ANTI-ANTI-PETISMO

Uma das polêmicas mais célebres do final do século XX travou-se entre os brilhantes intelectuais norte-americanos Clifford Geertz e Richard Rorty. Geertz, rechaçando os universalismos nostálgicos que alertavam contra os “perigos do multiculturalismo”, posicionava-se como um anti-anti-relativista. Do outro lado, Rorty defendia, em resposta a essa posição, um anti-anti-etnocentrismo. A ambos incomodava sobretudo os “antis”, ou seja, aqueles que, no intuito de se posicionarem contra algo, distorcem esse algo a tal ponto que ele fica irreconhecível.

Não sou petista. Votei em Dilma no segundo turno e em Tarso Genro no primeiro não porque sou petista, mas porque não sou antipetista. A meu ver, eram os melhores candidatos nas circunstâncias. Não me identifico mais com o PT nem com seus principais políticos, nem reconheço na sua atuação grande parte do que suas plataformas têm de mais positivo e inovador. Não me sinto abrangido pelo petismo, tendo identificado alguns rastros do que eu gostaria de ver defendido na candidatura Marina Silva ao Planalto. Tento desenvolver isso aqui no blog nos últimos posts, tratando sobretudo da reconfiguração do cenário político no século XXI.

Conheço pouca gente tão chata quanto petistas dogmáticos. Detesto gente que acredita votar em um partido infalível. Detesto quem tem aquela visão fanática, caolha e cansativa que parece não ter visto os últimos 20 anos passarem. Só tem algo que detesto mais que esses petistas: os antipetistas. Nada pode ser mais burro do que aquele que se define pelo verso do outro. Nada pode ser mais entediante, previsível e anacrônico do que a retórica antipetista. Nada pode ser mais lamentável do que ver alguém que, na falta de ideias, vive traçando a caricatura do outro, atacando o outro para sobreviver. Falou que Lula é um “bêbado” ou que Dilma é “terrorista”, para mim é burro(a).

Evidente que isso não significa que a política não viva do conflito, do confronto, da oposição. É claro que sim. Porém não se trata, a rigor, de um confronto de ideias, mas sim de estereótipos, de projeções, de dramas mal-resolvidos e sobretudo de ignorância. No imaginário do antipetista, tudo que é petista é maldito, imundo, baderneiro. Portanto, para o antipetista o mundo está organizado; o petista é que quer bagunçar. Isso, evidentemente, só pode ser admissível para o conservadorismo mais atroz, haja vista que qualquer mínima sensibilidade permite perceber que o mundo em que vivemos é insuportavelmente injusto, violento e irracional. O antipetista se protege dos problemas que lhe poderiam tirar da zona de conforto por meio de uma denegação sistemática, traduzindo esse mecanismo a partir da imagem do petista baderneiro. Vive das imagens mais toscas, caricatas e dos preconceitos mais arraigados. Mantém o senso comum mais rasteiro e vulgar. Não é capaz de questionar minimamente sua doxa, reagindo com ódio e agressividade diante de todo aquele que lhe questionar. Em outras palavras, todo antipetista está muito próximo, se não coincide, com o fascista. Seu ódio é um ódio difuso e ilimitado, um ódio no fundo contra toda e qualquer possibilidade de transformação e esperança, haja vista ser ele simplesmente um poço sem fundo de medo. Todo esse medo ele projeta sobre uma única figura que serve como bode expiatório da sua projeção: o PT. Elimine-se o PT e os problemas acabam.

Isso é tão rasteiro, tão vulgar, tão incomensuravelmente simplório que só me resta me definir atualmente como um anti-anti-petista. Não me comprometo com o PT nem com suas políticas. Vejo pontos críticos nevrálgicos no “Projeto Chinês” que os Governos Lula-Dilma estão levando adiante. Porém a oposição antipetista (que não é toda oposição, mas boa parte dela) é ainda pior. Ser anti-anti-petista não é aderir ao PT, não é ratificar os absurdos que o PT pratica no poder, mas simplesmente não rejeitar a priori o PT como se ele fosse a imagem do mal sobre a Terra, como se ele fosse simplesmente aquele nome proibido que não pode ser dito – como se ele fosse um tabu. Ser anti-anti-petista é um convite, afinal, ao fim da burrice e início da política.

