UM OUTRO BRASIL

Não resta dúvida que o Brasil desse início do século XXI é mais próspero do que aquele que terminou o século XX. As paranóias delirantes de sintomas autoritários e “ocupação do Estado” não passam disso: paranóias. Por outro lado, o discurso da corrupção não é forte o suficiente para colocar em xeque as mudanças atuais, cujos reflexos são sentidos por todos na melhoria das condições de vida, na existência de oportunidades, no horizonte que se avizinha. Escrever exige alguma responsabilidade e não é possível ignorar que o “projeto chinês” adotado por Lula e Dilma, com o acréscimo substancial da democracia, não é desprezível e vem produzindo muitas coisas interessantes e urgentes no cenário brasileiro. E, no entanto, é pouco.

É pouco porque é tarde demais para ele. O século XX, era do industrialismo e da social-democracia, terminou. Dele trazemos nossas melhorias tecnológicas, mas também uma enorme quantidade de lixo, usinas nucleares, armas de destruição em massa e o não-solucionado problema da pobreza: seja na falta de acesso a bens mínimos (alimentos, medicamentos, saneamento básico), seja na permanência da exclusão cultural (por falta de educação de qualidade ou pelo preconceito). É tarde demais para executar aquilo que o Brasil planejava nos anos 50: incrementar sua indústria, fortalecer o mercado interno, promover crescimento econômico. Tarde porque a Terra agoniza: a nossa casa pede a todos os seus habitantes que parem de agredi-la, que interrompam a sucção ilimitada, que não se voltem a ela como um objeto a ser dominado. É verdade que os benefícios desse processo de sucção não foram suficientemente distribuídos; que apenas alguns, na sua maioria do Atlântico Norte, usufruíram desses benefícios. Mas o problema é que não há mais tempo – é preciso conviver com a finitude – para compensações. A Terra é finita, disso podemos ter alguma certeza, apesar do obscurantismo que não raro frequenta o coração do centro de onde as principais decisões são tomadas (e onde supostamente, segundo as teorias metafísicas da política, deveriam estar os mais racionais).

Trata-se, portanto, de perceber a necessidade de uma virada. Nesse sentido, afora o arcaísmo a que alguns gostariam de retornar (por exemplo, os que desprezam a “nova classe C” porque ela deveria retorno aos morros e senzalas), disputam dois grandes projetos no Brasil: o “chinês”, capitaneado pelo PT, e algo ainda difuso, baseado na ideia de sustentabilidade, cuja força mais representativa nas eleições foi Marina Silva. Evidentemente, grande parte da esquerda não entendeu isso. Os petistas mais tacanhos não viram diferenças entre o projeto de Marina e o “neoliberalismo”. Coisa triste mesmo, e alguns foram até convidados para ocupar importantes secretarias por Dilma.

O outro projeto – aquele que gostaria de recolocar as coisas em outras posições – envolve um complexo de iniciativas que passa da educação e cultura até a economia e infraestrutura. Não é apenas um projeto de “inclusão social” baseado no trabalho e, em termos macro, no crescimento do capital nacional (PIB). É um projeto que colocaria o Brasil na vanguarda em relação aos demais países. Ele seria uma estratégia de expansão dos sistemas de educação, cultura e tecnologia voltados para a dimensão sustentável, isto é, a formação de engenheiros, químicos, físicos, biólogos etc. para pensar a produção de tecnologias nacionais limpas, baseadas, por exemplo, na energia eólica e solar. Ao mesmo tempo, poderia congregar pesquisadores das ciências humanas e da filosofia para pensar as possibilidades de criação de uma nova ética e cultura, e seus marcos jurídico e político, baseada na percepção da importância da diversidade cultural, na riqueza mestiça brasileira, nas tradições marginais negra e indígena, no repensar as relações entre o humano e demais viventes. Projeto coletivo que envolveria investimento maciço em pesquisa e educação para construir outro país. Ao mesmo tempo, uma reconfiguração das cidades baseadas numa visão mais holística, isto é, menos preocupada com questões privadas (o empresário tal quer fazer a obra tal; vamos fazer, dá empregos) e mais com uma visão total da cidade, baseada na qualidade de vida e na sustentabilidade. Isso significaria reposicionar a arquitetura urbana baseada no carro, por exemplo, e privilegiar bicicletas, metrôs e ônibus. Significa reviver a urbe aberta dos cinemas de rua em lugar das salas de shopping centers. Significa restringir condomínios fechados e arranha-céus que prejudiquem a paisagem urbana, em especial em áreas sensíveis onde há sol para todos. Atacar os focos de extrema pobreza como prioridade absoluta, dando maior qualidade de vida para quem está lá. E daí por diante. Tudo isso pressupõe o salto que mencionei em certo post: da quantidade (dos números da economia) para a qualidade (o retorno da política).

Essa reflexão vem de uma conversa com colegas de doutorado da disciplina Filosofia da Ciência, onde há uma riqueza de colegas de todas as áreas. Conversava com um colega que teve a formação de mestrado na Grã-Bretanha e Suiça em energia solar e resolveu voltar para o Brasil apesar de quatro convites de doutorado, apesar de inexistir marco regulatório para energia solar no país (em compensação, planejamos Belo Monte e usina de energia atômica na Bahia). Ao mesmo tempo, estava junto colega zoóloga que pesquisava a questão dos peixes e seus problemas com barragens. Ambos votaram em Marina. (Obviamente, quem é inteligente é capaz de perceber que esse post não é propaganda para Marina. Quem não é, bem, que fazer?)

Enfim, a euforia dos últimos tempos não deve ocultar questões importantes que se apresentam nesse século XXI. Optamos por um projeto que é, ainda, o último fôlego do século XX. Planejamos crescer em velocidade acelerada nos próximos anos para alcançar os norte-americanos e europeus. Mas por que não pensar em algo totalmente novo, algo que possa ensinar inclusive nossos vizinhos do Norte? Seria muito arriscado? Mas não é risco a única possibilidade de o Novo sobrevir? E para o novo século que inicia, novas ideias são necessárias.

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2 respostas em “UM OUTRO BRASIL

  1. Moysés, muito bom. Também vejo essa virada de rumo como melhor alternativa ao modelo de corrida desenfreada.

    Só fiquei meio perdido nesse trecho: “Ao mesmo tempo, poderia congregar pesquisadores das ciências humanas e da filosofia para pensar as possibilidades de criação de uma nova ética e cultura”.

    Existe a possibilidade de criação de uma ética? Nos termos aí propostos, soa um pouco artificial demais, pra mim. Imaginei vários intelectuais discutindo a “nova cultura”, mas como implantá-la já que falamos exatamente de ética e cultura? Talvez eu esteja me atrapalhando nos conceitos dessas duas palavras.

    Abraço!

  2. Tem toda razão, Arthur. É claro que ética e cultura não são coisas que se faça mediante invenção acadêmica; geralmente é o inverso. Em todo caso, podemos imaginar uma circularidade virtuosa entre academia e cultura de modo às duas se transformarem numa mesma direção.

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