CÍNICOS E EVANGÉLICOS

Em algum momento da eleição algo aconteceu. Olhada friamente, essa frase é quase absurda. Porém, se levarmos em consideração que o modelo publicitário que colonizou a política visa exatamente a isso, ou seja, os candidatos querem justamente que fato algum ocorra, pois isso implicaria a necessidade de defender ideias, tomar posição, então a afirmação deixa de ser trivial. Esse algo estranho não foi percebido nem bem delimitado. A campanha difamatória da grande mídia contra Dilma não vinha dando certo, a candidatura de Serra não conseguia emplacar (o que era constatável por brigas internas e posts exaltados de apoiadores contra o candidato), Marina estava estagnada nos seus 13%, Plínio continuava – depois de pequeninos shows de dogmatismo e ironia nos debates (em todo caso, suas ironias ao menos desnudavam o vazio que circundava as discussões) – nanico, e Dilma era praticamente eleita no primeiro turno. Algo, então, aconteceu.

O desempenho de Marina nos debates foi, aos poucos, melhorando. A fragilidade de Dilma, pouco acostumada a eleições, também aparecia. E Serra, convenha-se, não convence ninguém fora de SP. Nesse ínterim, houve uma “segunda onda” de votos para Marina. Os votantes são identificáveis pelo discurso crítico petista: a juventude de elite, em especial das grandes cidades. O perfil dessa juventude pode ser relacionado com o magistral livro de Vladimir Safatle, Cinismo e Falência da Crítica. Desiludida com “a política”, essa juventude cresceu em meio à ressaca pós-Queda do Muro e pós-contraculturas, migrando da arena pública para a vida privada. Sem os  freios religiosos que antes ocupavam o espaço de referencial normativo, vive no regime discursivo do cinismo: reconheço a lei moral (por exemplo, que existe injustiça social), mas como ninguém está lá, também não estou (portanto, não cabe a mim lutar contra injustiça social, apenas ser mais um individualista entre outros). É uma espécie de naturalização da contradição performativa (isto é, a contradição entre o que digo e o que faço).

Uma vez que essa juventude não consegue politizar sua ação, pois considera política coisa de “políticos”, todo seu potencial crítico que poderia ser transformador volta-se unicamente para uma ação conservadora: o moralismo. A moralização da política consiste em considerar que problemas estruturais são, na realidade, desvios de caráter, o que também significa dizer que no fundo tudo está correto (por isso a bandeira anticorrupção é conservadora e popular). Uma vez que não há ideais para lutar, pois o mundo é assim mesmo (já foi plenamente naturalizado), resta apenas o niilismo e a guerra de cada um por si. O que resta para a crítica é uma espécie de gracejo trágico, mais ou menos na linha do humor de Marcelo Tas.

Essa juventude moralista viu em Marina a possibilidade de uma alternativa diferente e íntegra. Livrando-se de José Serra, que pertence a um partido com toda uma história no poder (e, portanto, com toda uma história de corrupção, como todos os outros), encontrou em Marina a chance de um consenso em torno de temas transversais na sociedade, tal como o meio ambiente e a corrupção na esfera pública. Uns três ou quatro pontos a mais de Marina devem ser reputados a essa juventude, alvo de seguida ironia petista como alienada e que teria votado em Marina por ser “descolada”, quase como uma moda.

Ao lado dos cínicos, também houve um movimento subterrâneo, imperceptível para a mídia, que foi o crescimento do fator religioso durante as eleições. Uma vez que Dilma era francamente identificada no seu passado com lutas de esquerda (em especial a luta armada), começaram a proliferar boatos em torno de temáticas nevrálgicas como o aborto e o casamento gay. Temáticas que, diga-se de passagem, sempre foram lançadas contra Marina pela esquerda. Como em um ricocheteio, de repente Dilma e em menor escala Serra se viram na defensiva diante de tais temas, o que gerou uma migração de votos final para Marina, sabidamente evangélica (a terceira e última onda, que fez sua candidatura alcançar 20%).

É preciso entender os evangélicos, mesmo os fundamentalistas, como um fenômeno tipicamente do século XXI. Diante da opulência da sociedade do consumo e do seu habitante performático, o evangélico reage apontando sua falta de espiritualidade, encontrando nos seus dogmas a âncora vital necessária para suportar a realidade cotidiana. Além disso, o fundamentalismo evangélico está ligado especialmente à periferia da periferia, indicativo da necessidade de um anteparo firme para suportar as condições desiguais e injustas em um país como o Brasil. Diante do contexto de violência estrutural brasileiro, o pobre resiste com um “sou trabalhador” ou “estava na missa” (pessoas que convivem no sistema judiciário sabem que testemunhas pobres jamais afirmam ter se divertido em qualquer situação, estão sempre “cumprindo deveres”; é a forma de evitar a estigmatização do “vagabundo” e adjacências). Apesar de Marina jamais, em nenhum momento das eleições ter invocado por conta própria sua religião (e de seu maior grupo apoiador ser francamente laico), sua identificação com a periferia acabou alavancando esse crescimento.

Esses dois fenômenos mal-lidos pela esquerda em geral revelam algumas surpresas: (a) a juventude “desiludida” ainda pode ser mobilizada, devendo-se para isso politizar sua energia crítica que está moralizada; (b) o fenômeno religioso ingressa como evento negativo no final do primeiro turno, na sua faceta mais fundamentalista; (c) isso sinala a necessidade de que a religião seja vista como algo sério no século XXI que exige um repensar das nossas categorias políticas. Aliás, há muito a tradição filosófica discute essas questões seriamente (Benjamin, Levinas etc.).

No próximo post, falo sobre o segundo turno e as eleições como um todo.

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7 respostas em “CÍNICOS E EVANGÉLICOS

  1. mazááááá Mocherina!!!!!
    the boy is back in town!
    velho. genial o post. falou tudo, com tanta clareza que eu quase consigo nomear alguns eleitorezinhos da Marina ali descritos. tu já deve imaginar de quem eu falo. “Politizar o que está moralizado”. Perfeito.
    Só me assustei quando girei o cursor pra baixo e já vi nomes de autores de filosofia ou criminologia antigos…putz…será que vem bomba por aí?
    veremos.
    de qualquer forma, obrigado por voltar.
    abraços

  2. Pingback: Democratas e Republianos: primeiras notas sobre as manifestações de Julho | O Ingovernável

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