TRÊS DOGMAS DA ESQUERDA REALISTA

Sabe-se que desde o declínio das contraculturas dos anos 60 e a queda do Muro de Berlim a esquerda encontra-se tremendamente acuada e sem projeto. Com a emergência da combinação neoconservadorismo (“disciplina moral”) e neoliberalismo (“disciplina de mercado”) e seus personagens típicos, os moralizadores e yuppies, vive-se, desde o fim dos anos 70, em um ethos mundial sob hegemonia da direita. Com alguns ícones como Nixon, Reagan, Bush pai e filho e, na Inglaterra, Margareth Tatcher, a direita conquistou não apenas o poder no sentido transitório e jurídico do termo, mas sim no seu sentido político: como o pano de fundo referencial que comanda nossas formas-de-vida contemporâneas.

Diante disso, a reação da esquerda foi o recuo imediato. Governos conformistas como Bill Clinton, conciliadores como Lula ou Bachelet, reativos como Chavez ou indissociáveis da direita como Tony Blair, todos apontam para o sinal de que a esquerda se disfarça de outra coisa para conseguir o poder. Chegou a cunhar o termo “realismo de esquerda” para sinalizar essa espécie de acomodamento da esquerda à Realpolitik nos anos 80, pactuando com a hegemonia do mercado e o esvaziamento do espaço político em especial pelo lógica do espetáculo. Como acredito que a mudança de rumo – embora explicável por certo luto necessário – hoje é contraprodutiva, atacarei aqui os três dogmas que considero fundamentais nesse “realismo”:

1) É proibido mencionar Marx e as questões sócio-econômicas: uma vez que o uso de Marx era canônico, dogmático e implacável nos totalitarismos de esquerda, o melhor a fazer é simplesmente inverter o tabu: em vez de citarmos Marx a todo momento, jamais citar, sob pena de cometer crime de heresia ou ser etiquetado de “dinossauro” pelo pensamento yuppie. Como se Marx não estivesse muito acima do marxismo dogmático de alguns dos seus intérpretes, como se os frankfurtianos de primeira geração (Marcuse, Benjamin, Adorno, Horkheimer) não tivessem feitos atualizações preciosas da teoria de Marx (em especial pelo acréscimo da psicanálise), e como se esse pensamento pró-mercado não fosse muito mais arcaico na sua “teologia da mão invisível” do que o sistema de Marx.

Na sua versão mais caricata, esse pensamento rejeita toda variável e reduz tudo a artefatos culturais, tornando-se uma grande celebração da “pós-modernidade” e da “diferença”. Para esses pensadores  a favela não é um lugar de penúria, violência e miséria, mas uma espécie de festa onde os pobres apresentam sua “diferença cultural”. Ignorando o legado de pensadores como Foucault, Derrida e Deleuze, todos em alguma medida marxistas e preocupados com a “política do privado”, transformam a questão da diferença em uma instituição celebratória do mundo em que vivemos, apesar das desigualdades, da injustiça e da vida nua que morre todos os dias de fome, frio, assassinato, indiferença e assim por diante. Nesse “pós-modernismo celebratório” questões sócio-econômicas são “demodê”, como se tivessem, de um dia para o outro, desaparecido. Na sua versão ainda mais caricata, sequer existem mais esquerda ou direita, distinções “superadas”, apenas uma espécie de “terceira via”.

2) É proibido apresentar soluções radicais que impliquem rupturas; na dúvida, caminha-se para o centro: esse me parece um dos aspectos centrais. Toda solução radical é vista com desconfiança, pois pode implicar uma rejeição por um público domesticado pela indústria do espetáculo (e por isso sujeito aos mais diversos “pânicos morais”). A verdade dessa afirmativa não deveria significar um recuo para o centro, muitas vezes convergindo para o conservadorismo de direita (a política de drogas é um dos exemplos mais claros nesse tema), mas uma inflexão radical que ataque os próprios meios de comunicação, ou seja, a esfera que coloniza a política com sua lógica do espetáculo e esvazia do sentido as discussões temáticas, transformando-as em disputas publicitárias. Em vez de se submeter aos pânicos morais, fazendo conciliações inconciliáveis e jogando suas propostas no lixo, a esquerda deveria atacar a própria fonte dos pânicos morais, buscando desativar essas relações de poder (o PNDH-3 é exemplo claro desses pânicos e recuos até o estado anódino da esquerda).

É preciso perceber que é justamente a falta de inflexões de ruptura da esquerda que garante a hegemonia da direita na conformação do ethos mundial. Além do problema ético do justo anseio por alguém que se posicione com a verdade na esfera pública, até mesmo do ângulo estratégico (que a esquerda realista gostaria de invocar a seu favor) essa posição tem curto prazo ou eficácia limitada. A situação de Obama é, nesse sentido, exemplar: de tanto recuar para o centro em relação ao seu liberalismo de esquerda, Obama está sendo esmagado por forças que o impedem de governar e perdendo a energia “messiânica” que o ajudou a se eleger de forma totalmente surpreendente. Não apenas a juventude que nele votou começa a se desiludir, percebendo-o como mais do Mesmo, mas ele próprio daqui a pouco sequer poderá alegar a seu favor que tentou a “mudança”. O mesmo acontece, em menor escala, com Dilma, o PMDB e outras forças políticas não-partidárias, mas até mais fortes que os partidos, tais como a banda ruralista. De tanto recuar para não ter que enfrentar o pânico moral produzido midiaticamente acerca do MST, o Governo Lula e agora Dilma abdicou de uma política para os desterrados, deixando os imensos latifúndios brasileiros intocados.

