ROCK E REVOLUÇÕES ÁRABES

Lendo o ótimo dossiê da Revista Cult acerca dos países árabes e suas revoluções constatei em dois artigos a influência do rock (em especial do heavy metal) e do hip hop como elementos que impulsionaram a juventude dos países a lutar pela democracia e pela liberdade. Não muito diferente, aliás, do que foi o rock como força impulsionara dos movimentos do 1968 – heterogêneos entre si – mas que constituíram o último suspiro do político no século XX.

Com isso, creio que lamentáveis livros como o de Finkielkraut, no qual ataca o rock como decadência da cultura, vão parar no lugar onde deveriam estar: na prateleira dos velhos nostálgicos e rabugentos. O velho nostálgico é dono daquele cansativo mantra: “no meu tempo era melhor, agora está tudo decaído, perdido”; o velho rabugento é aquele que reclama de tudo indiscriminadamente, veiculando uma espécie de pessimismo difuso que não raro se encontra com o preconceito. Livros como o de Finkielkraut e toda turma que vê fenômenos contemporâneos como o rock e a tecnologia de ponta como sintomas de decadência terão que ser revistos imediatamente a partir das revoluções árabes, embaladas pelo rock e mediadas pelo twitter e pelo facebook.

É evidente que isso não significa, de outra mão, um otimismo tolo com relação a esses fenômenos. Como em tudo, a política está também presente tanto no rock quanto nas novas tecnologias. O rock é atravessado pela disputa entre o movimento de consagração (a separação que estetiza a política, retirando dela seu sentido vital) e o movimento de profanação (o novo uso que politiza a arte, transformando-a em forma-de-vida). De um lado, estão os defensores do cânone e os produtos da indústria do espetáculo (estes últimos provavelmente os alvos de Finkielkraut, que contudo banalizou demais as coisas até um ponto em que a indiferenciação se torna violenta e preconceituosa), que estetizam a dimensão vital do rock, transformando-o em artigo formulaico e repetitivo, ou simplesmente uma forma vazia que se vende ao lado das balas e dos chocolates. De outro, estão aqueles que buscam com o rock transtornar a ordem, invertendo o sagrado na dimensão do maldito profanado, isto é, de um maldito que não quer ser o oposto do sagrado, mas apenas desestabilizá-lo, tirá-lo da esfera separada, desfazer seu arranjo violento. Esse maldito profanado – que é a própria essência de algum heavy metal – por óbvio teve o efeito de desfazer a concentração das energias políticas do Oriente Médio na religião (que por sua vez permitiu a ascensão dos fundamentalismos) – permitindo à juventude reivindicar novos arranjos políticos. O hip hop, por outro lado, seguindo sua tradição, foi o próprio grito das vozes silenciadas, fazendo ecoar a alteridade que era sufocada pelas polícias diversas que organizavam esses países.

Espero que, diante das revoluções árabes, as críticas de certa esquerda rabugenta possam ser capazes de perceber as sutilezas desse processo, substituindo seus preconceitos de pura rabugice por uma parceira produtiva com todas as forças subversivas que possam contestar as forças que mantém a injustiça nas nossas sociedades.

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3 respostas em “ROCK E REVOLUÇÕES ÁRABES

  1. Impossivel nao lembrar de Marjane Satrapi em “Persepolis” nos mostrando que o hard rock (mesmo o chamado hard “farofa”) tinha algo de impulsionador da contra-corrente, uma vez que seus discursos de “liberdade”, mesmo uma “liberdade” programada dentro de standards culturais made in USA (pegar sua GATA, correr acima da velocidade num MUSTANG ou HARLEY bebendo sua BUD…) ecoavam, e muito.

    Logicamente, ainda temos algumas divergencias: nao me agrada muito essa total distincao entre o rock “bom” e o “ruim” (as dimensoes politico-historicas de um Jaegger rebolando no “Circus” e um David Lee Roth se macaqueando no Van Halen original sao claras, mas ambos provocam catarse e nao se pode dizer que os 80tistas queriam apenas “vender pepsi” com sua musica. Nao pode haver raiva de quem pegou o desbunde “pronto” no supermercado, apenas por esse fato. Tem joio e trigo ali).

    No livro aquele que te falei, sobre o futebol, Foer mostra como nao adianta censurar anuncios “eroticos” e profanos” se os proprios jovens iranianos ainda que assistindo um jogo no “mute” conseguem ver que a CADA partida Beckham ostenta um novo penteado e isso ja passa o sinal que os fanaticos querem coibir.

    Em lugares assim ideologicamente dominados por teologicas sufocantes, a liberdade transborda dos poros ate de uma foto do Restart.

    Mas, enfim, grande premissa/analise.

    PS: ENFIM, ainda que em ARABE, uma imagem no blog que alude a bandas que EXISTEM, no caso, a unica banda de rock (Motorhead) e a maior coisa que a segunda metade do seculo XX produziu (Ramones). Pensei que ia ficar naquele negocio de “Guillemots” para sempre.

  2. Yeah yeah yeah… yeah yeah yeaaaaahhh (Kurt Cobain).
    To com saudade de ti rapá, vamos marcar algo aí.

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