POLÍTICA NORMAL E POLÍTICA REVOLUCIONÁRIA

É arquiconhecida a tese de Thomas Kuhn em torno das questões de “paradigmas” na ciência e a diferença entre “ciência normal” e “ciência revolucionária”. A ciência estaria geralmente no ponto normal, isto é, com discussões internas a determinado paradigma. Contudo, em certos momentos o esgotamento dos limites desse paradigma e a necessidade de novas respostas põe em xeque ele como um todo, provocando o surgimento de um novo campo teórico incomensurável ao anterior.

Essa divisão talvez possa ser igualmente ser pensada na política (levando em consideração de “normal” e “revolucionário” já são termos exportados da política para a ciência). É possível uma divisão entre questões de política normal, isto é, das estratégias para, dentro do paradigma atual (liberalismo político e cenário contemporâneo), apresentar alternativas viáveis dentro de determinado posicionamento político (por exemplo, na redução da desigualdade social ou soluções jurídicas capazes de efetivar direitos humanos). Essas questões, contudo, estão longe de esgotar a política.

Na realidade, também a “política revolucionária” é necessária, à medida que aponta para rupturas radicais que transformam todo horizonte de sentido interno a certa configuração da política. Isso significa questionar, por exemplo, os fundamentos do Estado, do Direito, a ideia de contrato social e direitos humanos, a propriedade privada, a democracia representativa e todas as instituições que sustentam o liberalismo político (paradigma dentro do qual neoliberalismo e social-democracia, para dar apenas um exemplo, duelam). Essa política revolucionária põe em questão todos esses conceitos, provocando um arrombamento no quadro político atual. É o que acontece, por exemplo, quando percebemos que a questão da conexão entre novas tecnologias e propriedade intelectual provoca a erosão de toda uma concepção moderna estruturante dos principais institutos jurídicos a partir do “próprio” (que fomenta, entre outras coisas, a própria ideia de liberdade e de indivíduo). Nesse caso, abre-se um horizonte em suspenso cujas possibilidades são praticamente ilimitadas. É esse horizonte que temos de abrir.

Sem a “política normal”, a “política revolucionária” corre o risco de ser utópica, repetindo os erros dos grandes projetos totalizantes da Modernidade cujos efeitos conhecemos bem, ou ainda quietista no seu desejo incessante de pureza. Por outro lado, sem a “política revolucionária” a “política normal” desanda em pragmatismo, cinismo e tecnocracia, reduzindo a esfera das nossas formas-de-vida à mera “governamentalidade”, o que significa, em outros termos, deixar a política morrer em nome da administração e deixar de responder à injustiça concreta à qual toda política deve responder, não porque isso esteja em sua essência, mas porque o mundo se tornou assim. Atravessar de um a outro é sempre um percurso delicado que exige cuidado e alguma estratégia. O importante, contudo, é jamais deixar que a estratégia sobrepuje a possibilidade do alcance daquele ponto a que visa toda política que cobice a felicidade: o ingovernável.

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4 respostas em “POLÍTICA NORMAL E POLÍTICA REVOLUCIONÁRIA

  1. “revolucionário” é mau adjetivo, já dizia Lacan. Melhor adotar “subversivo” – até por ser um adjetivo de predileção dos reacionários, e é muito melhor quando a gente se nomeia pelo Outro (não foi por outro motivo que Freud chamou o inconsciente de inconsciente e o isso de isso: já corria a boca-miuda no populacho anti-psicanalítico).

  2. Política “normal” significa permanecer na situação administrativa da atualidade!
    POLÍTICA REVOLUCIONÁRIA SIGNIFICA MODIFICAR ESSA REALIDADE!
    Agora você escolhe, de qual lado ficar!

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