RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

Alguns têm dificuldade intensa de entender que em certos fenômenos pulsa uma vibração que reflete o seu tempo como um todo. É o caso do carro para a cultura do século XX e, mais do que nunca, para a do século XXI. Essas pessoas – geralmente de leitura excessivamente literal do que está sendo escrito – não percebem que o problema não é o automóvel em si mesmo, mas o “carrocentrismo”, isto é, a dominação de toda ecologia urbana pela figura do automóvel. A demolição das paisagens e o trânsito selvagem são os principais reflexos dessa dominação. Uma imagem de Porto Alegre expressa bem essa dinâmica: o antigo cinema Baltimore, antes concentração cultural e espaço de convivência entre diversas “tribos urbanas”, deu lugar a um estacionamento.

Nenhuma banda soube expressar com tanta precisão a desolação de um mundo feito de fumaça, barulho e borracha do que a grande crítica da urbe contemporânea: o Radiohead. Evidentemente, se “Ok Computer” é o próprio espelho da contemporaneidade na sua dinâmica vazia e glacial, não poderia deixar de tratar do automóvel de forma ácida e central. Mas a crítica à cultura automobilistíca começa já com “Stupid Car”, b-side da época do longíquo “Pablo Honey”, presente no “Drill EP”, de 1992. Na canção, Thom fala de um acidente a que sobreviveu:

Pouco tempo depois, a banda retorna ao tema de forma ainda mais ácida e musicalmente mais elaborada em “Killer Cars”, b-side do álbum “The Bends” (1995). É possível notar a sonoridade típica do álbum com riffs empolgantes, refrões suculentos e melancolia desiludida:

E, como já disse, não poderia “OK Computer” (1997), o mais completo espelho do final do século XX, deixar de tratar da temática como inerente à frieza das relações nos nossos dias. O álbum já inicia com “Airbag”, uma suave ironia que se intitularia “An airbag saved my life”, como que a expressar uma vida colonizada pela tecnologia de tal forma que apenas esta ainda é capaz de lhe dar sentido. Na canção, nota-se a evolução do som para o nível supremo, mesclando elementos eletrônicos com um belíssimo riff de guitarra de Johhny Greenwood:

Por fim, a melancólica “Let Down”, também de “Ok Computer”, na qual os transportes, as vias de trânsito e as lihas férreas povoam o mesmo cenário em que os solitários desencantados e vazios de sentimentos mesclam-se às garrafas, numa sufocante rotina acinzentada e opaca. Ei-la:

PS: Nenhum dos clipes é oficial.

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5 respostas em “RADIOHEAD E A DESCONSTRUÇÃO DO “CARROCENTRISMO”

  1. Olha, acho que quem interpretou muito literalmente as letras agora fois tu. Não acho que sejam críticas diretas aos carros. Sim, Thom Yorke é um assumido anti-carros, pois o mesmo teve um acidente, como você comentou acima. nos dois b-sides me soa muito mais como algo mais interno do Thom, por causa de seu acidente, ele tentando explicar seu desespero e sua aversão a carros. Não sei se essa parte, principalmente

    -Too hard on the brakes again
    What if these brakes just give in?
    What if they don’t get out of the way?-

    Seria uma crítica ao sistema automobilístico ou ele expressando seu próprio desespero de que tudo possa dar errado. Para mim, parece mais a segunda.

    Já nas músicas do OC, parece mais uma análise da sociedade do que propriamente uma crítica aos carros, acho que se vê uma crítica apenas nessa parte:

    In a fast german car
    I’m amazed that I survived
    An airbag saved my life

    Sugerindo que, bem, carros matam, e ao mesmo tempo elogiando a tecnologia, de uma forma ou outra, além de celebrar seu “renascimento”.

    Enfim, belo post.

  2. Logo tu, Moysés, te atrevendo a escrever/interpretar as músicas do Radiohead…esse mundo tá perdido, meu amigo! Viva Bizâncio! Viva 😉

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