SUSTENTABILIDADE E CRÍTICA AO CAPITALISMO

Marjorie Rodrigues escreveu post no mais importante blog de esquerda da blogosfera brasileira – O Biscoito Fino e a Massa – com o provocativo título Insustentável Sustentabilidade. O inteligente argumento da autora é que as iniciativas como “não use sacolas plásticas”, “apague a luz”, “mije no box do banheiro enquanto toma banho” são, no mínimo, inúteis diante dos verdadeiros danos provocados pela dinâmica do capitalismo na busca incessante pelos lucros, com a agravante da costumeira hipocrisia das empresas poluidoras promoverem eventos “sustentáveis”, entre outras coisas que o cotidiano miserável em que vivemos não cansa de apresentar. Marjorie tem toda razão no ponto em que sustenta, mas creio que a questão pode ser melhor equacionada.

Creio que a estratégia de imputar as necessárias transformações em nível ambiental para o âmbito individual não é nova. Na realidade, ela consiste na estratégia mais comum que vemos em termos de conservadorismo: converter todo problema de caráter estrutural, que tem como raiz nosso próprio modo de vida, em uma questão de cunho moral, vinculada ao mau comportamento de alguns indivíduos. É, por exemplo, o que acontece no Brasil em relação à questão da corrupção, na realidade resultado de uma apropriação privado-oligárquica do espaço público, mas tratada como coisa desses “políticos bandidos”. Acreditar que a conduta de alguns poucos indivíduos em relação ao meio ambiente é suficiente é uma perspectiva tão parva quanto considerar a sustentabilidade como algo apenas “politicamente correto”, como se a sobrevivência do Planeta no futuro fosse algo meramente decorativo.

Apesar disso, embora concorde com o post, vejo as coisas de forma exatamente inversa àquela colocada, pois não é a questão da sustentabilidade que deve se integrar na crítica ao capitalismo, mas o oposto. É a crítica do capitalismo – se não quiser ser mais um capítulo industrial-desenvolvimentista a destruir o que resta do nosso Planeta – que deve se integrar ao discurso da sustentabilidade. Em outros termos, porque o capitalismo – em especial na sua combinação contemporânea com a sociedade de consumo – é completamente insustentável. Se a crítica ao capitalismo aponta para a injustiça social, para a exploração do trabalho em nome do lucro,  para os bolsões de miséria e a escassez desnecessária de alimentos, remédios e outros bens necessários à vida humana, ela não pode deixar de incluir, como uma segunda camada, para a viabilidade dessa própria vida. Em outros termos: sem um Planeta habitável não adianta existir igualdade e justiça social. É tão difícil assim perceber a extrema concretude da questão ambiental assim? Será que não percebemos que o ar que respiramos provoca mutações na nossa saúde, para dar um exemplo trivial? A ilusão monádica moderna, aparentemente, embora tenha provocado inúmeras críticas (desde Hegel, pelo menos), não deixou de provocar a sensação de que podemos ajustar ilimitadamente a nossa vida humana, como se vivêssemos em bolhas isoladas do ambiente. Nada mais falso que isso. Somos em permanente relação.

Mas a sustentabilidade não é uma questão meramente defensiva, como os políticos tradicionais costumam vê-la. Na realidade, essa, e não qualquer outra, foi a principal razão para meu voto em Marina, a única que pôs o tema nos eixos que vou colocar durante as eleições. Para Dilma, Serra e Plínio, o meio ambiente é algo que deve ser “preservado” (o que necessariamente carrega consigo a seguinte continuação: “desde que possível”). Consequentemente, basta negociarmos com ambientalistas – como negociamos com lobistas e movimentos sociais em geral – para conseguir um bom acordo e, com isso, espécie de “superação dialética” do problema, caminhando lado-a-lado progresso e preservação ambiental. Essa, definitivamente, não é a mesma visão de Marina e daqueles que põem a sustentabilidade em outros termos. Para nós, a sustentabilidade também tem um aspecto positivo ou, se quisermos, construtivo, que consiste na busca da qualidade da vida.

O desenvolvimentismo que subjazia aos programas de Dilma, Serra e Plínio no fundo se apóia na ideia de crescimento econômico e, com ela, numa valorização do aspecto quantitativo, por exemplo, no PIB, no salário-mínimo, nos índices de produção e emprego etc. O que a sustentabilidade propõe, paralelamente, é que ao lado dessa dimensão e com certa preponderância deve figurar a dimensão qualitativa, isto é, uma análise voltada para o bem viver das pessoas. Um exemplo: a superprodução de carros durante o Governo Lula obviamente é melhor do que a miséria e humilhação social a que eram submetidas algumas pessoas que não podiam adquirir veículos. Contudo, já vemos claramente os reflexos do crescimento insustentável nas cidades com engarrafamentos brutais, pessoas irritadiças, fobia do trânsito, aquecimento global e poluição. Pensar a questão do ponto de vista qualitativo é pensar não apenas defensivamente, isto é, o que podemos fazer para evitar detonar o meio ambiente, mas pensar com o meio ambiente enquanto “nossa casa”, como o lugar em que moramos e queremos morar bem. Obviamente, isso não significa que em alguma medida o desenvolvimentismo tenha preocupações qualitativas e a sustentabilidade quantitativas, mas tudo é uma questão de enfoque e preponderância.

