ENRIQUE VILA-MATAS, “DOUTOR PASAVENTO”

Lembro-me de, nos últimos dias de 2003, ter escrito um breve texto/poema (não sei exatamente o que era) no qual comemorava meu futuro desaparecimento. Lembro disso porque meu pai violentamente encontrou o texto na minha lixeira e o leu, vindo depois a me perguntar: “o que farias se fosse um pai que lesse isso escrito pelo filho?“, o que me provocou, logicamente, uma sonora indignação. Por óbvio esse intróito não é para censurar meu pai, que acertou e errou como todos os pais, mas para marcar bem o momento: eu estava finalizando a Faculdade de Direito e iria, enfim, “sumir” (viajar para a Europa de mochilão por um bom tempo). No texto, dizia algo como “vontade de sumir, mas a boa notícia é que VOU sumir”.
Vila-Matas, por essa razão, tocou em algo profundamente enraizado em mim mesmo com “Doutor Pasavento”: a vontade de desaparecer. Provavelmente pela minha personalidade depressiva (mas o que é isso, “personalidade”?), tenho uma tendência inexorável a querer simplesmente virar fumaça, evaporar, me desfazer do peso da existência. Não, por óbvio, como Hamlet em seu “ser ou não ser” (algo que o Doutor Pasavento, personagem de Vila-Matas, jamais cogita nem de perto), mas simplesmente ser como que esquecido, deixado de lado, aliviado do fardo do aparecimento. Pasavento, o personagem, também não é nada ingênuo e sabe que essa vontade está ligada igualmente a uma “afirmação do Eu”, algo que ele sempre refere como uma “relação complicada”, e realmente é. Desaparecer, aparecer, uma dialética incessante e sem fim que é a própria autoria.
“Doutor Pasavento” é, seguramente, um dos romances mais marcantes na minha vida, ao lado de “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde (o primeiro que me marcou), “Trópico de Câncer”, de Henry Miller, do poema “Uma Temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud, e alguns outros em menor escala.
Me senti de tal forma na angústia depressiva, paranóica e às vezes até esquizóide de Pasavento que as palavras parecem escassear na descrição dessa sensação. Nada pode dizer mais do que esse impulso benjaminiano, que Pasavento refere a partir de Robert Walser, do desaparecimento, da evasão, da fuga da realidade no seu peso dilacerante ou, para falar como outro romance que me influenciou profundamente, nauseante.
Não o brilho da glória, mas a invisibilidade da ideia – de certa forma não pode ser outra coisa que me define enquanto projeto lançado ao mundo – que Doutor Pasavento tão bem soube expressar.

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Uma resposta em “ENRIQUE VILA-MATAS, “DOUTOR PASAVENTO”

  1. A velha maxima que aprendi com uma professora de literatura do colegio, ali pela 7a serie segue valendo ao longo dessa vida: um BOM livro se identifica quando ao fecharmos a ultima pagina, nao somos mais os mesmos de quando abrimos a primeira.

    Se o proprio livro questiona a ideia de “ser” “alguem” e tornar-se ___________ (preencha como quiser), poderemos estar diante de um caso raro de meta-BOM-livro. Ou, no minimo, de uma historia instigante. Lerei.

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