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11 respostas em “ANTI-ANTI-PETISMO

  1. Gosto muito daquilo que fica por tras da palavra “politica” usada por ti em alguns textos. Gritante a impossibilidade de comparacao com o uso do termo por praticamente 92% da imprensa e dos proprios “politicos”.

    A tentacao foi GRANDE e sucumbi a ela varias vezes quando a “aura moral” do PT despencou depois que virou governo: me irritava ao nivel da loucura o fato de o PT se considerar como proprietario do MONOPOLIO da boa vontade.

    Quando vi que ia ser cooptado por um anti-petismo acefalo, percebi e ESTANQUEI.

    O anti-anti TEM QUE SER a postura dos nao-burros, em politica (POLITICA).

    Ps: Voce eh lindo (2)

  2. Perfeito (não tu. O texto).
    Posso garantir que aconteceu tudo isso, por ter vivido contigo e com o GD essas metamorfoses mencionadas por vocês.
    Já cheguei a rastejar para o outro lado. Estive DS por alguns anos. Mas larguei.
    Política é muito mais do que dizem, mesmo. E, desde pequeno, eu sei bem disso.
    Já cheguei a pensar que minha missão na Terra era estudar relações interpessoais. Quem sabe fosse. O problema é que no meio do caminho tinha uma pedra…e não tenho certeza se, optando pelo centrismo constante, eu conseguiria dormir. Melhor opinar e ver no que dá.
    “Alex” é unissex, né?
    abraços

  3. Melhor seria “não-idiotas”, no sentido Lacaniano do termo; isto é: psicanalistas supostos – no sentido de “gente que não se engana com a fantasia e não toma o desejo por realidade”.

  4. Assino embaixo, mas há que se ter cuidado: há uma positividade em ser anti-; nem todo anti- quer reduzir o objeto antagônico ao ridículo.

    É fundamental que a esquerda seja anti-capitalista nos principios, por exemplo, coisa que o PT perdeu (e não precisa ser PSOL-PSTU pra ser anti-capitalista nos principios: Miterrand era); é fundamental que a Reforma Psiquiátrica seja Anti-Manicomial, sem o que ela não sabe bem pra onde está indo; e que os movimentos em prol do direito às cidades seja Anti-Carro, porque nada destruiu tanto essa coisa que Hausmann inventou no fim do século XIX, as metrópoles, do que os automóveis individuais privados – embora metrópoles não possam existir sem o uso motor: taxis, ônibus, etc. E que a Reforma Cultural Bahiana seja anti-AxeSystem, embora não contra o axe-music enquanto uma estética entre outras.

  5. É incrível como para a mentes menos privilegiadas o “tosco” e o “irracional” soa como persuasivo. Ora, eu não sou contra nem a favor do seu texto muito pelo contrário. Isso é lógico? Só na cabecinha pequena de professores de sociologia e de filosofia formados pelo marxismo enrustido. Esse tipo de revisionismo retórico “faz sentido” para quem se deixou seduzir pelos encantos mentirosos de um relativismo fácil, injustificado, mas popular.

  6. É incrível como para a mentes menos privilegiadas o “tosco” e o “irracional” soa como persuasivo. Ora, eu não sou contra nem a favor ao seu texto, “muito pelo contrário!”. Isso é lógico? Só na cabecinha pequena de professores de sociologia e de filosofia formados pelo marxismo enrustido. Esse tipo de revisionismo retórico “faz sentido” para quem se deixou seduzir pelos encantos mentirosos de um relativismo fácil, injustificado, mas popular.

  7. Jair, sou seu amigo Fred, de Natal. Preciso muito falar-lhe. Por favor entre em contato.

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