar o caminho honesto e corajoso de manifestar suas idéias a respeito do maravilhoso mundo no qual ELE vive, que não necessita de qualquer reparo, a não ser o da continuidade da degradação programada, usa um pseudônimo, decerto pra confirmar seu desejo oculto/declarado de ser enxovalhado, ao invés de se propôr a então, se incorporar numa conversa minimamente honesta.

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  21. “visões distorcidas da realidade histórica” – a quem me mostrar a realidade histórica eu entrego a minha vida! que história é a história? a história é construída e feita de versões. a menos que chegue o onisciente imortal que atravessou a história sob todos os ângulos e me apresente a realidade pura.

    Pedro, concordo que não ´houve salvação nenhuma e que tudo sirva para explicar o mundo, e apesar disso, nem tudo é igual num sentido micro e não macro: a diferença está no quanto se esteve disposto a lutar e inclusive morrer por um ideal, ou a despojar-se, pois a única história que importa é essa feita pelos indivíduos e ela é tão cheia de manchas quantas são as nossas próprias mazelas individuais.

    Cito um exemplo, a ironia circunstancial de um ser que para mim foi absurdamente revolucionário: Madre Teresa. Alguém membro de uma instituição conservadora e reacionária foi uma mulher que de fato contestou o mundo com mais efetividade que todos os discursadores contestam, porque agiu, abriu mão de si.

    Aí está o fato mais doloroso de admitir: a política, a história, o capitalismo, não são ameaças exógenas, somos nós, somos eu e tu, estamos enrodilhados nisso, fazemos parte disso e fomos criados como parte de tudo, ao mesmo tempo em que criamos, nós em nossas relações, é isso o que existe e o resto é abstração. É por isso que a coragem de ultrapassar os discursos é sempre muito rara. E eu admito minha parcela de covardia. Uma das covardes que fazem a história. Sou isso como desafio alguém a provar para mim que não é tanto ou mais que eu, sabendo que corre o risco de ser morto, de ser enclausurado, de ser perseguido, de ser tachado de louco.

    Por isso continuamos os escravos hebreus que juntam as pedras das pirâmides com os braços, por isso, porque no fundo nem mesmo os faraós sabem bem a que vieram ao mundo… é o medo do que fazer do tempo que passa, é o medo do que não fazer dele, é o medo congelante que nos prende e nos trai, afinal é o medo de buscar algo que vá ser em vão o que nos torna um em vão justificado para si mesmo.

    (quero pedir aqui, no fundo convicta de que todos possuem inteligência suficiente para isso, que se lembrem de respeitar opiniões contrárias as suas porque preciso acreditar que em alguma parte do mundo as pessoas não falam simplesmente como jogo de poder e arrogância, falam para pensar sobre o mundo e crescer efetivamente a partir das trocas)

  22. Acho que a proximidade ainda maior é com o olavinho de carvalho…

    Eu prefiro Jack Kerouac.

    “Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.”

  23. Tentando explicar: o que o autor do post prega é a ressurreição da verdadeira política, dos sonhos, da possibilidade efetiva de mudança. Talvez isso não desça bem nas goelas cheias do neoliberalismo.
    É garantido que o blogueiro sabe do que fala, de suas insinuações e inspirações. Esquerdismo, enquanto vontade de mudar, não comporta outro comentário senão o elogioso.

    Não foi neste post que o Professor tentou a via inócua e insípida de expressão. Essa obrigação acompanha a nós, sonhadores, desde o dia em que nos conscientizamos de que o somos. O sonho não é bem-visto – ele é um devaneio. Tenha pés no chão, e poderás entrar na minha casa. Seja um inodoro pária em uma sociedade evidentemente injusta, e poderás beber do meu champagne.

    Neste texto, muito mal interpretado por alguns, o autor foi absolutamente contundente e vibrante, como eram os grandes, os que deixaram saudade. Você certamente entendeu. Não há a intenção de omitir quaisquer que sejam as inspirações que norteiam os rumos do pensamento e da própria expressão. Elas são claras, inerentes, brilhantes e – graças a Allah – ainda latentes!

    Lembrar de, e citar Romeu e Julieta, aí sim, é que pode omitir algum tipo de sensibilidade e, por que não dizer, delicadeza significativa, o que nem de longe é razão para crítica. Lembro aqui que Jair Bolsonaro nunca admirou os revolucionários. Pelo contrário, o que interessa a gente como ele é a manutenção do status quo.
    Então por que não se juntar aos subversivos, não-palatáveis, de odor pouco agradável, em nome da defesa dos direitos desta minoria também? Eu não recomendaria se aproximar demais do Sr. Deputado Fascista…

  24. Pingback: Tomar a potência, desinflar o poder | Para Ler Sem Olhar

  25. Excelente texto Moysés. Parabéns!
    Você falou muito bem sobre o medo.
    Com certeza esse tal João te conhece e está com medo de ti. Se ele não tivesse tanto medo de doutor eu indicava um psiquiatra pra ele.

    Abraço.

  26. Moysés,
    Para quem, como eu, que participou do sonho de um mundo melhor, sem classes e igualitário e viu, já passado dos 40, parte substancial do seu mundo ruir em 1989, o seu texto é alentador.
    Obrigado.

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