Por isso, reitero, creio que embora Marjorie Rodrigues tenha acertado no seu ceticismo quanto ao ambientalismo “politicamente correto” (isto é, praticamente inócuo ou hipócrita), a questão deve ser equacionada no sentido de integrar a crítica ao capitalismo ao discurso da sustentabilidade, e não o inverso. Em outros termos: a crítica ao capitalismo deve ser sustentável, e não desenvolvimentista. A racionalidade que subjaz à exploração do trabalho – típico alvo da crítica ao capitalismo – é mais profundamente a racionalidade exploradora do meio ambiente, a Totalidade que os frankfurtianos, entre outros, sempre referiram. Ninguém melhor que Guy Debord (foto) expressou isso no brilhante artigo publicado pelo Sopro, chamado “O Planeta Doente“. Que essas linhas sirvam de convite ao leitor para deliciar o belo texto do teórico da sociedade do espetáculo.

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7 respostas em “SUSTENTABILIDADE E CRÍTICA AO CAPITALISMO

  1. Desculpe a invasão no blog. Estranhei quando você associou o seu pensamento ao de Marina, já que não vejo, porque ignoro mesmo, traços anti-capitalistas nela. Lembro do Plínio nos debates a chamando de eco-capitalista. Mas se a prática dela é a de recusa à interferência no meio-ambiente sem essa solução “dialética” (ou seja, se ela tem a postura “santuarista”, como alguns jocosamente se referem), então ela de fato encarna uma crítica potente.
    Porém, olhando o conjunto da plataforma de Marina, vê-se ela está bem distante de um anti-capitalismo.
    Lembro aqui de um texto de um amigo sobre ela http://observatoriodocaos.wordpress.com/2010/11/05/o-matiz-do-verde/
    As eleições passaram, mas não me parece fora de tempo discutir essas coisas.
    Belo blog!

  2. Quando falas de mudar de uma visão quantitativa para uma qualitativa sobre a qualidade de vida me lembro de imediato no “Bien Vivir” dos andinos.

  3. Wesley, sinta-se em casa.
    Prometo responder ao seu comentário quando retorno de férias. Por ora, só chopp!
    Abraço

  4. Excelente abordagem deste caro assunto (aliás, o assunto que deveria ser o principal porque está por trás de todos os outros)por tocar que o modo como nos organizamos, as nossas bases estruturais, é que criam os problemas e barram sua superação.

    Do jeito que vamos, não é difícil dizer que, cedo ou tarde, nos extinguiremos (os humanos, não o mundo). Infelizmente, muitos acreditam que afirmar isso é ser pessimista, dramático e catastrofista. Não vêem o óbvio e ficam brincando de cálculos estatísticos, pesquisas empíricas, comprovações cientificamente críveis para algo observável por um neardental qualquer: existe um substrato de condições da existência que foi terrivelmente devastado, modificado, e continua a ser, cujas consequências são notáveis sensivelmente, notáveis visivelmente. Até a vida se constituir foram bilhões de anos, e aí chega pisando um homem pretensioso que, com orgulho de ter contado os anos da terra (mesmo que sua vida não possa ser capaz de captar minimamente a dimensão desse tempo distante), diz que tudo vai mto bem pq somos inteligentíssimos e nossa ciência é avançadíssima a ponto de nos salvar de qualquer jeito – destrói mas vai criar um jeito, esperem.

    Bem, a natureza, o universo, a existência, os elementos inanimados andam falando conosco que desentendemos. Daqui a pouco, gritarão. Considero uma sorte que ainda estejamos sofrendo amenidades, uma sorte (mas sorte e acaso não são conceitos válidos, sequer acreditados, ao homem-que-sabe e tudo-pode-saber).

    Da Marina, concordo mas quanto ao princípio: era um outro discurso sobre a sustentabilidade, uma visão ecológica mais próxima da necessária a alguma mudança. Entretanto, para o fim da campanha, aquele discurso que me comoveu já tinha se dissipado em muito e ela adotava uma postura conciliadora, expressando “crescimento econômico” cm ideia em torno da qual gira alguma preocupação ambiental, bastante tecnocrática. Infelizmente… ela perderia, fato, mantendo a postura inicial, mas seria com uma admirável coragem.

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