A OBSOLESCÊNCIA DO CAPITALISMO

Hoje comemora-se algum punhado de anos do início da corrida espacial que marcou profundamente a segunda metade do século XX. Luta que espelhava perfeitamente o traço característico da época: a polaridade capitalismo X comunismo medida a partir do progresso técnico e do potencial armamentista. “Corrida” contra a qual se ergueram pensadores reacionários como Heidegger e progressistas como Adorno e Marcuse. Tempo cuja data termina fundamentalmente em 1989, com a queda do Muro de Berlim.

Desde então, o século XX agoniza nas suas formas mais decadentes: o neoliberalismo como farsa (pois jamais pôde se executar até o fim, recorrendo constantemente ao Estado para resolver suas “crises”), a social-democracia da desesperança (negociando com fascistas, xenófobos e burocratas), o comunismo denegador (um dogmata anacrônico), as cleptocracias e os fundamentalismos diversos, sobretudo os teocráticos (total ausência de horizontes).

Depois de tantos estragos que causou, a “globalização” (impulso duplo de expansão da comunicação e da informação, sobretudo a partir das mídias eletrônicas, e ao mesmo tempo expansão dos mercados desregulamentados impondo a “lei do mercado” ou as leis dos mercados financeiros) hoje impõe um novo cenário no mundo. Tentei situar em outro post as três reconfigurações políticas que surgem: o fascismo-yuppie que combina hi-tech, condomínios fechados e estratégias de emergência que jogam a política no permanente estado de exceção; o projeto chinês, que consiste na superinflação da sociedade da produção e do consumo até seu limite, a fim de incluir as massas e diminuir a exploração econômica; e a sustentabilidade, baseada num questionamento radical das premissas modernas de dominação da natureza, progresso técnico-industrial e revisão da qualidade de vida nas cidades.

O que surpreende, no entanto, é como a velocidade que move a tecnologia está, aos poucos, provocando um curto-circuito no sistema econômico-cultural do capitalismo. Aprendemos com Max Weber que o capitalismo é, antes de tudo, um ethos, isto é, uma forma de habitar o mundo. A cisão do marxismo dogmático entre “infraestrutura” e “super-estrutura” apenas nubla a questão. As relações simétricas de troca e de compra-e-venda antecedem, em muito, o capitalismo. O que o caracteriza é um certo “espírito” que se impôs com a emergência da burguesia, em especial a burguesia puritana, e acabou se tornando hegemônico.

Esse “ethos” apanhou bastante ao longo de todo século XX. Primeiro, pelo marxismo, que propôs mais racionalismo a fim de corrigir o resto teológico do liberalismo (a “mão invisível”). Depois, com a social-democracia enquanto alternativa mais generosa, corretiva, cívica de sociedade. O Estado intervencionista era já uma mitigação da guerra hobbesiana da sociedade liberal. Por fim, as contraculturas dos anos 60 racharam o último pilar da estrutura, a moral ascética puritana. Três golpes que esfacelaram na prática o ethos burguês.

Mas esses próprios processos entram em declínio. O racionalismo do planejamento comunista rui entre os escombros dos mortos do Gulag. A burocracia kafkiana engole a social-democracia e suas promessas conciliatórias. As contraculturas não conseguem passar de um espelho invertido daquilo que criticam. Com isso, o ethos capitalista retorna na sua forma decadente: o yuppie e o neoliberalismo. Sem conseguir iludir com suas promessas já não-realizadas, constitui praticamente uma religião do desespero cujos traços marcantes são os livros de autoajuda, a drogadição crônica, o cinismo como regime discursivo e a própria mensagem de “fim da história”.

Mas esse ethos decadente tinha um trunfo: venceu a corrida do progresso técnico. Mais do que nunca, o neoliberal orgulha-se de ser o mais “eficiente”. Nenhum sistema político-econômico seria capaz de tantos resultados técnicos (vulgo “progresso”). Apesar da miséria ainda existente, dos bolsões de pobreza, da disseminação de “losers”, da economia psíquica perturbada, apesar de tudo o neoliberal tem ao seu lado a tecnologia.

Golpe suicida, pois o que o neoliberal não podia contar era que a própria tecnologia corroesse, por dentro, esse sistema. Com a internet, em especial, novas formas de relações econômicas (a dádiva, a pirataria, as redes sociais etc.) começa a questionar o ethos hegemônico. E o que o neoliberal jamais poderia suportar é que seu regime é obsoleto. Que seja injusto (desde que legal) ou desigual (o mundo não é bom para todos), tudo bem. Ineficiente, jamais. Mais do que tudo, o neoliberalismo – com sua propriedade intelectual e toda rigidez anexa – é um entrave à tecnologia. Mais do que nunca, não é uma exigência intelectual que exige uma reorganização do sistema; são os próprios fatos que apontam para a emergência de uma nova economia. A tecnologia de ponta, característica fundamental do yuppie (com seus carros e gadgets em geral), é a chave para o início da sua superação.

Anúncios

4 respostas em “A OBSOLESCÊNCIA DO CAPITALISMO

  1. SENSACIONAL e definidor, o paragrafo que inicia com “Desde” e termina com “horizontes).”

    PS: Queria (mais uma vez) estar em um certo “Forum”, para ver como alguns entendem a questao das “liberdades” interneticas. E rir com pseudo revolucionarios chapa-branca defendendo mais do mesmo como se fosse vanguarda.

    Parece papo de esquerdologo de butiquim universitario, mas a casa nunca esteve tao perto de cair.

  2. Querido Moysés,

    Obrigado! Foi muito especial ler este texto neste dia em que sinto um esvaziar da alma devido a esta sandice em que vivemos. Mas não vamos falar de mim, falemos de seu texto – Excelente, didático e genial. Nunca vi nada escrito com tanta propriedade e com um poder de síntese invejável sobre este temas e todas suas nuances na história. Sim, isso me deixa otimista, as redes sociais e a tecnologia hi-tech veio naõ só para ficar, mas para destroçar algumas verdades que o neoliberalismo tentou impor por meio dela, mas sua dialética não deixou produzir uma antitese contro este próprio sistema yuppie de ser.

    Parabéns e continuemos esperando os movimentos pós-capitalistas.

    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s