DROGAS, QUESTÃO DE GUERRA

Há um campo rico e multifacetado que envolve a questão das drogas contemporaneamente na exata inversa proporcionalidade à forma como o tema é tratado pela grande mídia e pelas pessoas mais desinformadas. Esse campo envolve a regulação jurídica das drogas, as políticas para usuários problemáticos, a cultura psicotrópica, a cultura do tráfico e os usos medicinais dos entorpecentes. Contraste brutal com o simplismo atroz da mensagem uníssona repetida e batida com o martelo do tabu no Brasil: drogas são a desgraça da família, a porta para o crime e a causa de toda violência urbana. Mensagem que, de tão fácil desconstrução, não recebe a possibilidade de contestação salvo em espaços curtos e bem fechados, sob pena da máscara de hipocrisia desabar vertiginosamente.

Me restringirei apenas a um problema: o propriamente político. Michel Foucault convencionou chamar de “biopolítica” aquele enfoque que se desvencilha das formações jurídico-institucionais na análise do poder para vê-lo incidir diretamente sobre os próprios corpos dos viventes. Passa a interessar ao poder sobretudo o fazer viver desses corpos, ou seja, o controle higienista e sanitarista sobre as grandes populações humanas. Nesse sentido, podemos dizer que a prevalência do enfoque médico na gestão do corpo do usuário é sobretudo uma questão de alta densidade biopolítica, que envolve sobretudo a apropriação da dimensão que poderia ser reservada, seguindo o próprio Foucault, ao “cuidado de si” do usuário por um poder que a gestiona segundo critérios higienistas de abstinência total.

Essa questão é grave, mas certamente não é a mais grave envolvendo a questão das drogas. Giorgio Agamben, seguindo o rastro de Foucault, apresenta como essa biopolítica higienista do final do século XIX vai gradualmente dando espaço à ciência nazista que faz do corpo humano não apenas objeto de observação, mas igualmente de intervenção, transformação e experimentação livre, baseada na “indignidade” do vivente que ali não fazia jus ao epíteto de “humano”. Apoiada no racismo e na eugenia, essa tendência vai gradualmente transformando a biopolítica em thanatopolítica, ou seja, a política do “fazer viver” em “fazer morrer”. Os campos de concentração são o exemplo dessa “limpeza” efetivada da forma mais científica e administrada possível. O extermínio dos judeus não foi chocante pela sua irracionalidade, mas exatamente pelo contrário: sua racionalidade.

A questão das drogas no Brasil não é hoje apenas uma questão de saúde pública convertida em questão de polícia (como tudo no Brasil). É questão de guerra e paz. Gradualmente, por meio de operações militares de extermínio de traficantes nas favelas em número cada vez maior e cada vez com maior aprovação popular, a política de drogas foi se convertendo de uma biopolítica de gestão do corpo do usuário para uma thanatopolítica de extermínio dos traficantes, ou seja, de parte da população miserável no Brasil. Essa é a questão fundamental a ser discutida. Mais importante que as culturas alternativas e a valorização da diferença do usuário, mais importante que o desvelamento da hipocrisia reinante em todas as camadas sociais em torno do uso é perceber uma operação de extermínio em massa em pleno desenvolvimento. É, em síntese, interromper uma guerra.  Por isso  ser favorável hoje a uma nova política de drogas é ser, antes de tudo, um pacifista.

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2 respostas em “DROGAS, QUESTÃO DE GUERRA

  1. aí sim!!!!
    aí é que me refiro!
    dale dale Moysés!
    espetacular post, mesmo com tanta linguagem acadêmica.
    é o preço, cujo pagamento é absolutamente necessário.

    um abraço

  2. Pingback: MARCHA DA MACONHA 2011: tire o Voltaire do convite e bote ele no PARQUE « /gabrieldivan

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