Moral da história: o recuo para o centro em certas situações pode ter sido a única alternativa viável, mas hoje é contraprodutivo. Por causa dele, a esquerda aparece desidratada, anêmica, sem ideais, e tudo isso é fonte do descrédito que tem em relação a uma juventude que, na falta de algo em que acreditar, acaba aderindo ao individualismo niilista e cínico da contemporaneidade. Com isso, o ethos conservador em que vivemos permanece hegemônico.

3) As instituições liberais tais como a democracia representativa, a separação de poderes e os direitos fundamentais são intocáveis: deixei por último o dogma mais polêmico. Com a queda do Muro de Berlim, as contestações da democracia liberal arrefeceram. A esquerda passou a adotar o discurso da preservação das instituições liberais e a aposta na democracia como mecanismo de transformação social. Há algo mais representativo disso do que o próprio destino da Escola de Frankfurt, que de Adorno – um crítico radical da vida danificada burguesa – passa a Habermas – um defensor da “democracia procedimental” e do “constitucionalismo patriótico”? Um recuo estratégico que tornou atraentes autores que poderiam parecer ingênuos e equivocados há 30 ou 40 anos atrás, como John Rawls e o próprio Habermas, mas hoje são vistos como realistas (!), apesar…

Bem, o problema são os direitos humanos ou a democracia representativa? Não exatamente. Não que eles signifiquem estruturas que possamos abdicar hoje em dia, em especial devido à conjuntura política. Mas eles simplesmente não garantem nada. A democracia, embora seja o regime de Estado mais interessante entre os já inventados, está longe de ser uma solução para problemas mais profundos como, p.ex., o fascismo cotidiano. A plataforma da esquerda não pode terminar na democracia, tem que começar por ela. Mas precisamos, urgentemente, discutir conteúdos. A crença de que o procedimento será por si só salvador é tão ingênua quanto absurda: na prática, o procedimentalismo tem sido aliado do fascismo. Trata-se da profunda confusão entre direito e justiça, dimensões jamais confundíveis. O procedimentalismo – com seu formalismo nivelador – tem permitido o esvaziamento da esfera política, transformando-a num show publicitário. As últimas eleições brasileiras – na qual os candidatos rigorosamente se esforçavam para não ter nenhuma proposta, pois isso significaria tomar posição – é exemplo disso. Em um certo debate, Dilma e Serra passaram 10 minutos discutindo sobre a privatização da Petrobrás, literalmente um não-assunto (nenhum dos dois pretendia privatizá-la).

O problema das instituições da democracia liberal é que a confusão entre direito e justiça é perniciosa: o fato de não estarmos dispostos a abrir mão da liberdade de expressão, da eleição direta, entre outros, não significa que nela também não estejam contidas instituições injustas, inclusive entre os direitos fundamentais (p.ex., em muitos casos o direito adquirido e o direito de propriedade – que são, aliás, a mesma coisa). A consagração da Constituição parece um equívoco que engessa a política e, ao que parece, não é alvo de discussões. O fato de que os direitos humanos representem obstáculos ao Estado, e portanto garantias do indivíduo, nunca foi óbice para que se pensasse inclusive em mecanismos ainda mais radicais de liberdade: para a geração-68, esse pensamento foi habitué.  Não queremos abrir mão dos direitos humanos em nome do Estado, antes transformá-los em instrumentos profanos que correspondem às nossas próprias formas-de-vida. Para alcançar isso, temos que caminhar da violência do Estado que supostamente efetiva esses direitos (p.ex., desde o sistema penal) para o estudo do direito, ou seja, para a educação.

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2 respostas em “TRÊS DOGMAS DA ESQUERDA REALISTA

  1. Muito bem colocado.
    Texto pertinente e raro – já falei que votaria em ti para cargos eletivos quaisquer?
    Principalmente, quanto às plataformas da campanha de Barack Obama e a realidade do seu governo, muito bem analisadas.
    Talvez eu não chamasse o governo Bill Clinton de conformista. Porém, como simplesmente não sei do que chamá-lo, nada mais a declarar tenho eu.
    “Deixar a internet agora vou”, já diria o YODA.

    abraços

  2. Muito bom Moche. Ter nominado “dogmas” foi muito perspicaz da tua parte. Os três pontos foram muito bem criticados, principalmente o terceiro, que, na minha opinião, é nevrálgico; há no segundo ponto um fechamento excelente, porque utiliza imagens, digamos assim, asfixiantes: “Por causa dele, a esquerda aparece DESIDRATADA, ANÊMICA, SEM IDEAIS, e tudo isso é fonte do descrédito que tem em relação a uma juventude que, na falta de algo em que acreditar, acaba aderindo ao individualismo niilista e cínico da contemporaneidade. Com isso, o ethos conservador em que vivemos PERMANECE HEGEMÔNICO.” Bom, e a conclusão, benjaminiana, surgiu como uma resposta qualificada. É muito bom ler teus textos novamente.
    Um abraço.

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