ELEIÇÃO (EM TRÊS ATOS)

Uma das razões que mais incessantemente me empurravam a voltar a escrever em blog eram as eleições de 2010. Dedicarei a ela três posts: o primeiro e o segundo se dedicarão a (re)interpretar o grande destaque da eleição – o “fenômeno” Marina Silva -, primeiro lançando luzes sobre o que chamarei do seu eleitorado típico e depois tratando dos seus dois atípicos (nesse segundo, já aproveitarei para interpretar o fenômeno evangélico durante as eleições). No terceiro post, tratarei do (lastimável) segundo turno e do papel sujo da grande mídia durante as eleições.

Desde que Marina Silva se habilitou à Presidência da República identifiquei nela a possibilidade de uma alternativa qualitativamente superior a Lula e sua sucessora Dilma. Pois se Lula fez um grande governo — e fez, indiscutivelmente (dos que vi, foi o maior, e talvez tenha sido o maior de todos) — Dilma não representava avanço qualitativo, mas apenas quantitativo, isto é, espécie de continuísmo que aprofundaria as políticas do Governo Lula. Embora isso não fosse de todo ruim, em pelo menos quatro pontos eu via com críticas: ambiental, educação, segurança pública e formação da esfera pública. Em especial a primeira, quando, desde muito antes do período eleitoral e da polarização de candidaturas à Presidência, tomei posição em favor de Marina contra Dilma (aqui, aqui e aqui, p. ex.).

A visão dos petistas, nesse sentido, foi via de regra extremamente estreita. Sem conseguir perceber que há um campo político no Brasil de esquerda, mas insatisfeito com os rumos do petismo (não apenas os morais), leram Marina como uma “neoliberal disfarçada de ecologista” que, no fundo, buscaria uma aliança no segundo turno com Serra, repetindo o que fez Fernando Gabeira no RJ. Além disso, seria  “homofóbica” e evangélica fanática – e é preciso marcar bem isso porque, no segundo turno, todas essas acusações ricochetearam sobre o PT e, envergonhados, os petistas recuaram estrategicamente. A vanguarda petista atéia e afinada com os direitos humanos insistiu veementemente nessa acusação, colocando a religião no centro de um debate que Marina sempre recusou (assunto que abordarei no próximo post).

O que os petistas não perceberam — ou fingem há muitos anos não perceber – é a insatisfação de parte da esquerda com seus procedimentos e mesmo com algumas posições políticas. Esse espectro de descontentes é heterogêneo, indo de Marcos Rolim, Luiz Eduardo Soares e Viveiros de Castro até Cristovam Buarque, Fernando Gabeira, entre outros. Dissidentes que saíram do PT, com Marina, por princípios (eu dizia isso aqui, antes da candidatura, referindo inclusive Marina no grupo). Esse espectro político abrange liberais de esquerda, anarquistas, pacifistas, hippies, ambientalistas, alguns outros movimentos sociais que não se identificam com os trabalhistas em geral. Neles eu percebia a chance de Marina consolidar um novo campo de esquerda, uma “esquerda não-trabalhista”.

É claro que esses grupos mesmos — eu, inclusive — tinham críticas em relação a posições de Marina. Gostaríamos que tivesse posições mais ousadas sobre o casamento gay, o aborto, a descriminalização das drogas, entre outras. Sua posição sempre honesta, aberta e receptiva, no entanto, fez com que não perdesse nossos votos. (E a poupou do vexame que os candidatos do segundo turno levaram a cabo.) Não existe, contudo, candidato(a) perfeito(a), apenas os que se aproximam mais ou menos das nossas posições.

Ao lado disso, Marina, ao olhos de grande parte da esquerda, representou não uma “terceira via” — quase como um anjo que foge das dicotomias e governa com “paz e amor” — mas uma verdadeira oposição ao mesmo modelo comum a Dilma, Serra e Plínio. Esse modelo é a matriz industrialista moderna que baseia suas políticas na ideia de “crescimento econômico” e hoje é o principal motor da sociedade do consumo. Marina compreendeu profundamente que sustentabilidade não é uma palavra oca que cabe em qualquer discurso, mas a própria condição real, concreta, de o mundo em que vivemos subsistir. Nada mais nem menos que isso.

Essa energia utópica, ao lado da integridade de Marina (que atraiu a segunda leva de eleitores), foi o combustível que a empurrou para surpreendentes 13% no início da eleição. É preciso marcar bem que no primeiro momento a leitura petista é totalmente equivocada sobre o fenômeno Marina: não é o eleitor “terceira via” (o que acha que direita e esquerda não existem mais) nem o fanático religioso (que a desconhece) a votar em Marina, mas o eleitor de esquerda preocupado com a questão da sustentabilidade como tema central da política no século XXI. Sem dúvida o belíssimo post de Alex Nodari sintetiza essa energia utópica. Reservando para Marina o mesmo papelão que Gabeira fez nas últimas eleições (filiando-se ao pior do pior da direita), os petistas destilavam preconceitos, arrogância e incompreensão, não compreendendo que essa primeira fatia – a dos 13% – tem na realidade perfil liberal e não confia no PT (embora, no risco do cálculo, talvez confie mais no PT que nos outros partidos) para temas de Estado como a educação, a segurança, a esfera pública e o meio ambiente.

Mais tarde, refém do discurso da grande mídia em torno do denuncismo contra Dilma (que estava virtualmente eleita no primeiro turno), Marina emperrou e, até perceber a armadilha, estagnou-se discursiva e eleitoralmente. Com a leve queda de Dilma no final,  Marina ganha novo fôlego, mas aí entramos na segunda e terceira onda da “Onda Verde”.

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5 respostas em “ELEIÇÃO (EM TRÊS ATOS)

  1. Nao se pode negar que realmente o FENOMENO Marina foi largamente INCENTIVADO estrategicamente por uma direita conservadora que tinha apenas como interesse tirar votos do PT (Dilma) e por isso foi uma “surpresa util” no pleito.

    Mas fico muito feliz de ver que os numeros expressivos (20% do eleitorado) autorizam a pensar que ela e seu plano foram muito maiores que isso. Sem falar que sua impressionante marca vai praticamente OBRIGAR os proximos “pretendentes” ao cargo a incutir largamente em suas agendas pautas como a ambiental.

    Cabe aos votantes fiscalizar se os candidatos que devem tentar surfar nas proximas ondas verdes realmente possuem propostas no sentido ou se apenas querem cumprir um apoio FAKE a “causa”, como Serra e Dilma procuraram fazer para ganhar simpatizantes de ultima hora, no 2o turno.

  2. nesse post, acho que tu pode acrescentar uma menção à desilusão e despolitização geral dos liberais insatisfeitos, que, a meu ver, parece decisiva, principalmente a despolitização. o fato de atribuir a responsabilidade sobre qualquer problema social aos políticos fez com que muita gente quisesse no poder o “menos político” dos 3 – no caso, Marina, que, muito convenientemente, ainda engordava seu eleitorado ao priorizar a questão ambiental, sempre uma preocupação saudável, mas obsessão chata e perigosa desses que votaram nela, pelo risco de esquecerem tantas outras coisas. acho que por ser a estrangeira e a ecologista é que ela chegou aos surpreendentes 20%.

  3. Pois é, velho, mas creio que sob o guarda-chuva “sustentabilidade” a questão transborda a questão tradicional do meio ambiente e passa a ser de qualidade de vida. Hoje em dia, não vejo questão mais importante que a qualidade de vida.

  4. Pingback: Democratas e Republianos: primeiras notas sobre as manifestações de Julho | O Ingovernável

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